O higienismo do ‘apartheid vacinal’ e o apagão das vacinas para os pobres na pandemia

Por Milton Alves*

Duas máximas costumam frequentar o debate público. São sentenças proferidas em quase 99% das ocasiões quando o debate é sobre as mazelas do Brasil. Quem não ouviu alguma vez na vida que o “Brasil não é um país sério” ou a indefectível “o Brasil não é um país para amadores”.

Pois bem. Vamos aos fatos. Causou certa indignação a conduta de um grupo de empresários e políticos de Minas Gerais vinculados ao setor do transporte que nessa semana tomou a primeira das duas doses da vacina da Pfizer contra a Covid-19, em Belo Horizonte. A segunda dose será ministrada ao seleto grupo de maganos dentro de 30 dias ao custo de R$ 600,00 -, por coincidência, o antigo valor do auxílio emergencial aprovado pelo Congresso Nacional no início da pandemia, agora rebaixado e que teve o seu alcance restringido pelo governo genocida.

Segundo a revista Piauí, o ex-senador Clésio Andrade (MDB-MG), ex-presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), foi um dos vacinados pelo bonde de luxo dos fura-filas ricos. “Estou com 69 anos, minha vacinação [pelo SUS] seria na semana que vem, eu nem precisava, mas tomei. Fui convidado, foi gratuito para mim”, declarou.

O fato é revelador da conduta criminosa e delinquente de setores das classes dominantes brasileiras. A mesma que apoia e sustenta o genocídio praticado pelo governo Bolsonaro contra a população trabalhadora e pobre do país. A mesma mentalidade reacionária, para dizer o mínimo, vomitada por Xuxa e pela bolsonarista Janaína Paschoal em defesa de medidas de higienismo social contra negros presos e idosos internados durante a pandemia. A mesma que defende, junto com o presidente genocida, a volta das aulas e impede a decretação de um lockdown efetivo, de verdade, com salários garantidos aos trabalhadores formalizados, auxílio aos informais, apoio aos pequenos negócios, e a distribuição direta de comida aos esfomeados que dormitam nas regiões metropolitanas do país.

É a mesma fração da “frente ampla da Faria Lima” que divulga uma carta de economistas, serviçais de luxo de banqueiros, em pleno auge do ciclo infernal do morticínio pela Covid-19, defendendo a continuidade do teto de gastos, ou seja do arrocho fiscal que só penaliza os pobres, e da continuidade das privatizações conduzidas pelo pinochetista Paulo Guedes.

O que ocorreu em Belo Horizonte não é um fato isolado: Camadas de pessoas ricas, que ostentam relações privilegiadas com os governantes, e algumas corporações profissionais furam, de forma criminosa, a fila de vacinação. Vale lembrar também a atitude do prócer da Igreja Universal-Corporação empresarial, que depois de minimizar os riscos da Covid, foi tomar a vacina em Miami, longe de seus dizimistas e humildes financiadores.

O Senado atendendo os apelos do empresariado até aprovou uma lei, de autoria do senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que legaliza a compra de vacinas, o que consolida e oficializa o “apartheid vacinal” no país.

A medida determina ainda que uma cota das doses compradas pelas empresas seja doada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Algo sem controle efetivo da parte do poder público e que rompe com a lógica do Programa Nacional de Imunizações (PNI) -, que é a única garantia de um sistema de vacinação universal e gratuito para todos os brasileiros e brasileiras. Somente um rígido controle social do cronograma de vacinação, via os conselhos municipais e estaduais de Saúde, pode impedir o comportamento egoísta e antissocial dos “fura-filas”.

Enquanto isso, a vacinação contra a Covid-19 segue de forma lenta e desordenada, atingindo pouco mais de 15 milhões de pessoas, que estão parcialmente imunizadas. Ao mesmo tempo, um colapso sanitário, sem precedentes, se instala no conjunto da rede hospitalar pública e privada – sem mais leitos de UTI, carência de equipamentos, insumos e com a falta de pessoal especializado. A conduta criminosa e negacionista do presidente foi decisiva para aprofundar o colapso sanitário em curso no país.

Bolsonaro continua sendo o principal obstáculo para a organização de uma verdadeira campanha de imunização: O governo bolsonarista não assegurou uma política de aquisição diversificada de vacinas e insumos, não votou pela quebra das patentes de vacinas em escala mundial, tampouco preparou uma campanha publicitária a favor da vacinação ampla da população e ainda promove a falácia de um ineficaz tratamento precoce.

Além disso, após a posse do 4º ministro no quartel em que foi transformado o Ministério da Saúde, apresenta um falso cronograma de vacinação, tendo em conta que não temos ainda o fluxo seguro e continuado de um ingrediente básico como o IFA – Ingrediente Farmacêutico Ativo – fornecido pela China, para produzir as vacinas já contratadas pelo Instituto Butantan-Sinovac e da AstraZeneca/Oxford-Fiocruz. E os lotes de vacinas contratados na Índia e na Coreia do Sul também atrasaram os prazos de entrega.

Nesta semana, também vimos o anúncio espetacular da fabricação de vacinas pelo governador João Doria (PSDB-SP) a partir de um imunizante desenvolvido pelo renomado Instituto Butantan, batizado pelo nome fantasia de Butanvac.

Por sua vez, o governo federal, que não se fez de rogado, anunciou a Versamune desenvolvida pela USP de Ribeirão Preto em parceria com empresas privadas – e o mais surpreendente e mágico: o número de mais duas vacinas em fase de testes, segundo informou Marcos Pontes, um dublê de astronauta e ministro.

Apesar do esforço laborioso e nobre dos cientistas brasileiros, os dois políticos governantes, oriundos de cepas diferentes da direita política, são marcados por ações demagógicas e de pura propaganda. Os anúncios soaram como uma macabra corrida eleitoral entre Doria e Bolsonaro, que especulam com anseio desesperado da população em busca da vacina.

De toda forma, as vacinas anunciadas passarão por um relativo período de checagem e aprovação pelo órgão regulador e com o prazo de alguns meses para entrega efetiva ao atrasado cronograma de vacinação do SUS, demandado pela necessidade de maior rapidez frente ao avanço do contágio e das mortes pelas novas cepas do coronavírus.

A luta pela vacinação pública, gratuita e universal – e contra o apartheid vacinal a favor dos furas-filas ricos – está inserida no combate pelo fim do governo genocida de Bolsonaro e dos generais palacianos. Uma luta prioritária e urgente em defesa da vida.

*Milton Alves é ativista político e social. Autor dos livros ‘A Política Além da Notícia e a Guerra Declarada Contra Lula e o PT’ (2019), ‘A Saída é pela Esquerda’ (2020) e de ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil’ (2021) – todos pela Kotter Editorial. Escreve semanalmente em diversas mídias progressistas e de esquerda.