“Curitiba já é epicentro global da pandemia”, afirma cientista Lucas Ferrante [vídeo]

  • “É necessário pedir o afastamento do prefeito [Rafael Greca] e do governador [Ratinho Junior] porque eles estão enviando a população para o abatedouro”, diz cientista sobre o afrouxamento das regras em Curitiba e no Paraná

O cientista Lucas Ferrante disse em entrevista coletiva, nesta quinta-feira (11/3), que Curitiba já é o epicentro global da pandemia. Ele defendeu imediato lockdown de 21 dias para cerca de 90% da população na capital paranaense.

Doutorando do programa de biologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Ferrante é pesquisador das variantes do vírus da covid.

“Curitiba é a Manaus de amanhã, só que proporcionalmente pior [que a capital do Amazonas]”, afirmou o pesquisador durante a coletiva de imprensa convocada pela APP-Sindicato.

Ferrante comparou os pais que enviam seus filhos para as escolas, num ambiente de avanço da pandemia, àqueles que enviam as crianças para uma escola pegando fogo.

“A situação é crítica para todo o Paraná, principalmente em Curitiba, que já é um epicentro mundial”, alertou, ao sustentar que a cidade está sob o signo da terceira onda da pandemia.

O cientista aponta a falta de vacinação e isolamento social no estado. “Curitiba e Paraná têm a receita para uma catástrofe”, disse.

Lucas Ferrante projeta 100 mortos por dia, se não houver um lockdown imediato de todos os serviços, com exceção os de saúde.

Para o pesquisador, é extremamente grave o retorno das aulas presenciais. “É enviar a população ao abatedouro”, lamentou.

“É necessário pedir o afastamento do prefeito [Rafael Greca] e do governador [Ratinho Junior] porque eles estão enviando a população para o abatedouro”, sugeriu Ferrante, que faz parte do grupo de cientistas que previram o colapso no sistema de saúde na capital amazonense e alertam para uma terceira onda da doença.

No Paraná, na manhã desta quinta-feira (11/3), a taxa de ocupação de UTIs apontavam 1.071 pacientes na fila. Desses, 519 estavam à espera de um leito de UTI e outros 552, de um leito de enfermaria.

Assista ao vídeo:

Nota Pública da APP Sindicato: Escola é lugar de aprender, e não de contaminar

Lutamos por uma escola sem luto! A pandemia no país e em nosso estado não está controlada. Bem pelo contrário! Há mais de um mês convivemos com mortes diárias que chegam próximo dos 2000 casos. A cada um minuto uma pessoa morre pela Covid-19 em terras brasileiras. No atual estágio da doença, com novas cepas, aumenta a contaminação e o agravamento do estado de saúde entre os(as) mais jovens.

No Paraná, nas últimas semanas, verifica-se um aumento considerável no número de casos e o sistema de saúde está em colapso. Estamos sentindo nesse período o ocorrido em Manaus. A fila de pacientes à espera de um leito de enfermaria e de UTI para tratamento da Covid-19 só será zerada em cerca de um mês, caso os casos cessem. A informação é do diretor de gestão da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), Vinícius Filipak, em entrevista ao telejornal Meio Dia Paraná da RPC. “E isso, se não houvesse mais contaminações em todo o Estado”- afirma. Os últimos dados sobre a taxa de ocupação de UTIs apontavam 1.071 pacientes na fila. Destes, 519 estavam à espera de um leito de UTI e outros 552, de um leito de enfermaria.

Além disso, do total de receitas específicas recebidas pelo Estado de outras instituições públicas, de transferências da União via Fundo Nacional da Saúde e do auxílio financeiro aos estados; recursos esses destinados para o Combate da Covid que foi de R$ 948 milhões, o governo utilizou o montante de R$ 626 milhões, ou seja, 66% dos recursos. Deixaram de ser aplicados no combate à Covid-19 R$ 323 milhões,o que corresponde a não aplicação de 1/3 das transferências de receitas recebidas (Novo sistema SIAF).

