Papa Francisco se encontrou com Lula, que foi a Roma em seu tour pela Europa antes da pandemia. Bolsonaro, no G20, não foi recebido pelo Santo Padre. Foto: Ricardo Stuckert

Bolsonaro foi a Roma e não viu o papa

Participar da G20 na Itália e não ver o papa é a mesma coisa que não tivesse participado da cúpula formada pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia.

Bolsonaro foi a Roma e não viu o papa.

Esse velho brocardo –ir a Roma e não ver o papa– não se aplicou ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que se encontrou com Francisco.

Francisco se encontrou com Lula, que foi a Roma em seu tour pela Europa antes da pandemia.

O santo padre também se reuniu em Roma com Barack Obama, Donald Trump, Nicolás Maduro, Alberto Fernandez, dentre outros chefes de Estado.

O presidente Bolsonaro não foi recebido pelo papa no Vaticano, mas, reconhecido, o presidente brasileiro foi vaiado nas ruas de Roma.

O jornalista Jamil Chade, colunista no UOL, resumiu a participação do inquilino do Palácio do Planalto no G20: “Sem amigos, sem aliados, sem admiradores, curiosos, sequer interessados, cumpria a promessa de pária, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.”

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Abaixo, leia a íntegra do artigo do papa Francisco acerca da COP26, em Glasgow, Escócia:

Do grito da terra e dos pobres um apelo para mudar o modelo de desenvolvimento

Papa Francisco*

Seis anos atrás, publiquei a Carta Encíclica Laudato si’, sobre o Cuidado de nossa Casa comum, pedindo um novo diálogo partilhado em nossa Casa comum, sobre como estamos forjando negativamente o futuro de nosso planeta com nosso comportamento irresponsável. Estou feliz em ver que a encíclica teve um impacto positivo em nossos esforços para cuidar de nossa Casa comum na Igreja, em nossas comunidades ecumênicas e inter-religiosas, nos círculos políticos e econômicos, nas esferas educacional e cultural e não só. Depois da publicação da Laudato si’, convidei os católicos a se unirem ao meu amado irmão, Sua Santidade Bartolomeu, o Patriarca Ecumênico, e aos nossos irmãos ortodoxos, para celebrar juntos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, no dia 1º de setembro. Estou cheio de gratidão porque a mensagem urgente da Laudato si’ ecoou em importantes declarações e especialmente em ações de outras tradições religiosas sobre a nossa vocação de ser guardiães da criação de Deus. Recordo com alegria a Carta Rabínica sobre a Crise Climática, A Declaração Islâmica sobre Mudança Climática Global, A Declaração Budista sobre Mudança Climática aos Líderes Mundiais, a Bhumi Devi Ki Jai, uma Declaração Hinduísta sobre Mudança Climática.

A Laudato si’ é um apelo global para sermos guardiões de nossa Casa comum. É maravilhoso ver que o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral tomou a iniciativa de reunir reflexões de pessoas e comunidades de todo o mundo sobre as mensagens da Laudato si’. Laudato si’ Reader, o título sob o qual estas reflexões foram coletadas, é de fato uma conclusão adequada ao “Ano Especial Laudato si'” que foi celebrado de 24 de maio de 2020 a 24 de maio de 2021.

O “Grito da Terra e o Grito dos Pobres” que apresentei na Laudato si’ como consequência emblemática de nossa incapacidade de cuidar de nossa Casa comum foi recentemente ampliado pela emergência da Covid-19, que a humanidade ainda está tentando combater. Assim, uma crise ecológica, representada pelo “grito da terra”, e uma crise social, representada pelo “grito dos pobres”, se tornaram letais para uma crise sanitária: a pandemia da Covid-19. Quão verdadeiras são as palavras de meu predecessor, Papa Bento XVI: “As formas como o homem trata o meio ambiente influem nas formas como ele se trata e vice-versa” (Caritas in Veritate, n° 51).

Entretanto, não esqueçamos que as crises também são janelas de oportunidade: são ocasiões para reconhecer e aprender com os erros do passado. A crise atual deve nos fazer “transformar em sofrimento pessoal o que está acontecendo no mundo, e assim reconhecer a contribuição que cada um pode dar” (LS, n° 19). São também para nós um tempo para mudar de marcha, para mudar os maus hábitos a fim de ser capazes de sonhar, co-criar e agir juntos para alcançar futuros justos e equitativos. É hora de desenvolver uma nova forma de solidariedade universal baseada na fraternidade, no amor, na compreensão recíproca: uma solidariedade que valoriza mais as pessoas do que o lucro, que busca novas formas de entender o desenvolvimento e o progresso. Assim, a minha esperança e a minha oração é que não saiamos desta crise da mesma forma como entramos!

O passado recente nos mostrou que foram sobretudo as nossas crianças que compreenderam a escala e a enormidade dos desafios que a sociedade tem diante de si, especialmente a crise climática. Devemos ouvi-las com o coração aberto. Devemos seguir o exemplo delas porque têm sabedoria não obstante a idade.

É o momento de sonhar grande, de repensar nossas prioridades – o que valorizamos, o que queremos, o que buscamos – e planejar novamente o nosso futuro, comprometendo-nos em agir na vida de acordo com que sonhamos. Agora, é o momento de agir, e agir juntos!

*Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, 76 anos, arcebispo jesuíta de Buenos Aires, é o primeiro papa americano.