Onipotência de Bolsonaro consentida e os 250 mil mortos por COVID-19, por Enio Verri

Enio verri*

A história, ao menos ela, colocará no seu devido lugar cada um dos que participam da destruição e do aniquilamento da soberania nacional, desde 2016. De Temer a Bolsonaro, mudou apenas o presidente. Tanto as políticas quanto os atores que as aplicam são os mesmos dos governos FHC, com outros nomes. Mas a voracidade é a mesma. O diferencial do atual governo é a virulência com a qual implanta o mais profundo e covarde atraso à nação, em todas as frentes. A macabra onipotência de Bolsonaro, nunca devidamente rechaçada, foi quem fez o Brasil ultrapassar os 250 mil mortos por COVID-19. Se ele age como bem quer é porque há tolerância.

O presidente se esforça para atrapalhar o combate à pandemia, provocando aglomerações, desqualificando o uso da máscara e, pior, causando todo tipo de embaraço na liberação de recursos, tanto para aplacar a fome quanto para adquirir vacinas e insumos de produção. O tiro de misericórdia vem da humilhante proposta de pagar R$ 250, durante quatro meses. São mais de 60 milhões de brasileiros sem condições de se alimentar com decência e que ainda têm de se preocupar com saúde, transporte, aluguel, água, energia elétrica, telefone, entre outras demandas. O pobre é uma categoria de gente que, para Bolsonaro, não vale a pena salvar.

Em outro plano, o que FHC e Temer não conseguiram, Bolsonaro está disposto a qualquer coisa para realizar, com as mais baixas traições ao Brasil. Sob os aplausos de uma certa imprensa e de instituições que deveriam zelar pelo patrimônio brasileiro, duas grandes e estratégicas empresas estão na agenda de privatizações. A Eletrobras e os Correios. De um lado, o presidente vai entregar ao desenvolvimento de outros países ferramentas imprescindíveis para recuperar o Brasil da crise econômica e investir no desenvolvimento social. Do outro, empresas privadas estrangeiras passarão a gerir fonte e fornecimento de energia e os dados pessoais dos brasileiros.

Ambos os patrimônios não são apenas edificações, mas estruturas presentes em todo o Brasil, intimamente ligadas à população e de vital importância na indução econômica para as políticas de redução de desigualdades regionais. A Eletrobras é a maior empresa de energia elétrica da América Latina, dona da Eletronuclear e de metade da usina hidrelétrica binacional Itaipu. Por outro lado, a lição do Amapá não pode ser esquecida. A explosão da subestação que submeteu os amapaenses a 22 dias de tormento ocorreu por falta de manutenção e, portanto, negligência da empresa proprietária, que vai descontar o prejuízo nas contas cobradas da população.

O fato de ser uma empresa pública que fornece de um serviço que demanda grande infraestrutura, confere a ela a condição e a obrigação de adotar um plano estratégico de desenvolvimento, investindo em locais que, inicialmente, não dão lucro. Energia elétrica atrai indústria, geração de empregos, consumo, arrecadação e, finalmente, lucro para a empresa. Para promover esses avanços, ela usa os bons resultados financeiros auferidos em regiões mais desenvolvidas, integrando o Brasil. Trata-se de uma política de Estado. A empresa que comprar a Eletrobras não vai investir em local onde não dá lucro. Ou seja, as desigualdades vão aumentar.

A empresa é responsável por quase 40% da capacidade de geração de energia e ainda há muitos lugares que necessitam de investimentos para que saiam do isolamento político, econômico e cultural. A destemida iniciativa privada não vai onde o Estado já não esteja. Por fim, entregar essa empresa não é apenas ceder o controle da distribuição da água aos interesses dos lucros de agentes privados, mas admitir que a água seja um bem com valor atribuído e controlado por bolsas de valores. A água é vital e não pode ser uma commodities de acesso a poucos.

Os Correios, também, estão à venda. Bolsonaro não vai se desfazer de uma empresa que entrega cartas, mesmo porque elas são cada dia mais raras. O Brasil vai abrir mão de uma das maiores empresas de logística do mundo, que tem os dados de todos os brasileiros que possuem um endereço. Quem a adquirir terá uma estrutura muito bem montada, de grande capilaridade e lucrativa. É incrível o silêncio dos militares que ainda respeitam o grande patrimônio que criaram e fizeram ser respeitado e cobiçado pelas maiores empresas de logística do mundo. Não é apenas falta de visão estratégica de Bolsonaro, é desmantelo e uma sabuja submissão à agenda ultraliberal que o elegeu. Sem as ferramentas estatais será impossível alcançar a soberania. Além exigir a vacina, é tarefa de todas as forças progressistas denunciar e impedir os crimes de lesa-pátria e de lesa-humanidade cometidos pelo presidente e por quem o apoia.

*Enio Verri é economista e professor aposentado do departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores do Paraná.