O estágio de vacinação está muito longe do ideal. No Paraná, pouco mais de 3% da população foi vacinada. E não vimos até o momento o governador tomar iniciativas concretas para a compra de vacinas. O governo que havia dias atrás editado o Decreto nº 6983/21 que estabeleceu um “mini lockdown”, ao nosso ver insuficiente, agora, atendendo o setor empresarial, edita o Decreto 7020/21, promovendo a flexibilização do isolamento social e o retorno às aulas presenciais. E faz isso em um momento em que a pandemia não dá sinais de arrefecimento, ao contrário, o aumento de casos e óbitos se sucede dia após dia.

A atitude do governo estadual de desprezo pela vida humana levou o Ministério Público do Paraná (MP-PR), junto com as defensorias do Estado e da União, a abrirem uma ação civil pública contra o afrouxamento das medidas de isolamento social no Paraná. De acordo com a medida, o órgão solicita a prorrogação do Decreto Estadual 6983/21, mantendo as medidas mais restritivas para o combate à pandemia. A Ação que foi ajuizada pelo MP-PR, por meio das Promotorias de Justiça de Proteção à Saúde Pública de quatro macrorregiões de Saúde do Estado (Curitiba, Londrina, Maringá e Cascavel) aponta que as medidas de restrição de circulação devem durar até que haja uma comprovação epidemiológica com a redução do número de casos e que a taxa de ocupação de leitos de UTI no Paraná esteja abaixo dos 80%.

Abrir as escolas nesse momento é pôr em risco a vida dos(as) estudantes, professores(as), funcionários(as) de escola e a vida de mães, pais, avós e responsáveis. Essa atitude só vai contribuir para o aumento de casos e, infelizmente, de mortalidade. Imaginem o que acontecerá com a circulação diária de meio milhão de pessoas nos deslocamentos entre casa e escola. Mesmo sem abrir para estudantes, as escolas do Paraná já apresentam surtos de covid-19 e tiveram que ser fechadas.

O governo insiste em dizer que as escolas são seguras e que os protocolos foram criados para uma maior segurança. No entanto, os protocolos criados e que devem ser seguidos pelas comunidades escolares são impraticáveis e tampouco darão conta de evitar uma tragédia, diante do nível de contaminação comunitária do Coranavírus e suas novas cepas. Nossas escolas, não só de agora, padecem pela falta de estrutura: a falta de ventilação nas salas; as condições dos banheiros; de dispensadores de água; etc. Além do mais, passaremos por um processo com nossos(as) estudantes de difícil controle como os cuidados com o manuseio e troca de máscaras; o distanciamento social exigido (de 1,5 m) à(aos) estudantes que estão há meses sem se ver ou se tocar. Isso sem contar que as gotículas de saliva, de espirros ou tosse que contém a Covid-19 podem ficar suspensas no ar por até 4 horas e viajam a distâncias superiores a 1,5 m. A higienização de ambientes comuns, que deve ser semelhante ao que se faz nos hospitais, postos de saúde e Upas não é tarefa fácil e exige todo um procedimento de equipes especializadas, algo que nossos(as) funcionários(as) de escola não têm condições para realizar. E não é por falta de capacidade dos(as) Agentes Educacionais, mas é por conta da especialização da limpeza, diferente do que se faz no dia-a-dia escolar. Estamos falando de instrumentos de trabalho e produtos químicos que se não forem usados de maneira adequada podem gerar infecção em quem os utiliza e não darão conta da desinfecção, expondo a comunidade toda ao risco de contaminação.

