Veja por que a Lava Jato foi um retrocesso para o marco civilizatório brasileiro

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Como jornalista e jurista não poderia deixar de me manifestar sobre o fim da Lava Jato, decretado pelo Ministério Público Federal. Foi tarde, a meu ver.

A existência do governo do presidente Jair Bolsonaro pode ser atribuída à agora falecida força-tarefa de Curitiba. Quem confirmou isso foi o líder do mandatário, deputado Ricardo Barros (PP-PR), ao reconhecer que a prisão do ex-presidente Lula ocorreu para tirar o petista da eleição de 2018.

Os retrocessos havidos nesses últimos dois anos –e não foram poucos— podem ser debitados na conta da Lava Jato, do ex-juiz Sergio Moro e do ex-coordenador do grupo de investigação, o procurador Deltan Dallagnol.

A força-tarefa Lava Jato foi um retrocesso para o marco civilizatório brasileiro, que agora levará alguns anos para se recuperar –a exemplo da Itália, com a Operação Mãos Limpas (em italiano: Mani pulite), que jogou o País da Bota numa recessão econômica e numa crise política que já duram 30 anos.

Os danos causados à Petrobras, empresa que juravam estar protegendo, podem ser medidos com a privatização picotada das subsidiárias a preço de banana; o desmonte das refinarias, que tornará o Brasil depende da importação de combustíveis [mesmo sendo um dos maiores produtores de petróleo do mundo]; a destruição da indústria naval e da construção pesada; o fim do projeto de energia nuclear brasileiro; os milhões de pais de família desempregados; enfim, a República de Curitiba atrasou a nação com ataques de ordem econômica à soberania nacional.

Com os setores progressistas acuados pelo discurso do falso moralismo engendrado pelo lavajatismo, o Congresso Nacional –dominado por patrões e comprado por banqueiros— votou reformas que custaram serviços essenciais à sociedade e a retirada de direitos dos trabalhadores, como emprego e aposentadoria.

Por outro lado, no aspecto moral, os moços da Lava Jato forjaram processos, condenaram sem provas, fizeram conluio entre acusador e julgador, rasgaram a Constituição para prender um homem dentro de um projeto “maior” de poder para uma casta que supostamente era ungida por Deus.

A Lava Jato foi o principal combustível para o surgimento dos fundamentalistas, extremistas que destilam ódio nas redes sociais e organizam ataques contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. E, de sua costela nasceu Bolsonaro –a escola sem partido, a homofobia, a xenofobia, o negacionismo, o movimento contra a vacina, o racismo, a misoginia, etc.

Neste breve texto, não entrarei noutras searas da Lava Jato como o novo emprego do ex-juiz Sergio Moro na firma que tem a Odebrecht como cliente; a tentativa da força-tarefa montar um bilionário fundo político com dinheiro da Petrobras; ou a magistrada que copiou e colou.

A Lava Jato foi um retrocesso para o marco civilizatório brasileiro. Por isso, a meu ver, foi tarde demais.

O próximo passo, por óbvio, cabe ao STF anulando as sentenças contra o ex-presidente Lula.