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Hora e vez do ronco das ruas para pôr fim ao governo genocida de Bolsonaro

Por Milton Alves*

As manifestações dos moradores do Jacarezinho no Rio e os atos dos movimentos contra o racismo na quinta-feira (13) indicam que uma retomada das ruas começa a ganhar impulso entre as lideranças dos movimentos sociais e de setores do ativismo de esquerda. Semanas antes, os atos de 1º de maio, apesar de poucos numerosos, apontaram o potencial combativo e a disposição de luta de vastos setores da militância de esquerda.

O crescente desgaste e isolamento do governo Bolsonaro, ao lado do avanço da pandemia de Covid-19, pressionam no sentido de uma maior reação popular para deter a escalada do genocídio, da fome e do desemprego que atingem milhões de brasileiros.

O presidente Bolsonaro, paulatinamente, sofre um processo de erosão política, com novos fatos acentuando as dificuldades políticas do governo da extrema direita: A redução brutal do auxílio emergencial, a falta de vacinas e a sensação de descaso com o morticínio pela pandemia, cada vez mais, evidenciado pelo trabalho da CPI da Covid no Senado.

A pandemia só revelou, mais ainda, a face dura e cruel do neoliberalismo de Bolsonaro e Guedes, que transformou a vida cotidiana do trabalhador numa verdadeira roleta russa: ameaçado pela Covid e a fome -, e sem políticas públicas que incentivem, de fato, o confinamento social com remuneração, garantia do emprego e uma assistência sanitária enquanto durar a pandemia de Covid-19.

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A política sintetizada na palavra de ordem “fique em casa” não corresponde aos anseios e às exigências do momento, a diretriz é incapaz de enfrentar a demagogia discursiva do governo bolsonarista, que se apresenta como um defensor da “economia e dos empregos”. O que dialoga diretamente com o senso comum e desesperado de amplos contingentes das massas de milhões de desempregados e dos arruinados proprietários de pequenos negócios.

Na esquerda começa a surgir mais vozes demandando uma volta às ruas para enfrentar de forma mais decidida o governo bolsonarista. O presidente do PSOL Juliano Medeiros defendeu a necessidade da mobilização de rua neste momento. “Chegamos ao limite. A voz das ruas é o que falta para mudar a situação política no país. A tempestade perfeita está prestes a se formar. Mas para que isso aconteça o elemento popular precisa entrar em cena, demonstrando toda a sua indignação com a matança em curso no país. Podemos vencer, se não tivermos medo de ousar”, afirmou em artigo nesta semana.

O passo mais importante na direção de enterrar definitivamente a política do “fique em casa” foi dado na 3ª Plenária Nacional de Organização das Lutas Populares, impulsionada pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, entre outras entidades. A reunião aprovou um calendário inicial de lutas contra a privatização dos Correios no dia 16, um ato em Brasília por reivindicações como a volta do auxílio emergencial de R$600, chamado pela CUT no próximo dia 26, e um dia nacional de lutas.

O fator Lula também reforça o ânimo da militância dos movimentos sociais e da base petista que enxergam no ex-presidente uma alternativa concreta para derrotar o bolsonarismo em 2022. A polarização entre Bolsonaro e Lula é um dos traços marcantes da conjuntura. Segundo as diversas pesquisas e sondagens, o ex-presidente ganha de Bolsonaro em todos os cenários simulados.

A retomada das mobilizações pode desempenhar um papel decisivo na luta pelo Fora Bolsonaro e para deter o desmonte do país, abrindo uma perspectiva de uma saída pela esquerda da profunda crise econômica, social e sanitária em curso.

É hora e vez do ronco das ruas para canalizar a indignação crescente contra a política genocida de Bolsonaro.

*Milton Alves é ativista político e social. Autor dos livros ‘A Política Além da Notícia e a Guerra Declarada Contra Lula e o PT’ (2019), ‘A Saída é pela Esquerda’ (2020) e de ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil’ (2021) – todos pela Kotter Editorial. Escreve semanalmente em diversas mídias progressistas e de esquerda.