É necessário dizer a toda sociedade paranaense que a maioria das escolas não possuem o número suficiente de funcionários(as) nem para atender as demandas em situações normais do dia a dia escolar, imagine numa situação de excepcionalidade pandêmica, além do que o governo pretende demitir 9000 funcionários(as).
É preciso informar que os municípios não oferecerão transporte escolar e os(as) estudantes precisarão utilizar transporte público urbano (ônibus) e ficarão sujeitos a um alto grau de contaminação pela circulação do vírus em um ambiente de aglomeração. Ao contrário, a maioria dos municípios tem se unificado para o não retorno das aulas presenciais.

Em recente Nota Técnica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia sobre a epidemia na capital paranaense vai à contramão dos que insistem na volta às aulas presenciais. O estudo recomenda mais restrições aos deslocamentos para impedir que o coronavírus continue se espalhando sem controle. “A situação que se projeta para Curitiba por si só é grave, e o relaxamento do distanciamento social neste momento, além do retorno das aulas nas modalidades presencial ou híbrida deve agravar ainda mais a situação”, diz a nota. O texto alerta, ainda, que “a negligência em ignorar estes resultados têm representado um alto custo de perda de vidas.” O estudo reafirma a impossibilidade da volta segura às aulas presenciais nesse momento, também pela falta de condições mínimas de controle nas escolas. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) é clara em definir que a retomada das aulas presenciais ou híbridas necessitam de um amplo programa de testagem, tendo como princípio diminuir o contágio de localidades em transmissão comunitária. Tal monitoramento e testagem não têm sido efetivados em proporções adequadas em nenhuma cidade brasileira/paranaense, incluindo Curitiba”, aponta. O estudo feito para Curitiba pode ser projetado para outras regiões paranaenses que vivem o mesmo caos que se vive na capital paranaense. Aulas presenciais ou híbridas serão seguras, segundo o estudo científico, quando limiares de imunização comunitária, via vacinação, forem adquiridos pela população, assegurando que cada cidade não esteja em níveis de transmissão comunitária.

Infelizmente vivemos a negação da ciência e nos deparamos com jargões cotidianos do tipo: “as crianças estão ficando doentes em casa”, ” lugar de criança é na escola” , “nesse momento a escola é o lugar mais seguro” , “as crianças estão traumatizadas” , entre outras afirmações que ouvimos no dia-a-dia. Toda criança precisa de um lugar seguro, sentir-se cuidada e amada. Mas há algo de errado nestas afirmações, pois a casa deve ser o lugar de referência, onde a segurança, o cuidado e o amor deveriam prevalecer. É em casa que se aprende as primeiras relações sociais, a se alimentar, se higienizar, falar, andar, conquistar a sua autonomia; onde se aprende a amar e a ser amada. É com a família que se deve aprender as melhores histórias e brincadeiras, dar as melhores gargalhadas, andar de bicicleta, cair e levantar, ouvir e obedecer, ter responsabilidades (Roberta Galdindo, via redes sociais). Infelizmente, muitas crianças, pelo descaso dos governos, não têm essas condições e dificilmente vemos aqueles que agora bradam a defesa dessas crianças defendê-las nesses 500 anos em casos de vulnerabilidade.

Preserve a vida de seu(sua) filha(o). Deixe-o(a) em segurança e cuidado em casa. A escola voltará e ano letivo se recupera. Nós, Educadores(as), queremos voltar para escola. Mas não pode ser sem segurança e justamente no período em que o mundo olha para o Brasil e se lamenta com a tragédia. São mais de 270 mil óbitos.

A escola sempre foi sinônimo de vida! A escola não combina com luto. Infelizmente, ao contrário do que diz o governo, a escola não é, neste momento, um lugar seguro, como de resto têm sido os lugares que levam à circulação e aglomeração de pessoas. Sabemos das dificuldades que foi o ensino remoto em 2020, mas ainda é melhor opção que enviar nossas crianças para a escola sem as condições estruturais, sanitárias, de redução de número de casos, sem estrutura hospitalar e, principalmente sem vacinação. A vida em primeiro lugar!

Paraná, 10 de março de 2021.

APP-Sindicato dos(as) Trabalhadores(as) em Educação Pública do Paraná