Portugal chega ao segundo turno presidencial com António José Seguro (PS) favorito e André Ventura (Chega) tentando transformar a derrota provável em trunfo político, enquanto tempestades e risco de abstenção viram variável decisiva na reta final.
O pleito é neste domingo (8) e virou um retrato europeu do nosso tempo: partidos tradicionais apertando fileiras para conter a direita radical, ao mesmo tempo em que o “cordão sanitário” alimenta a narrativa anti-establishment do Chega.
Pesquisas recentes apontam Seguro com cerca de 67% contra 33% de Ventura, em levantamento da Universidade Católica Portuguesa para RTP, Antena 1 e jornal Público, com amostra de 1.601 entrevistados.
O mau tempo entra como fator político. Há chuva prevista para o dia da votação, a Comissão Nacional de Eleições reforçou o apelo para que a população vote e lembrou que a lei não prevê adiamento nacional, apenas decisões localizadas, com votação remarcada para o 7º dia posterior.
Ventura pediu adiamento geral e tenta colar no governo minoritário do primeiro-ministro Luís Montenegro (PSD) a imagem de Estado falhando diante das tempestades, buscando um salto de mobilização na direita. Já Seguro, tratado como moderado, virou ponto de convergência até de figuras conservadoras, numa tentativa explícita de bloquear o Chega no Palácio de Belém.
O “por que importa” para o Brasil não é copiar manual importado. É observar o mecanismo: quando a centro-direita se fragmenta e a crise do custo de vida empurra frustrações para a política, a extrema-direita tenta capturar o ressentimento com um discurso simplificador, quase sempre ancorado em imigração, medo e inimigos internos. Portugal vive isso com o Chega, sem que a economia, por si, explique toda a raiva social.
A disputa também tem leitura institucional. No semipresidencialismo português, o presidente não governa como primeiro-ministro, mas tem poderes relevantes, incluindo veto e capacidade de dissolução do Parlamento em situações-limite, o que torna a eleição um termômetro de estabilidade do sistema.
No fim, o número que vai ficar para o pós-eleição pode não ser só “quem ganhou”, mas “quanto a direita radical consolidou”. Se Ventura encostar na casa dos 30% e acima, ele reivindica hegemonia política no campo conservador, mesmo perdendo, e pressiona as siglas tradicionais por dentro.
Portugal mostra que democracia não se defende só com discurso bonito, se defende com resposta social concreta e presença nas urnas, inclusive sob tempestade. E o recado serve ao Brasil: quando o Estado falha em proteger e incluir, a extrema-direita oferece atalho, cobrando um preço alto em direitos e convivência.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




