Os riscos

Os riscos [para a classe dominante] de o Brasil voltar a ser feliz

Enio Verri*

A operação Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro estão calados, com exceção de alguns poucos muxoxos, porque sabem que é melhor não tentar explicar o inexplicável. O tamanho do arquivo apreendido com o hacker Walter Delgatti é de sete terabytes. A defesa do ex-presidente Lula teve acesso a 740 gigabytes. Apenas dessa pequena parte se extraiu um sem fim de crimes cometidos, como improbidade administrativa, traição à nação, abuso de poder, apoio a um golpe de Estado, entre outros. Essa é a verdadeira Lava Jato. Explica a mudez da sua força-tarefa, até há pouco tempo sempre tão disponível aos flashes e aos holofotes.

Da noite para o dia, os heróis Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e a equipe que ele liderava foram desnudados em vários aspectos. Enlamearam o Ministério Público, o Judiciário e a Polícia Federal, pelo menos. Acusação e Juízo combinaram ações em parceria com objetivo na condenação. Eles devem satisfações, principalmente ao público, mas também aos servidores que se respeitam, que não são arrivistas. Do ponto de vista humano, faltam palavras que descrevam o sentimento de saber que havia um prazer na perseguição, expresso no deboche com a morte de uma criança, no desfrute com a tortura para arrancar uma confissão e pelo suicídio de um inocente, acossado pela Lava Jato.

A operação serviu igualmente à aversão que a classe dominante tem de democracia. Ela foi a encenação que a imprensa usou para demonizar a política e o Partido dos Trabalhadores, a ponto de ser possível um golpe de Estado, como já fartamente revelado, por uma pedalada fiscal. Em parceria com órgãos de justiça e de espionagem dos EUA, a operação se prestou, também, ao papel de corrente de transmissão dos interesses políticos e econômicos daquele país. Destruiu a indústria de engenharia pesada brasileira e paralisou grandes obras, causando prejuízos bilionários e a consequente demissão de trabalhadores das extensas cadeias produtivas que as envolviam.

Enfim, desde 2014, essa bandalheira ocorre sob a indiferença institucional, pública e privada, diante, por exemplo, do grampeamento do tronco telefônico do escritório dos advogados de Lula e do vazamento de uma interceptação telefônica criminosa para a maior rede de televisão do Brasil. Os fatos não mereceram o mais superficial olhar dos poderes, inclusive da imprensa, ocupada em criminalizar a política, diariamente. A supressão da legalidade e da democracia, ou o desmantelamento econômico e tecnológico, em momento algum foi abordado pelas reportagens e pelos analistas da imprensa comercial como um risco de o país se tornar um pária, assim já reconhecido pelo resto do mundo.

Enquanto a Lava Jato se decompõe em praça pública e o país arde em COVID-19, com mais de duas mil mortes diárias e já quase 300 mil, no total, está tudo absolutamente normal para o nosso senhor deus mercado financeiro. Bastou o ministro do STF Edson Fachin fazer justiça e anular as viciadas decisões da 13ª Vara Federal de Curitiba, contra Lula, que o mercado abandonou seu mantra de reformas fiscais e de privatizações, para aterrorizar o Brasil com um suposto risco que o ex-presidente representa. A bolsa de valores e o dólar são usados para fazer terrorismo com o Brasil. Ou seja, o risco é para o parasitário segmento especulativo,

Desde 2016, todos os índices sociais, econômicos, sanitários, educacionais, culturais, tecnológicos estão em franco declínio. Por outro lado, desemprego, fome, exclusão, restrição de acesso a direitos, violência, criminalidade e o lucro dos bancos estão em forte expansão. Contudo, quem provoca risco são o ex-presidente e o partido que fizerem deste país a 6ª economia do mundo, retiraram 40 milhões de brasileiros da pobreza, reduziram o desemprego a 4,5% da população, levaram água para 12 milhões de nordestinos, reajustaram o salário mínimo 77% acima da inflação, entre outros avanços, como o histórico envio de mais de 100 mil estudantes para intercâmbio educacional.

A narrativa do risco Lula é usada pela classe dominante para afastar a possibilidade de este país retornar ao período da história em que houve os maiores avanços na democratização do acesso às riquezas produzidas pela classe trabalhadora. Foi quando filhos de pobres passaram a ocupar espaços de decisão política, tanto nos bancos escolares superiores, quanto nos serviços públicos. O verdadeiro risco e que deve ser implacavelmente combatido é a colonizada perspectiva que os herdeiros da casa-grande tem do Brasil, de país submisso e atrasado. Lula pautou a imprensa mundial com uma narrativa de estadista pela qual afirma e garante que esta nação é maior e pode mais que qualquer mercado financeiro que tenta diminuí-la. O Brasil pode voltar a ser feliz.

*Enio Verri é economista e professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores do Paraná.