Argentina quer aproveitar o vácuo que Bolsonaro deixou para liderar a questão ambiental na região

Primeiro foi o Chile; agora a Argentina. O presidente Alberto Fernández procura ocupar o espaço que o Brasil abandonou como líder da questão ambiental na América do Sul. A posição é estratégica para a interlocução com os demais líderes mundiais como Joe Biden, Emmanuel Macron e Angela Merkel.

A cada nova reunião de cúpula, o presidente Alberto Fernández levanta uma bandeira ainda desconhecida para os argentinos: a do meio-ambiente. Fernández procura liderar a agenda climática na América do Sul, antes liderada pelo Brasil. Por oposição a Jair Bolsonaro, em franco descrédito perante as potências mundiais, o presidente argentino tenta ocupar o vácuo brasileiro para, através da questão ambiental, aproximar-se dos principais líderes, tornando-se o interlocutor válido na região.

LEIA TAMBÉM
Após suspeição, Sergio Moro volta a cogitar mudança para os Estados Unidos

Lula comemora decisão do STF que reconheceu suspeição de Moro

Ricardo Barros alvo de protesto de professores em Maringá (PR)

“Alberto Fernández que ocupar esse vácuo. Não é apenas uma análise dos fatos. É também informação interna que tenho dos assessores do presidente”, confirma à RFI, o analista político argentino, Raúl Aragón.

“Há um espaço vazio neste momento. Um espaço que o Brasil deixou de ocupar em matéria ambiental. E esse espaço relaciona-se hoje com uma imensa e crescente demanda popular. Alberto Fernández, com um bom olfato político, aproveita os foros internacionais para se posicionar nesse espaço”, explica Aragón.

O Chile tentou primeiro
Quem teve a visão desse vácuo primeiro foi o presidente chileno, Sebastián Piñera. Em novembro de 2018, Jair Bolsonaro, como presidente eleito, abdicou da candidatura brasileira por sediar a reunião da ONU sobre alterações climáticas. Imediatamente, Piñera abraçou a COP 25, com o objetivo de liderar as discussões que o brasileiro menosprezou.

O plano de Piñera teve sucesso até que, em outubro de 2019, eclodiram no Chile as mega manifestações que, durante meses, forçaram o presidente chileno a alterar a sua agenda, a começar por desistir da reunião de cúpula que se iniciaria em dezembro daquele ano em Santiago.

“A questão ambiental permitia a Piñera mostrar uma direita mais moderna, uma direita preocupada com um assunto que aflige o mundo e, portanto, uma agenda politicamente correta. Com a convulsão social de outubro de 2019, Piñera foi obrigado a mudar de agenda. Estrategicamente, a agenda climática na América do Sul ficou sem uma liderança”, indica à RFI o cientista político Carlos Meléndez, da Universidade Diego Portales do Chile.

“É preciso analisar o jogo do argentino Alberto Fernández não apenas com Bolsonaro, mas também com o chileno Sebastián Piñera. Desde que Fernández assumiu, houve uma disputa por protagonismo entre Fernández e Piñera. A pergunta é até que ponto a agenda ambiental de Fernández é genuína ou é apenas parte de uma estratégia de política internacional”, questiona Meléndez.

Dificuldades para atingir o objetivo
“O que aconteceu nas últimas horas na Cúpula de Líderes sobre o Clima mostra, com clareza, o lugar que a Argentina realmente ocupa neste momento. O presidente norte-americano, Joe Biden, retirou-se momentaneamente da reunião justamente quando Alberto Fernández ia iniciar o seu discurso”, ilustra à RFI o ex-chanceler argentino (2017-2019), embaixador Jorge Faurie.

Desde que Joe Biden foi eleito em novembro, o presidente argentino ressalta a questão ambiental como um dos seus assuntos prioritários. Aconteceu durante a videoconferência bilateral com Jair Bolsonaro em 30 de novembro passado e durante a recente reunião virtual do Mercosul, em 26 de março. Fernández foi o único presidente a defender uma agenda ambiental.

Também voltou ao assunto durante a recente visita à Argentina -e não ao Brasil- do diretor sênior para o Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança dos Estados Unidos e assistente especial de Biden, Juan González.

Crédito em troca de ação climática
Nesta semana, a questão ambiental foi o eixo do discurso do líder argentino na Cúpula Ibero-americana e, claro, na Cúpula de Líderes sobre o Clima. Nas duas reuniões, Alberto Fernández, associou a questão ambiental com as suas necessidades internas de dinheiro. A Argentina vive uma profunda escassez de dólares e de acesso ao crédito. Fernández quer trocar alívio na dívida em troca de ação climática.

“Crédito aos países em desenvolvimento, incorporando elementos de ação climática aos beneficiados e estabelecendo uma relação virtuosa entre alívio financeiro e cuidado ambiental”, propôs Fernández na Cúpula Ibero-americana na quarta-feira (21).

“Pagamentos por serviços ecossistêmicos e trocas de dívida por ação climática”, acrescentou na Cúpula de Líderes sobre Clima na quinta-feira (22). “É uma boa estratégia. Não sei se vai funcionar, mas é correta”, avalia o analista Raúl Aragón.

Limites internos à liderança regional
A força de projeção internacional de Alberto Fernández é limitada devido à sua acelerada perda de popularidade interna, apontada por todas as pesquisas de opinião.

Segundo a mais recente de todas, a sondagem da Giacobbe & Asociados, Alberto Fernández passou de 68% de imagem positiva, em abril do ano passado, a 28% um ano depois. A sua imagem negativa agora chega a 60%.

“O ponto central da Argentina de hoje é o enfraquecimento da autoridade presidencial. Isso faz com que todas as iniciativas de política exterior que Alberto Fernández tiver, carecerão de conteúdo. Na Argentina, a política exterior depende do presidente. Não temos um corpo diplomático profissional com autonomia como o Itamaraty brasileiro”, aponta à RFI o analista internacional argentino, Jorge Castro.

“Esse enfraquecimento de Fernández produz um vácuo de poder que, por sua vez, gera uma crise de governabilidade. O discurso dele tem algumas ideias interessantes e até viáveis, mas a prática desse discurso depende da autoridade efetiva do presidente, algo cada vez menor e com tendência de desaparecer”, adverte Castro.

“A Argentina enfrenta graves desafios de governabilidade. Nesse cenário político e econômico deficiente, é irrelevante se Alberto Fernández quer ou não ser um líder ambientalista. Quando ele diz aos argentinos que devemos liderar a temática ambiental regional, é como se falasse sobre o sexo dos anjos. As aspirações de liderança ambiental de Fernández não têm nenhum aval na atual realidade argentina”, conclui o ex-chanceler Jorge Faurie.

Por Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires