Crise em Cuba paralisa voos e derruba turismo em Havana

Cuba entrou numa semana de colapso energético que parou voos, secou o turismo e virou teste de sobrevivência em Havana. Neste domingo (15), uma reportagem do britânico The Guardian descreveu como a falta de combustível acelerou o pior cenário, em meio à escalada de pressão do presidente dos EUA, Donald Trump, com medidas para sufocar o acesso da ilha a petróleo.

Nos jardins do bairro diplomático de Siboney, em Havana, emissários de países tradicionalmente alinhados a Washington passaram a admitir incômodo com a condução americana. A irritação tem dois lados: a retórica de “mudança de regime” e a tarefa pragmática de preparar redução, ou retirada, de missões caso a situação desande.

O pano de fundo é explosivo. Cuba vem de quatro anos de contração econômica, com hiperinflação e uma sangria demográfica estimada em quase 20% da população, segundo o relato. O regime comunista, no poder há 67 anos, aparece no texto como mais vulnerável do que em décadas, e o efeito dominó teria se agravado após uma ofensiva dos EUA contra a Venezuela, aliada de Havana, no começo de janeiro.

Diplomatas ouvidos pelo Guardian reclamam que a linha de ação atribuída à missão dos EUA na capital cubana se resume a um objetivo central, cortar o petróleo, sem apresentar um plano crível para o “dia seguinte”. A crítica é direta: fala-se em direitos humanos, mas pouco se discute o que acontece depois que o país for empurrado ao limite.

Há sinais de diplomacia paralela, mas sem consequência visível. A reportagem menciona expectativas em torno de conversas no México e cita declarações atribuídas ao secretário de Estado Marco Rubio sobre a ideia de ampliar “liberdade” também econômica como caminho possível. Ainda assim, a sensação nas embaixadas é de contagem regressiva, com mapas de risco e planos de evacuação na gaveta.

O fator humanitário virou alerta vermelho após o furacão Melissa, em 2025. A falta de combustível começa a afetar logística, água, atendimento médico e transporte de alimentos, o que pressiona organismos internacionais a desenhar planos para um cenário maior de emergência. O próprio Programa Mundial de Alimentos (WFP/ONU) reconhece que a suspensão de suprimentos e o aperto energético atrapalham serviços essenciais e a recuperação pós-furacão.

O gatilho político-econômico mais citado desde o fim de janeiro é uma ordem executiva de Trump, assinada em 29 de janeiro último, que abriu caminho para tarifas sobre países que vendam ou forneçam petróleo a Cuba, combinada a mecanismos de implementação por órgãos do governo americano. Na prática, a ameaça de punição comercial redesenha o cálculo de terceiros países e ajuda a explicar por que fornecedores recuam.

O choque, porém, não ficou no plano abstrato. O turismo, uma das poucas fontes consistentes de moeda forte, sentiu primeiro. Na semana passada, a Reuters informou que companhias aéreas canadenses suspenderam voos após alerta de que Cuba ficaria sem querosene de aviação entre 10 de fevereiro e 11 de março. A Associated Press registrou a decisão da Air Canada de interromper operações por falta de combustível de aviação, com logística de repatriação de passageiros.

Essa quebra é brutal para Havana porque o Canadá é um dos pilares do fluxo turístico e de investimentos na ilha, e o apagão de voos afeta diretamente hotéis, restaurantes e toda a economia de serviços. Quando o avião não pousa, não entra dólar, e quando não entra dólar, a crise deixa de ser manchete e vira rotina.

No cotidiano, o texto descreve cortes e improviso. O governo fecha ou reduz atividades não essenciais para poupar energia, limita transporte e empurra estudantes e servidores para arranjos remotos. Nas redes sociais, cresce a ansiedade com cancelamentos e incerteza, enquanto aparecem gestos solidários e também oportunismo típico de escassez, como venda de fogareiros improvisados e “soluções” caras para cozinhar sem gás.

A tensão também respinga na arena diplomática. A Reuters noticiou, em 1º deste fevereiro, que Washington acusou Cuba de interferir no trabalho do seu principal diplomata em Havana após grupos hostilizarem o representante americano durante agendas fora da capital. Em termos simples, quando a crise aperta, qualquer gesto vira confronto político.

No centro histórico, até lugares que costumavam ferver murcham com a fuga de turistas e a sensação de cidade em alerta. E, quando diplomatas começam a fazer mala e jornalistas de guerra aparecem como quem “aguarda o próximo capítulo”, a tragédia social deixa de ser previsão e passa a ser possibilidade concreta.

A Casa Branca pode vender a ofensiva como “pressão por liberdade”, mas a conta cai no colo de quem precisa de luz, água, remédio e comida. Asfixiar combustível é punir civis antes de punir dirigentes. Se a democracia é o objetivo, o caminho não pode ser o atalho da fome.

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