Requião Filho manda perdigueiros investigar resorts no Norte Pioneiro do PR. Caso Master expõe teia entre Tanure, Copel e resorts.
Caso Master expõe teia entre Tanure, Copel e resorts
O caso Master ganhou um novo capítulo nesta quinta (15), quando o Banco Central decretou a liquidação da antiga Reag, agora chamada CBSF, citando “graves violações” das regras do sistema financeiro, um desfecho que encosta de vez a lupa regulatória na engrenagem de fundos apontada pela PF como peça do esquema que teria inflado ativos do Banco Master.
Essa decisão não é detalhe técnico. Ela mexe no coração do enredo porque a Reag aparece como “casa” de fundos e estruturas financeiras que, segundo a linha de apuração pública, orbitavam a teia do Master, justamente no momento em que empreendimentos reais, como resorts no Norte Pioneiro do Paraná, viraram vitrine de um capitalismo de cotas, multipropriedade e marketing de confiança.
Requião Filho joga luz no “Norte Pioneiro angelical”
No front político, o deputado estadual Requião Filho (PDT-PR) colocou a história no território do conflito e avisou que vai apertar o cerco no Paraná.
“Lá no Norte pioneiro do Paraná tem um local angelical mas me diz um passarinho que tem algo diabólico na sociedade. Vamos investigar.”
A frase, em linguagem de recado, empurra o tema para além da fofoca de bastidor. Ela sugere iniciativa de fiscalização e cobrança pública sobre a sociedade empresarial que reúne irmãos Ferro, Ratinho e o ecossistema de fundos que, agora, sofre intervenção do BC.
O apresentador Ratinho é apontado como sócio do Morro dos Anjos, com investimento associado a um empreendimento avaliado em cerca de R$ 150 milhões, segundo reportagens publicadas em 2021.
Um pouco antes, por volta de 2020, a cobertura institucional do próprio Governo do Paraná já tratava o Morro dos Anjos, em Bandeirantes, como projeto ancorado no turismo religioso, com a promessa de parque aquático de águas termais e centenas de unidades, mirando o fluxo do Santuário São Miguel Arcanjo.
O que a liquidação da Reag muda no caso Master
A liquidação determinada pelo BC interrompe a operação da instituição e congela bens de controladores e ex-administradores, sinal típico de que a autoridade monetária julgou a situação como irrecuperável do ponto de vista prudencial.
O impacto político-econômico é direto.
Primeiro, o BC não agiu apenas “por precaução”, ele afirmou haver violações graves de normas.
Segundo, o ato veio na esteira imediata da escalada policial sobre o Master, com a Reag aparecendo no noticiário como alvo conexo e seu fundador citado como mirado por investigadores.
Para a narrativa da matéria, isso reforça a tese de que o caso não é “um banco que quebrou”, mas um modelo de circulação de dinheiro por instrumentos sofisticados, com lastro contestado, que teria irrigado negócios e relações.
Onde entram irmãos Ferro e Ratinho
É aqui que o Paraná vira capítulo central.
Os irmãos Rodrigo e Patrick Ferro são apontados como empreendedores por trás do Morro dos Anjos (Bandeirantes) e sócios do Tayayá (Ribeirão Claro), com o apresentador Ratinho, pai do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), aparecendo como parceiro e rosto público da operação, agregando credibilidade e conversão comercial na venda de cotas.
Segundo Requião Filho, a relevância não é o turismo em si, é o formato de captação, o marketing de confiança e a origem do dinheiro quando a ponta financeira entra em colapso. “Vamos investigar”, prometeu o parlamentar pedetista.
A mesma lógica vale para o Tayayá: reportagens recentes apontaram que fundos conectados ao universo do Master chegaram a dividir espaço societário com parentes do ministro Dias Toffoli (STF) e, depois, as participações migraram para um advogado ligado a causas da JBS, um desenho que escancara como ativos reais podem se tornar “porto” de operações financeiras quando o mercado está em ebulição.
Os irmãos Rodrigo e Patrick Ferro viabilizaram a construção do resort com um modelo híbrido de captação, mas há um ponto que hoje ganha centralidade política: parte dessa engrenagem financeira passou por fundos e estruturas que depois entraram no radar do caso Master.
Além da venda antecipada de cotas em multipropriedade e da organização do projeto via Sociedades de Propósito Específico (SPEs), a expansão dos empreendimentos contou com aportes e linhas estruturadas no mercado de investimentos, inclusive por veículos ligados ao ecossistema que orbitava o Banco Master e a gestora Reag, hoje liquidada pelo Banco Central.
É essa interseção que muda o peso da história. O resort não nasceu apenas de poupança privada e marketing imobiliário, mas também de um ambiente financeiro que agora está sob investigação federal, o que exige transparência total sobre a trilha do dinheiro, as garantias dadas aos cotistas e o grau de exposição do empreendimento à teia de fundos citada na Operação Compliance Zero.
Tanure, Copel Telecom e o padrão que se repete
Há um ponto fora da curva que não pode mais ser tratado como detalhe lateral quando se fala de Nelson Tanure. Em 2020, ele comprou a Copel Telecom, braço de fibra óptica da estatal paranaense, em um negócio de cerca de R$ 2,5 bilhões, no processo de privatização conduzido pelo governador Ratinho Júnior.
À época, a Copel Telecom era considerada uma das melhores infraestruturas de internet do país, referência em backbone e conectividade corporativa. A promessa oficial foi modernização, expansão e ganho de eficiência. O que veio depois foi outra história.
O modelo de governança implantado após a privatização sucateou a empresa. Houve perda de protagonismo, retração de investimentos estruturais e esvaziamento técnico de uma operação que antes era orgulho do Paraná. Para críticos do negócio, não foi apenas uma venda mal calibrada. Foi a entrega de um ativo estratégico a um grupo cujo histórico sempre orbitou zonas cinzentas de reestruturações, alavancagens e operações cruzadas.
Esse episódio ajuda a entender por que o nome de Tanure acende alertas sempre que surge ligado a negócios sensíveis.
Ele não é apenas um investidor oportunista em ativos em dificuldade. Ele opera num padrão que combina: entrada em empresas estratégicas, uso intensivo de engenharia financeira, reorganizações societárias opacas, e transferência de riscos para o setor público ou para minoritários.
No Paraná, a Copel Telecom virou símbolo disso. No plano nacional, o caso Master parece seguir a mesma lógica em escala ampliada.
Quando se olha a trajetória de Tanure passando por Oi, Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil, Light, Alliança Saúde e agora reaparecendo no entorno do Banco Master, a privatização da Copel Telecom deixa de ser um episódio isolado. Ela se encaixa num método.
É esse padrão que torna politicamente explosiva a conexão entre Tanure, o Banco Master e o ecossistema de resorts no Paraná. Não se trata de coincidências empresariais. Trata-se de um modelo de negócios que transforma ativos estratégicos em peças de um esquema financeiro maior do que qualquer discurso sobre eficiência ou mercado.

Os perdigueiros de Requião Filho
O Norte Pioneiro pode ser “angelical” no folheto turístico, mas o caso Master mostra que o Brasil real funciona no encontro entre dinheiro, influência e ativos tangíveis. Quando o Banco Central liquida a Reag no rastro do Master, não é só punição regulatória, é o Estado dizendo que a engrenagem passou do limite.
Se a investigação avançar no Paraná, como sinaliza Requião Filho, a sociedade poderá saber se os resorts eram apenas projetos turísticos bem-vendidos ou se havia por trás deles uma engenharia financeira sustentada por fundos hoje sob investigação, que só se manteve de pé enquanto ninguém fazia perguntas incômodas.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




