A bola fora de parte dos governadores na crise venezuelana virou constrangimento político nacional depois que a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), decidiu reagir sem rodeios às manifestações de apoio à ofensiva dos Estados Unidos contra Nicolás Maduro.
Em posts diretos nas redes, Gleisi “jantou” Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo (Republicanos), e Ratinho Júnior, governador do Paraná (PSD), ao acusá-los de cinismo e de flertarem com a ideia de intervenção estrangeira no Brasil sob o pretexto de “defesa da democracia”.
Segundo a ministra, Tarcísio celebrou tarifaços de Donald Trump contra o Brasil, apoiou a anistia a golpistas e agora tenta responsabilizar Lula pela invasão à Venezuela. Para Gleisi, é “cinismo” típico do bolsonarismo.
No caso de Ratinho Júnior, o tom foi ainda mais duro. Gleisi disse que a euforia do governador e de outros líderes da extrema-direita com a ofensiva americana “não tem nada a ver com democracia” e reflete o desejo de uma intervenção estrangeira contra a soberania brasileira.
Ratinho enfrenta graves problemas na gestão do Paraná. Recentemente, um escândalo envolvendo a Sanepar, companhia de água e esgoto, continua sem resposta do Palácio Iguaçu, bem com falta de água e o repetino emagrecimento da praia de Matinhos que custou mais de R$ 300 milões.
O estopim para a bronca da ministra foi a posição pública de governadores que celebraram a captura de Maduro pelos EUA. Entre eles, Ronaldo Caiado, governador de Goiás (União Brasil), Tarcísio e Ratinho Júnior, que chegou a classificar a ação de Trump como “brilhante”.
Divisão entre os governadores
Dos 16 governadores que se manifestaram, oito condenaram a operação dos EUA e sete a celebraram. Um adotou posição neutra.
Entre os nomes com projeção presidencial, apenas Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul (PSD), criticou a ação americana, embora também tenha feito ressalvas ao governo Maduro. Helder Barbalho, governador do Pará (MDB), e Renato Casagrande, governador do Espírito Santo (PSB), seguiram a mesma linha.
A ala que comemorou a ofensiva acabou isolada no debate público, principalmente depois da reação do Planalto e de ministros próximos ao presidente Lula.
Gleisi sobe o tom
Na Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi atua como ponte entre o governo federal e o Congresso. Mas, neste episódio, assumiu o papel de trincheira política.
Ao rebater Ratinho Júnior, a ministra afirmou que a oposição tenta se aproveitar da crise venezuelana para legitimar um projeto que já foi rejeitado pela sociedade brasileira, citando a articulação de Eduardo Bolsonaro por sanções e medidas internacionais contra o país.
“É simplesmente vergonhoso”, escreveu, ao classificar como oportunismo a tentativa de capitalizar politicamente a instabilidade regional.
Planalto fala em soberania
O presidente Lula adotou um tom mais institucional, mas igualmente crítico. Disse que os bombardeios e a captura de Maduro “ultrapassam uma linha inaceitável” e representam uma afronta grave à soberania da Venezuela, criando um precedente perigoso para a comunidade internacional.
Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência (PSOL-SP), foi além e chamou a ofensiva americana de “ação imperialista” sem paralelo recente na América Latina.
A crise venezuelana expôs mais do que divergências diplomáticas. Revelou a fragilidade de parte da elite política brasileira diante do discurso intervencionista e a disposição de alguns governadores de trocar soberania por palanque ideológico.
Gleisi Hoffmann fez o que se esperava de uma ministra de articulação política, chamou o jogo à razão e colocou limites claros. Em tempos de tensão continental, errar o lado da história cobra preço alto.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




