Covid-19: jornal francês cita Araraquara como exemplo de resistência frente à má gestão de Bolsonaro

“Covid: no Brasil, esse prefeito que resiste à loucura Bolsonaro” é o título da matéria do diário econômico francês Les Echos sobre a experiência, única no Brasil, de um lockdown total em Araraquara (SP). O título faz referência à decisão de Edinho Silva (PT) de literalmente fechar a cidade por alguns dias em fevereiro e em abril de 2021 para conter a propagação do vírus, especialmente a variante P1.

“O prefeito da cidade de Araraquara declarou a ‘Terceira Guerra Mundial’ contra o coronavírus. Em resistência ao presidente Jair Bolsonaro, ele espera demonstrar os benefícios do confinamento para todo o país”, diz o texto, que explica por que a experiência de Araraquara difere de outras cidades do Brasil, o segundo país com maior número de mortes pela Covid-19 no mundo.

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O jornalista Thierry Ogier descreve um lockdown que não teve semelhança com o que se viveu na Europa ou nos Estados Unidos: “Durante dez dias, os 250 mil habitantes de Araraquara, cidade do sudeste do Brasil dilacerada pela Covid-19, foram submetidos a um regime excepcional: sem poder sair de casa, sem transporte público, sem posto de gasolina, sem serviço bancário. Os supermercados tiveram que ficar fechados por uma semana”.

Localizada a cerca de 300 quilômetros de São Paulo, Araraquara tem um PIB per capita 20% superior à média nacional. Com a alta no número de casos de Covid-19 em janeiro e fevereiro, o prefeito Edinho Silva, em seu quarto mandato, enfrentou o maior desafio de sua vida.

Para convencer a população da importância das medidas, Edinho Silva recrutou um aliado de peso: Drauzio Varella, médico muito apreciado pelo grande público, que concordou em gravar um vídeo, com uma mensagem clara: “A única saída é parar tudo. Chegou a hora de o povo de Araraquara dar o exemplo para todo o país”.

No entanto, parte da população se revoltou, conta Les Echos: manifestações foram organizadas em frente à prefeitura para protestar contra o lockdown e ativistas pró-Bolsonaro fizeram ameaças de morte contra o prefeito nas redes sociais.

Apesar das perdas econômicas, medidas são elogiadas
O lockdown estrito imposto a Araraquara valeu a pena? Do ponto de vista da saúde, é indiscutível, escreve Les Echos. O número de mortos caiu 62% entre março e abril, uma vez que aumentou 23% em todo o país.

“Do ponto de vista do comércio, não valeu a pena”, disse ao jornal o presidente da Associação Comercial local, José Janone Júnior. Ele lamenta a perda de cerca de 20% de seus associados.

“É normal que as autoridades deixem a economia em segundo plano e priorizem a preservação de vidas humanas”, acredita. “Mas, para nós, foi muito difícil. Eles poderiam ter relaxado as regras do lockdown sem colocar o público em risco. Não foi por falta de diálogo. O prefeito sempre deixou a porta aberta. Ele nos ouve, mas toma as decisões sozinho”, avalia Janone Júnior.

Também entrevistada pela reportagem, Liliana Aufiero, herdeira da centenária empresa Lupo, que exporta de Araraquara meias e cuecas para 30 países, não está totalmente comprometida com a causa do lockdown. Mas a septuagenária explica com orgulho que conseguiu adaptar sua fábrica têxtil para fornecer 5.000 máscaras por semana aos hospitais da cidade.

O jornal compara os números de mortes em proporção com a população geral de Araraquara com os das vizinhas Bauru e Mirandópolis, que não adotaram o lockdown. A matéria chega à conclusão de que um lockdown severo é eficaz.

Cidade virou referência
Para o empresário Felipe Figueiredo, diretor do grupo Raízen, que produz açúcar e etanol na região de Araraquara, não restam dúvidas: “Não só a experiência do lockdown é positiva, como Araraquara virou uma referência”.

“Araraquara é um bom exemplo”, confirma Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, também entrevistada pelo jornal.

Les Echos lembra que o presidente Jair Bolsonaro se opôs veementemente, desde o início da pandemia, às medidas restritivas em nome da liberdade econômica. Ele chegou a ameaçar convocar o Exército para impedir alguns prefeitos de impor o toque de recolher nas cidades que administram. O lockdown, nessas condições, parece quase uma medida de resistência, aponta o jornal.

Para Edinho Silva, o esforço vale a pena: “Prefiro ser lembrado como o prefeito que salvou vidas do que aquele que empilhou caixões em sua cidade”, afirma.

Por RFI