Enio Verri: É impossível servir a dois senhores

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O líder do PT na Câmara, deputado Enio Verri (PR), em artigo especial, afirma que o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é um João Bobo que oscila lá e cá na vã e perigosa tentativa de servir a dois senhores.

Leia a íntegra do artigo:

É impossível servir a dois senhores

Enio Verri*

Os movimentos erráticos de Bolsonaro são claramente para enganar a população, única e exclusivamente para tentar chegar a 2022 com chances de reeleição. A mentira é a ferramenta fundamental da sua narrativa, assim como foi durante toda sua vida política e nas eleições, de 2018. Ele tenta se equilibrar entre os compromissos assumidos com a classe dominante e as políticas que, de fato, darão condições de concorrer a qualquer páreo. Por apoio da bancada religiosa da Congresso Nacional, o presidente concedeu um perdão de dívidas a templos religiosos, que chega a R$ 1 bilhão. Em tempos de normalidade, o fato já seria um escândalo. Porém, as crises sanitária e econômica que assolam o País elevam o feito a níveis de escárnio e tripudiação na realidade da maior parte da população, que vai receber somente R$ 300, até dezembro, apenas.

Devido à polêmica e, para tentar limpar a sua barra com a sociedade, que ficou indignada, Bolsonaro vetou a medida que ele mesmo propôs. Sua capitulação causou estranheza justamente à bancada religiosa, de quem ele depende de quase 200 votos para aprovar projetos e evitar um processo de impeachment. Como é um covarde de carteirinha, sem compromisso com o Brasil, Bolsonaro passou a pedir aos deputados para derrubarem o veto que o presidente impôs ao projeto que ele mesmo enviou ao Congresso Nacional. Ou seja, se não pode convencer porque não tem argumentos, ele parte para causar confusão e iludir a população. Isso demonstra, entre outras coisas, sua debilidade e escancara a ausência de autoridade sobre seu próprio governo. O presidente do Brasil é um João Bobo que oscila lá e cá na vã e perigosa tentativa de servir a dois senhores. A história é farta de exemplos de que esse comportamento vacilante leva ao fracasso.

Em 2003, o PT criou o programa de transferência de renda, Bolsa Família, por meio ampliação e agregação outros programas similares. O BF foi acompanhado e elogiado pela ONU. O Índice de Desenvolvimento Humano, entre 2000 e 2015, cresceu 10,5% e a pobreza multidimensional caiu de 4% para 2,9%. O programa começou atendendo 1,15 milhão de famílias, chegando a quase 14 milhões, em 2015. Ele é associado a uma série de políticas de desenvolvimento social, como a constante atualização de vacinação e a frequência escolar. Enfim, um programa pensado e estruturado cujos resultados ensejaram recomendação do Banco Mundial para a ampliação do seu orçamento. O BF foi uma das políticas que mais contribuíram para retirar cerca de 40 milhões da fome, sem causar deficit nas contas do Estado. Pelo contrário, a cada R$ 1,00 investido, R$ 1,78 voltam para a formação do PIB. Ou seja, além de fazer bem à sociedade de um dos países que mais produzem alimento, ele é bom para a economia.

Pois bem, o ministro da economia do mercado financeiro, Paulo Guedes, que é quem de fato manda no governo – tanto que já ameaçou o presidente de impeachment – apresentou um novo programa de transferência de renda para substituir o BF, de nome Renda Brasil. Segundo a proposta do ministro do desgoverno Bolsonaro, este seria financiado pelo corte de pensões e aposentadorias de pobres, para transferir a miseráveis. Esse é o exemplo mais bem acabado da ideologia de Bolsonaro e sua gangue, que estão aí para atender às demandas da classe dominante, apenas. A proposta amadora e improvisada, como é de praxe do atual governo, causou indignação geral.

Avisado da insatisfação popular e de olho em 2022, Bolsonaro desautorizou Guedes, desagradando, desta vez, o mercado financeiro, que é quem sustenta o presidente no Planalto para que o ministro da Economia proceda com a aniquilação do Estado brasileiro. Até quando este governo se sustenta nesse vai-vem, entre a população e o dinheiro? A bem deste País e dos brasileiros, já passou da hora de se colocar em andamento um dos processo de impeachment, pois esses vacilos provocam insegurança geral, tanto nos que sofrem as políticas recessivas e ultraliberais, quanto nos que as aplicam. Enfim, sem servir à população e nem ao dinheiro, Bolsonaro demonstra sua nulidade e passa ser um estorvo que deve ser impedido, antes que institucionalize o caos geral no País.

*Enio Verri é economista e professor aposentado pelo Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal e líder da bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados.