Mianmar: exército bloqueia Facebook após indiciamento de Aung San Suu Kyi

A dirigente birmanesa Aung San Suu Kyi, 75 anos, foi acusada formalmente nesta quarta-feira (3) pela Justiça de Mianmar, três dias depois do golpe militar que resultou na instauração do estado de emergência no país. Os militares agora tentam abafar novos protestos, que começaram nesta quinta-feira (4).

Os militares do país pediram nesta quinta-feira (4) às operadoras de internet que bloqueassem o acesso ao Facebook, uma ferramenta essencial para a comunicação dos birmaneses. A rede social anunciou que na quinta-feira (noite de quarta no Brasil) o acesso estava “interrompido para algumas pessoas” e pediu às autoridades que restabelecessem a conexão.

O objetivo é evitar que os protestos ganhem força. Nesta manhã, um grupo de manifestantes se reuniu nas ruas de Mandalay, a segunda maior cidade do país, pedindo o retorno da democracia.

Um vídeo publicado no Facebook mostra cerca de 20 pessoas reunidas na frente da faculdade de Medicina de Mandalay, exibindo uma faixa com os dizeres “O povo protesta contra o golpe de Estado”.

Protestos também ocorreram em Rangum e muitos pediram no Facebook que a população se rebelasse contra a tomada do poder pelos militares.

Aung San Suu Kyi foi indiciada por desrespeitar uma lei comercial sobre importações e exportações e teve sua detenção provisória determinada até o dia 15 de fevereiro. Segundo observadores internacionais, a acusação seria apenas um pretexto para a detenção da Prêmio Nobel da Paz.

Na segunda-feira (1), o exército colocou fim à transição democrática do país, instaurando o estado de emergência por um ano e prendendo, além de Aung San Suu Kyi, outros líderes de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia.

Nesta quinta-feira, centenas de partidários das forças armadas se reuniram em Naypydaw, na capital, para apoiar o golpe instaurado pela Tatmadaw, nome do exército birmanês.

Profissionais da saúde também manifestam
Médicos e profissionais da saúde, que usavam fitas vermelhas em sinal de protesto, anunciaram que se recusariam a trabalhar, exceto em caso de emergência médica. “Obedeceremos apenas ao governo democraticamente eleito”, disse Aung San Min, diretor de um hospital com 100 leitos na região de Magway (centro).

Funcionários do hospital geral de Rangum se reuniram diante do edifício e fizeram a saudação com três dedos, um gesto de resistência adotado pelos ativistas pró-democracia de Hong Kong e Tailândia. Também foi criado um grupo chamado Movimento de Desobediência Civil no Facebook, que já tinha 150.000 inscritos. “O Exército deveria ter vergonha” e “Os militares são ladrões”, afirma página.

Líder pede para população não aceitar golpe
Suu Kyi pediu para a população não aceitar o golpe de Estado, em uma carta escrita antes de sua detenção. O ex-presidente Win Myint foi acusado de violar a lei sobre a gestão de desastres naturais, segundo o próprio ex-líder.

O medo de represálias é visível no país que viveu, desde sua independência, em 1948, sob o jugo da ditadura militar durante quase 50 anos.

As novas autoridades, que se comprometeram a organizar eleições dentro de um ano, já publicaram uma advertência contra qualquer discurso ou mensagem que possa “estimular distúrbios ou uma situação instável”.

O golpe de Estado, “inevitável” segundo o general Min Aung Hlaing, que agora concentra a maior parte dos poderes à frente de um gabinete integrado por generais, provocou uma chuva de condenações internacionais.

Depois de ameaçar com adoção de novas sanções, o governo dos Estados Unidos subiu o tom na terça-feira (2) contra Mianmar, no que virou o primeiro grande teste internacional para o novo presidente Joe Biden.

De acordo com uma fonte do governo americano, Aung San Suu Kyi e Win Myint “foram depostos em um golpe militar”, uma declaração oficial que bloqueia a ajuda direta ao Estado birmanês por parte de Washington, que se declarou “preocupado” nesta quarta-feira com a acusação de Suu Kyi.

“Pedimos ao exército que os liberte imediatamente”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, referindo-se a Suu Kyi e outros líderes presos.

A França defendeu que a União Europeia (UE) adote sanções, caso o estado de emergência não seja encerrado. O Exército birmanês já está sob sanções desde as atrocidades cometidas pelos militares em 2017 contra a minoria muçulmana rohingya e que levaram Mianmar a ser acusada de genocídio por investigadores da ONU.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse nesta quarta-feira que “faria tudo ao seu alcance” para que a comunidade internacional “exerça suficiente pressão” sobre Mianmar para garantir um “fracasso” do golpe de Estado.

Em entrevista ao jornal The Washington Post, Guterres considerou “absolutamente inaceitável mudar os resultados das eleições e a vontade do povo”.

Ele lamentou, ainda, que o Conselho de Segurança não tenha conseguido chegar a um acordo na terça sobre um texto contra Mianmar. As negociações continuam, informou à AFP um diplomata, que pediu anonimato.

China pede calma
Para ser aprovado, é necessário o apoio da China, que tem direito de veto. Mas Pequim continua sendo o principal respaldo de Mianmar na ONU. Durante a crise dos rohingyas, os chineses obstruíram todas as iniciativas nesta instituição por considerar o conflito um assunto interno birmanês.

Nesta quarta-feira (3), um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês pediu à comunidade internacional para “criar um ambiente saudável para que Mianmar possa resolver adequadamente suas diferenças”, considerando que qualquer intervenção do Conselho de Segurança deve “evitar o agravamento das tensões e complicar ainda mais a situação”, informou a agência de notícias Xinhua.

Os chanceleres do G7 se declararam “muito preocupados” com os acontecimentos, assim como o Fundo Monetário Internacional (FMI), que advertiu para o impacto na economia do país, já muito afetada pelo coronavírus (mais de 140.000 casos e 3.100 mortes).

Por RFI, com informações da AFP