Israel endurece bombardeios contra Faixa de Gaza; mais de 200 palestinos morreram em sete dias

Uma série de novos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, efetuados nas primeiras horas da madrugada desta segunda-feira (17), destruíram casas e edifícios no território palestino controlado há quase 15 anos pelo movimento islâmico Hamas. Este enclave pobre, de 2 milhões de habitantes, registrou o pior balanço diário de mortos no domingo: 42 pessoas, incluindo oito crianças e dois médicos, segundo o Ministério da Saúde local.

Israel afirma ter visado nove casas e apartamentos de comandantes do Hamas, que serviam, segundo comunicado do Exército israelense, de esconderijos de armas. Em poucos minutos, a aviação israelense realizou dezenas de bombardeios no pequeno território palestino, sob bloqueio há mais de uma década, causando cortes de energia e o desabamento de casas e prédios. Em um breve comunicado, as Forças Armadas informaram que seus “caças” estavam bombardeando “alvos terroristas” em Gaza.

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Desde a retomada da espiral de violência entre as partes inimigas, Israel alega que age em legítima defesa, em retaliação ao lançamento de foguetes por grupos armados palestinos contra seu território. Foi o que aconteceu novamente neste domingo.

Durante o dia, uma nova reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU não resultou em avanços. Pouco antes do início do encontro, o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, declarou: “Este ciclo insensato de derramamento de sangue, de terror, de destruição, deve cessar imediatamente”. Ele disse temer que a violência “desencadeie uma crise incontrolável” na região. Esta terceira reunião virtual, porém, não resultou em nenhuma proposta.

Os Estados Unidos, exibindo uma posição que muitos de seus aliados consideram incompreensível, se recusaram novamente a emitir uma declaração conjunta que permitiria uma rápida interrupção dos confrontos. O chefe da diplomacia dos EUA, Antony Blinken, teve no domingo diversas conversas com colegas de várias nações regionais importantes, como Catar, Egito e Arábia Saudita, para tentar conter a violência, segundo informou o Departamento de Estado.

França apoia mediação do Egito
Por meios diplomáticos, a França tenta interromper a espiral de violência entre israelenses e palestinos. O líder francês, Emmanuel Macron, fará uma reunião bilateral nesta segunda-feira às 13h de Paris, 8h em Brasília, com o presidente do Egito, Abdel Fattah Al-Sissi, à margem de uma conferência internacional de ajuda ao Sudão.

Macron manifesta apoio à mediação que Egito, Jordânia e Alemanha iniciaram ao lado das partes em conflito. O Egito e a Jordânia mantêm canais de diálogo abertos com interlocutores de Israel e do Hamas. “Egípcios e jordanianos falam com todos os países da região”, disse o porta-voz do governo francês, Gabriel Attal.

Ataque em Jerusalém Oriental
Desde o início do novo ciclo de violência, em 10 de maio, um total de 197 palestinos morreram, incluindo 58 crianças, e 1.230 ficaram feridos, de acordo com o último balanço fornecido pelas autoridades palestinas.

Em Israel, dez pessoas foram mortas, incluindo uma criança, e 294 feridas, em disparos de foguetes palestinos desde segunda-feira passada.

Grupos armados palestinos, entre eles o Hamas, no poder em Gaza, dispararam mais de 3.100 foguetes contra Israel, segundo o Exército hebreu, que ressaltou que grande parte deles foi interceptada.

“A intensidade deste conflito é algo que nunca vimos antes”, alertou Robert Mardini, diretor-geral da Cruz Vermelha.

Em Jerusalém, que não havia sido muito afetada até então, um veículo colidiu contra soldados israelenses que patrulhavam no bairro de Shaykh Jarrah, em Jerusalém Oriental. O ataque deixou vários feridos, segundo as equipes de resgate e a polícia israelense, que disseram ter “neutralizado” o agressor, sem especificar se ele estava morto ou ferido.

“A todo vapor”
De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 40 mil pessoas fugiram de suas casas no território. A agência da ONU para refugiados palestinos disse que abriu mais de 40 escolas para abrigar os deslocados.

Lamia Al Kulak, de 43 anos, perdeu seus parentes em um atentado a bomba no domingo. “Estávamos dormindo quando uma chuva de mísseis nos atingiu, sem aviso. Quando saímos, encontramos o prédio vizinho devastado. Todas as pessoas que estavam sob os escombros eram pessoas normais”, lamentou.

Em sua feroz ofensiva contra o Hamas, que governa Gaza, o Exército israelense anunciou que havia atacado as casas de Yahya Sinouar, chefe do grupo jihadista na Faixa, e de seu irmão, “um militante terrorista”, publicando imagens de um casa pulverizada em uma nuvem de poeira.

Fontes de segurança palestinas confirmaram o bombardeio, mas o destino de Sinouar é desconhecido.

O primeiro-ministro Benjamin Netahyahu, em mensagem aos israelenses, reiterou que a operação “levará tempo” e recomendou à população para “limitar as atividades externas”. “Nossa campanha contra organizações terroristas continua a todo vapor”, garantiu.

“Alvo legítimo”
No sábado, um prédio de 13 andares onde ficavam os escritórios da emissora Al Jazeera, do Catar, e da agência de notícias Associated Press (AP), dos Estados Unidos, foi reduzido a escombros em um bombardeio do Exército israelense, que havia pedido a evacuação do prédio.

Segundo o Exército, o imóvel também abrigava “entidades pertencentes à inteligência militar” do Hamas, acusadas de usar civis como “escudos humanos”.

Em entrevista ao canal norte-americano CBS, o primeiro-ministro israelense justificou o atentado, afirmando que se tratava de “um alvo perfeitamente legítimo”. Benjamin Netanyahu garantiu se basear em informações dos serviços de inteligência.

A ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) enviou queixa ao Tribunal Penal Internacional (TPI) após os ataques ocorridos contra os veículos de comunicação, alegando que eles podem constituir “crimes de guerra”.

Esta nova escalada do conflito estourou após o lançamento pelos grupos armados de Gaza de uma rajada de foguetes contra Israel, em “solidariedade” às centenas de palestinos feridos em confrontos com a polícia israelense na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém Oriental, um setor palestino ocupado por Israel desde 1967.

Os distúrbios na Esplanada, terceiro local sagrado do Islã, decorreram de nova tensão provocada pela ameaça de expulsão de famílias palestinas em favor de colonos judeus em um bairro da Cidade Santa.

As hostilidades se estenderam à Cisjordânia, outro território palestino ocupado por Israel desde 1967, onde confrontos com o Exército israelense deixaram 19 palestinos mortos desde 10 de maio.

Israel também enfrenta uma violência intercomunitária em seu território, em cidades mistas onde vivem judeus e árabes israelenses.

O último grande confronto entre Israel e Hamas data do verão de 2014. O conflito de 51 dias devastou a Faixa de Gaza e deixou pelo menos 2.251 mortos no lado palestino, a maioria civis, e 74 nas fileiras israelenses, a maioria soldados.

Por RFI, com informações da AFP