Kim Jong Un prepara filha como herdeira, diz Coreia do Sul

A agência de inteligência da Coreia do Sul afirma que Kim Jong Un já colocou a filha, Kim Ju Ae, na fase de “designação” como sucessora, um movimento que sinaliza a tentativa de empurrar o regime para uma quarta geração da dinastia Kim, mas que ainda não foi anunciado oficialmente por Pyongyang.

Segundo parlamentares sul-coreanos que receberam um briefing fechado do Serviço Nacional de Inteligência (NIS), a adolescente, estimada em torno de 13 anos, passou de “treinamento” para “estágio de sucessora designada”, com indícios de participação e crescente centralidade em eventos de Estado.

A leitura de Seul se apoia no padrão do sistema norte-coreano, onde cada aparição pública, posição na foto, sequência de enquadramentos e rituais de legitimidade são propaganda com recado interno. Quando uma figura passa a caminhar ao lado do líder, e não atrás, a mensagem é de hierarquia, não de afeto familiar.

Kim Ju Ae apareceu publicamente pela primeira vez em 2022, em material da mídia estatal ligado a um teste de míssil intercontinental. Desde então, passou a surgir com frequência em eventos militares, paradas e inaugurações, sempre em “lugares de destaque” na encenação do poder.

O próximo teste desse roteiro pode ocorrer no congresso do Partido dos Trabalhadores, o maior evento político do país no ciclo de cinco anos. O NIS diz monitorar se ela vai comparecer, e sobretudo se receberá algum título ou menção formal, porque isso transformaria especulação em aviso institucional.

Há duas perguntas que não saem do caminho.

A primeira é cultural e política: por que uma filha, e não um eventual filho mais velho, em uma estrutura historicamente patriarcal? Analistas lembram que Kim Yo Jong, irmã do líder, já ocupa papel relevante na máquina do regime, o que abre precedente para autoridade feminina sem necessariamente alterar a natureza autoritária do sistema.

A segunda é temporal: por que acelerar o “selo” sucessório se Kim Jong Un ainda é relativamente jovem? Uma hipótese recorrente na cobertura internacional é que o líder tenta evitar o improviso que viveu na própria ascensão, quando foi projetado como herdeiro em contexto de saúde debilitada do pai e transição rápida.

Nada disso significa, por si só, mudança de rumo. O ponto central é continuidade: o regime busca amarrar o futuro à linhagem como mecanismo de estabilidade interna, enquanto mantém como vitrine externa a agenda militar. A própria imprensa internacional registra que o NIS também acompanha programas estratégicos, como plataformas navais e sistemas de foguetes, que costumam ser capital político em momentos de reordenamento interno.

O cuidado jornalístico, aqui, é separar fato de inferência. O fato é a avaliação do NIS, transmitida por parlamentares e replicada por veículos globais. A inferência é “designação oficial”, porque Pyongyang não confirmou, e a Coreia do Norte historicamente administra sucessão como segredo, ritual e propaganda na dose certa.

Não é de somenos lembrar que a Coreia do Sul segue tecnicamente em guerra com o vizinho do Norte. Num cenário assim, informação vira arma, e a verdade costuma ser a primeira vítima.

Se Seul estiver certo, Kim Jong Un está preparando a Coreia do Norte para um futuro que não depende de eleição, depende de enquadramento.

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