O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que a intenção de Donald Trump de assumir o controle da Groenlândia não é “extravagante”, mas parte de uma estratégia antiga e recorrente da política externa americana. Para o Kremlin, trata-se de um movimento racional dentro da disputa geopolítica pelo Ártico e, sobretudo, um fator de pressão sobre a Europa e a Otan.
Putin sustenta que Washington demonstra interesse pela Groenlândia há mais de um século. Segundo ele, é um erro tratar o discurso de Trump como bravata ou improviso da nova administração. A leitura russa é de continuidade histórica, não de ruptura.
Precedentes históricos usados por Putin
Ao comentar o tema, Putin lembrou a compra do Alasca pelos Estados Unidos em 1867, inicialmente ridicularizada dentro do próprio país. Décadas depois, a aquisição passou a ser vista como decisão estratégica central para a projeção americana no Pacífico e no Ártico.
O líder russo citou ainda negociações fracassadas de 1910, quando Estados Unidos, Alemanha e Dinamarca discutiram a possibilidade de transferência da Groenlândia a Washington. Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA instalaram bases militares na ilha para impedir avanço nazista e, no pós-guerra, voltaram a tentar comprá-la do governo dinamarquês.
Na visão de Moscou, esses episódios demonstram que a Groenlândia sempre esteve no radar estratégico americano.
Dinamarca, Otan e o flanco europeu
A Groenlândia pertence ao Reino da Dinamarca, integrante da OTAN e participante ativo da frente europeia de apoio à Ucrânia. Para Putin, ao pressionar Copenhague, Trump atinge diretamente um elo da cadeia atlântica que sustenta a contenção da Rússia no Leste Europeu.
A reação europeia, com reforço militar dinamarquês na ilha e articulações diplomáticas em Bruxelas, é vista pelo Kremlin como sinal de nervosismo e dependência política dos Estados Unidos.
Por que Moscou vê vantagem
Autoridades russas avaliam que a ofensiva americana sobre a Groenlândia amplia fissuras entre Estados Unidos e Europa e enfraquece a coesão da Otan, um objetivo histórico da política externa russa. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, chegou a afirmar que Trump “entraria para a história” caso assumisse o controle do território.
No mesmo tom, o enviado especial Kirill Dmitriev falou em “colapso da união transatlântica”, enquanto Dmitry Medvedev ironizou os impactos econômicos e políticos para os europeus.
Para Putin, quanto maior a tensão interna no bloco atlântico, menor a capacidade de pressão coordenada sobre Moscou.
Ártico no centro do conflito global
O Ártico ocupa posição estratégica central para a Rússia. Rotas marítimas, recursos energéticos e presença militar fazem da região prioridade absoluta do Kremlin. O interesse explícito dos Estados Unidos pela Groenlândia apenas confirma, na visão russa, que o confronto geopolítico está migrando para o Norte.
Putin observa o movimento com cautela, mas sem surpresa. Para Moscou, Trump apenas torna explícita uma disputa que já existe nos bastidores há décadas.
O recado implícito sobre a Ucrânia
O discurso americano sobre interesses históricos e estratégicos na Groenlândia também é acompanhado com atenção em Moscou por outro motivo. A retórica reforça argumentos usados pela Rússia para justificar sua atuação na Ucrânia, baseados em segurança, história e projeção regional.
Na leitura do Kremlin, o Ocidente perde autoridade moral quando adota justificativas semelhantes às que condena.
Putin não trata a Groenlândia como capricho de Trump, mas como peça de um jogo antigo. Enquanto Washington pressiona aliados e a Europa reage, Moscou aposta que a maior fragilidade do Ocidente está dentro da própria Otan.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




