Endividamento público, das famílias e das empresas. É sinal de “colapso da economia”, diz o economista Marcio Pochmann.

Famílias têm endividamento recorde sob governo Bolsonaro

O Brasil está se tornando o país da dívida generalizada. Entre as famílias, lado mais vulnerável da derrocada que também atinge empresas e a União, o endividamento junto ao sistema financeiro chegou a 58,5% da massa salarial em abril. É o maior porcentual de endividamento familiar da série histórica do Banco Central (BC), iniciada em janeiro de 2005, quando o patamar de endividamento era 18,39%.

Na prática, para cada R$ 100 recebidos pela família no último ano, quase R$ 60 já estavam comprometidos com dívidas junto a bancos e financeiras. Já o comprometimento da renda mensal permanece desde fevereiro em 30,5%. Nesse caso, a cada R$ 100 recebidos por mês, R$ 30 foram usados para pagar as parcelas dos empréstimos.

O índice histórico de endividamento das famílias é resultado do aumento das concessões de empréstimos, financiamentos e outras modalidades de crédito para pessoas físicas. Esse movimento ocorre em sentido inverso ao das fortes quedas da taxa de poupança das famílias e da massa de salários em circulação.

O Itaú Unibanco estima que a taxa de poupança das famílias, que estava em 31,1% no período entre abril e junho do ano passado, regrediu para 11,8% no primeiro trimestre de 2021. A massa salarial recuou 5,4% no trimestre encerrado em abril, em comparação ao mesmo período de 2020. É o equivalente a menos R$ 12 bilhões nos bolsos dos trabalhadores em um ano.

“Muitas famílias de renda baixa deixaram de receber o auxílio emergencial no começo do ano e precisaram procurar outras formas de crédito”, disse ao Estado de São Paulo Carlos Antonio Rocca, coordenador do Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Cemec-Fipe).

O economista mencionou ainda um levantamento da entidade apontando que o conjunto de dívidas das companhias não financeiras no Brasil também atingiu um patamar histórico: 61,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em março de 2021. No fim de 2019, a relação era de 50,1%.

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Para os economistas ouvidos pelo jornal, desemprego e inflação elevados vão atrapalhar a retomada do crescimento econômico, ilusão vendida pelo ministro-banqueiro Paulo Guedes a cada live.

“Os juros vão subir, e as famílias que já estão endividadas terão opções de crédito ainda mais caras, o que pode comprometer a retomada do consumo no ano que vem”, avaliou o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Para ele, a economia crescerá somente 1,8% no ano que vem, e a retomada dos empregos será lenta.

“O colapso da economia avança com o endividamento inédito tanto do setor público como das famílias brasileiras, após 7 anos sem crescimento do PIB per capita”, afirmou o professor da Unicamp Marcio Pochmann, presidente do Instituto Lula, em postagem no Twitter nesta quinta-feira.

Pochmann chamou a atenção para a Dívida Pública Federal (DPF), que encerrou junho em R$ 5,329 trilhões, o que representa alta de 3,07%, em termos nominais, em relação aos R$ 5,171 trilhões registrados em maio. Os dados estão presentes no Relatório Mensal da Dívida de junho, divulgado nesta quarta-feira (28/07) pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN).

Cresce o endividamento nas famílias mais pobres

Outro estudo, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), aponta que o percentual de famílias com dívidas atingiu 67,4% em julho. Também é o maior nível da série histórica da pesquisa, iniciada em 2010.

O crescimento se deve ao aumento do endividamento das famílias com até 10 salários mínimos de renda. Esse grupo chegou ao recorde de 69% em julho, acima dos 68,2% de junho e dos 65,4% de julho de 2019.

Por outro lado, o grupo de famílias com renda superior a 10 salários mínimos teve redução do endividamento, chegando a 59,1% em julho, abaixo dos 60,7% em junho. Apesar disso, o percentual ficou acima dos 58,7% de julho de 2019.

“As necessidades de crédito têm aumentado para as famílias com menor renda, seja para pagamento de despesas correntes, seja para manutenção de algum nível de consumo”, analisa a CNC em texto de divulgação da pesquisa, que compara: “Por outro lado, para as famílias de maior renda, tem aumentado a propensão a poupar”.

A pesquisa é realizada mensalmente com 18 mil consumidores e considera como dívidas as despesas declaradas com cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, prestação de carro e de casa, ainda que estejam em dia.

Em média, as famílias declararam que as dívidas consomem 30,3% de sua renda. A Peic também questiona os entrevistados sobre dívidas ou contas em atraso, percentual que chegou a 26,3% no geral, o maior valor desde setembro de 2017.

Mais uma vez, o percentual cresceu para as famílias de menor renda e caiu para as mais ricas. Enquanto os lares com até 10 salários mínimos tiveram aumento de 28,6% em junho para 29,7% em julho, para os demais, o percentual caiu de 11,3% para 11,2%.

Outro percentual calculado pela pesquisa é o das famílias que não terão condições de pagar suas dívidas, que chegou a 12% em julho, acima dos 11,6% de junho e dos 9,6% de julho de 2019. Nesse caso, o percentual cresceu para os dois grupos de renda: de 13,2% em junho para 13,7% em julho, no caso das mais pobres; e de 4,7% em junho para 4,9% em julho, no caso das mais ricas.