O preço da gasolina e a revolta seletiva

Compartilhe agora

Por Arilson Chiorato*

Quem não se lembra do escarcéu montado sobre os preços de combustíveis do Governo Dilma? Quem poderia esquecer o horror, a falta de respeito e os ataques baixos que a ex-presidenta sofreu? Infelizmente, jamais esquecerei os adesivos completamente desrespeitosos, pornográficos e que buscaram ferir a honra daquela que ocupava a Presidência da República. É muito triste quando a oposição política ultrapassa limites tão necessários para a democracia brasileira e também para nossa sociedade.

Busco estes fatos para refletirmos sobre o quanto este fato do preço dos combustíveis foi, há 5 anos, palco para muitos embates, críticas e revolta da população. O curioso é que, estas mesmas pessoas que se indignaram com a gasolina a R$3,00, hoje estão caladas com o preço de quase R$5,50. Não é possível que diante de toda a revolta sentida e esbravejada há alguns anos, este sentimento tenha caído no esquecimento e hoje o preço absurdo em que se encontram os combustíveis sejam relevados e aceitos tranquilamente.

Por isso escolhi abordar este tema, para refletirmos sobre o quanto nossa sociedade é influenciada pelos interesses da elite econômica e da grande mídia. A cobertura midiática sobre o preço dos combustíveis e a incitação de um sentimento de revolta era frequente no Governo Dilma, pela mídia e pela oposição inconformada, que atuavam conjuntamente. Executaram um projeto político de destruição do Governo e da ex-presidenta, que resultou na história que conhecemos, um Golpe de Estado travestido de impeachment.

Não podemos perder de vista, que essa mesma mídia e oposição que exploravam politicamente os preços dos combustíveis, trabalharam incansavelmente para alterar a política de preços da Petrobras. Diminuindo a intervenção do Estado na definição dos preços e, consequentemente, seguindo os interesses e aplicando os preços do Mercado. Desta forma, o Governo deixa de controlar os preços, pois a nova política, adotada pelo Governo Michel Temer, segue a cotação do dólar e os interesses das petrolíferas internacionais como alternativa.

É importante lembrar que Bolsonaro apoiou o Golpe contra Dilma — além de defender publicamente um torturador em sessão histórica da Câmara Federal. O atual presidente também votou favorável ao projeto que entrega o Pré-Sal às multinacionais, enquanto deputado.

Mas por que não vemos e não relacionamos o aumento do preço do combustível à figura de Bolsonaro? Simples, porque não há interesse da mídia em alertar sobre a opção política do Governo em não controlar os preços. Só em 2021 já foram quatro (4) aumentos e o presidente passa praticamente ileso. Existem críticas e comentários, mas de forma espontânea, não é uma revolta organizada como aconteceu há alguns anos. Isso porquê não há interesse da grande mídia em explorar este fato.

Ou seja, é mais uma prova de que nossa sociedade é completamente suscetível aos arranjos, pautas e narrativas que interessam o oligopólio das comunicações. A população, em geral, “dança conforme a música” e enxerga apenas o que deixam enxergar. A situação é compreensível, pois é difícil fugir do aparato de todo este aparato de desinformação e massificação da ideologia dominante. E não podemos nos iludir, por mais que a maior rede de comunicação critique posturas do presidente, jamais questionará sua política econômica ou seu Ministro da Economia, que corresponde aos seus interesses e constrói o mesmo projeto político de aprofundamento da desigualdade social brasileira.

*Arilson Chiorato é Deputado Estadual, Presidente do PT – Paraná e Mestre em Gestão Urbana pela PUC-PR. Coordenador da Frente Parlamentar sobre o Pedágio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.