Como a guerra na Ucrânia virou a tábua de salvação para políticos em apuros

Johnson, Sholz, Macron, Biden, Bolsonaro – todos eles – se comportam como abutres em cima da Ucrânia

Primeiramente, faço um convite para o leitor abstrair as questões geopolíticas e estratégicas na guerra da Ucrânia envolvendo OTAN, Rússia, Estados Unidos, ONU e União Europeia – bem como relativizar a dependência energética dos países do velho continente em relação ao governo de Vladimir Putin.

De alma mais leve e despida das razões maiores, vamos dissecar como a guerra na Ucrânia virou a tábua de salvação – no sentido da miudeza e da mesquinharia – para políticos em apuros ao redor do mundo.

► O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, luta para desviar a atenção doméstica porque ele mentiu e o parlamento quer sua renúncia. Durante a pandemia ele pregava lockdown enquanto fazia festinhas na residência oficial. Recentemente, o político britânico telefonou para o presidente Jair Bolsonaro para acertarem o passo em relação à guerra Rússia-Ucrânia. Seria abraço de afogados?

► Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, já sente na nuca o bafo quente de Donald Trump. O democrata não conseguiu aprovar seu pacote econômico como imaginava, foi criticado pela fuga às pressas do Afeganistão, depois de 20 anos de ocupação. Teme ser fulminado pelo antecessor republicano na eleição presidencial de 2024.

► Olaf Scholz, chanceler da Alemanha, substituiu Angela Merkel e ele precisa provar em seu país e no mundo que consegue ser maior que a sombra da antecessora. Ela ficou 16 anos no poder, enquanto o social-democrata assumiu o cargo em dezembro passado. A Alemanha depende do gás russo para se aquecer e movimentar sua indústria.

Economia

► Emmanuel Macron, presidente da França, faz o papel do “bom moço” que quer negociar a paz. Busca um lugar ao sol levando e trazendo recados de Vladimir Putin. Ele é candidato à reeleição e o conflito na Ucrânia o ajuda a despistar dos problemas domésticos.

► Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, se esforça para livrar-se da pecha de “pária” internacional. Dias antes do início da invasão da Ucrânia, ele esteve reunido com Putin na Rússia. Tenta fabricar às pressas uma imagem entre “estadista” e “promotor da paz” no mundo. No entanto, na vida real, o mandatário é identificado com a morte, a fome e a miséria. Em outubro passado, na Itália, líderes do G20 o deixaram falando sozinho.

Como se vê, caro leitor, mais do que defender a Ucrânia e causas humanitárias, líderes das principais nações do mundo tentam oportunísticamente tirar uma casquinha da tragédia provocada pela guerra em causa própria. Eles – Johnson, Sholz, Macron, Biden, Bolsonaro, etc. – estão mais preocupados com questões internas de suas nações a resolver os mais de refugiados ucranianos ou [verdadeiramente] parar a guerra. A rigor, nenhum deles tem cacife militar ou político para parar Putin.

Moral da história: todos eles se comportam como abutres em cima da Ucrânia.