Anulação de condenações de Lula repercute na imprensa europeia

“Um trovão em um ambiente político já carregado.” É assim que o diário francês Le Monde traduz nesta terça-feira (9) a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, de anular todas as condenações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, restaurando seus direitos políticos e o tornando elegível nas eleições presidenciais de 2022, contra Jair Bolsonaro.

Para o jornal, o anúncio marca uma virada em um ciclo judicial de sete anos em que o líder histórico da esquerda brasileira foi repetidamente condenado por corrupção e levado a passar 580 dias na prisão, entre abril de 2018 e novembro de 2019.

Le Monde destaca o apoio recebido pelo ex-metalúrgico também fora do Brasil, da esquerda latino-americana, como do chefe de estado argentino Alberto Fernandez e os ex-presidentes Evo Morales, da Bolívia, e o uruguaio José Mujica. Em sua conta no Twitter, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, expressou: “Tão feliz! A Justiça foi feita por Lula”. O líder da esquerda radical francesa, Jean-Luc Mélenchon, também comemorou a decisão.

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O diário enfatiza ainda que a resolução do juiz é acima de tudo política, uma resposta do STF aos abusos da Lava Jato e aos ataques constantes do atual presidente à Casa.

O site da revista L’Express também chama a atenção para o cunho político da decisão, que “teve o efeito de uma bomba” e lança o ícone da esquerda brasileira de volta à arena política, em um Brasil mais polarizado do que nunca, após dois anos de mandato do presidente da extrema direita Jair Bolsonaro.

Lava Jato desacreditada
L’Express chama a atenção para o descrédito que a operação Lava Jato vem sofrendo nos últimos meses, com a imparcialidade de juízes e promotores sendo questionada por trocas de mensagens veiculadas pelo site The Intercept Brasil e a nomeação do juiz Sérgio Mouro como ministro no governo Bolsonaro.

Já Le Figaro lembra que, quando foi preso, o ex-chefe de Estado era considerado o favorito nas pesquisas de intenções de voto nas eleições presidenciais de outubro de 2018. Les Echos cita pesquisa recente, em que Lula parece ser o único capaz de derrotar Jair Bolsonaro na próxima eleição, em 2022: 50% dos entrevistados disseram estar prontos para votar nele, contra 38% a favor do atual presidente.

A reação de Bolsonaro, que acusou o juiz Fachin “de forte ligação com o PT”, e sua declaração de que “o banditismo deste governo (de esquerda) é muito claro para toda a sociedade”, foi citada na revista Courrier International.

Le Monde destaca a postura de um Lula de 75 anos, cheio de energia para voltar a campo, observa que o petista deve ser vacinado contra a Covid-19 em breve. Mas lembra que ele herda uma esquerda dividida, um PT enfraquecido e ainda enfrente forte rejeição popular.

Um retorno sensacional
O jornal espanhol El Pais diz que a decisão de Fachin mexe no tabuleiro político do Brasil e atrapalha os planos de reeleição de Bolsonaro. Para o diário, a reviravolta é “uma vitória de Lula”, que já sugere a provável candidatura em 2022.

O jornal britânico The Guardian, aliás, dá essa opção como certa e prevê, no Brasil, uma disputa similar à que ocorreu nos Estados Unidos, entre Donald Trump e Joe Biden. Se isso realmente ocorrer, Lula vai protagonizar “um retorno sensacional”, afirma The Guardian.

Por RFI, com informações da AFP