França agora permite que funcionários almocem nas mesas de trabalho sem infringir as leis

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Muitos trabalhadores franceses agora podem comer em suas mesas sem infringir a lei.

Os hábitos alimentares são um bom guia para a França, e estão prestes a sofrer uma mudança radical. O Ministério do Trabalho informou que permitirá que os funcionários franceses comam o seu almoço na mesa de trabalho a fim de conter o avanço do coronavírus, uma prática antes proibida segundo pelo Código de Trabalho Francês.

Os hábitos alimentares franceses foram duramente postos à prova durante a pandemia. Um toque de recolher às 18h impede a paradinha antes do jantar na padaria ou no açougue, e o fechamento de todos os cafés e restaurantes inaugurou o hábito de levar comida para casa no esquema le click & collect – uma expressão inglesa que os franceses adotaram. Ou seja, um ato indigno após o outro.

Um porta-voz do Ministério do Trabalho anunciou que será divulgado um decreto visando limitar a exposição dos funcionários à covid-19. Até agora, as empresas estavam proibidas de “permitir que os funcionários fizessem as refeições em lugares destinados ao trabalho”.

O mais importante jornal econômico, Les Échos, publicou uma matéria sobre a nova medida em baixo da imagem chocante de uma mulher comendo uma salada de alface e tomates em um recipiente de plástico na frente do seu laptop. Um tímido sorriso no seu rosto sugeria que ela poderia até estar feliz.

Na charge mostrada pelo diário conservador Le Figaro, a mulher sentada à sua mesa parecia bem menos contente, com um telefone em uma mão, um garfo na outra e os olhos no monitor.

Até agora, toda empresa que permitia que os funcionários almoçassem no próprio escritório era multada quando descoberta pelos inspetores encarregados da aplicação do código. O funcionário em questão incorria ainda em uma ação disciplinar não especificada.

A proibição era coerente com a extrema regulamentação dos direitos dos trabalhadores consagrada no código elaborado no século 20, com base na premissa primitiva de que todo dono de empresa era um capitalista cruel que explorava a mão de obra – ou seja, obrigando-os a trabalhar nas horas da refeição.

Também refletia o forte apego francês à art de vivre do país, incompatível com a heresia de comer uma costeleta de cordeiro com batata sautée olhando uma planilha.

“Nós franceses e vocês americanos temos ideias totalmente diferentes a respeito do trabalho”, disse Agnès Dutin, tradutora aposentada, enquanto puxava um carrinho com as compras do mercado do domingo. “É uma catástrofe comer na mesa de trabalho. Você precisa de uma pausa para refrescar a mente. É bom mexer o corpo. Quando você retorna, vê as coisas de maneira diferente”.

Comer, na França, qualquer que seja o estrago causado pelo fast food, continua sendo uma experiência social, e não uma questão de mera alimentação. É uma reunião agradável à qual as pessoas dedicam grande parte da vida.

No país que deu ao mundo a semana de 35 horas, embora frequentemente desrespeitada, o hábito americano de almoçar na mesa de trabalho é considerado uma indicação sinistra de uma fraca compreensão da necessidade de equilibrar trabalho e vida.

“A gente só tem uma vida”, observou a tradutora.

As restrições impostas pela pandemia foram particularmente difíceis para os proprietários dos restaurantes. Alguns chegaram a sugerir que se deveria abrir desafiando a ordem do governo, o que levou o ministro da Economia francês, Bruno Le Maire, a advertir que esta insurreição seria punida com a perda da ajuda financeira do governo durante a pandemia.

A reformulação do código do trabalho para tornar a contratação e a demissão mais flexíveis na França, e em geral acabar com a regulamentação, tem sido um dos principais pontos do plano de governo de Emmanuel Macron. A mudança contribuiu para uma queda significativa do desemprego, que antes da sua posse andava por volta dos 10%.

Macron optou por não impor um terceiro fechamento apesar da persistente virulência da pandemia, mas o seu governo reforçou medidas para conter o vírus no local de trabalho – insistindo que as empresas favorecessem o trabalho remoto sempre que possível, os funcionários mantivessem pelo menos dois metros de distância uns dos outros, se tivessem de trabalhar no escritório, e agora permitindo que os funcionários comam em suas mesas de trabalho.

Não se sabe ao certo quantos franceses já fizeram isto. A globalização, ou apenas uma mera americanização, afeta a França também. No entanto, a decisão do Ministério do Trabalho é uma digressão.

“A cultura francesa é a cultura da mesa”, disse o português Paulo Santos, que se mudou para a França há oito anos. “As pessoas se reúnem ao seu redor e conversam sobre tudo e sobre nada. Isto é importante”.

Um vídeo satírico muito popular que está circulando mostra um grupo de turistas em visita a um “Museu do Restaurante” francês e olhando pasmos o guia que explica que, antes da covid-19, as pessoas se serviam sozinha do amendoim no balcão do bar – no mesmo recipiente – e sentavam uma diante da outra no jantar. Os turistas, falando em péssimo francês, abanavam a cabeça estupefatos.

Em um país de antigos hábitos, esta é uma época de mudanças preocupantes. Dutin observou que acha a resposta da França à pandemia excessiva e errática. Sua mãe morreu de covid-19 no ano passado aos 88 anos. Olhando nos seus papéis, ela encontrou suas notas da escola nos anos 1940, e descreve a instrução dada pelos professores para combater a tuberculose – jamais beber no mesmo copo de outra pessoa, por exemplo.

“Naquela época, em que a ciência era muito menos avançada, essa era a doença mais grave”, afirmou. “Agora, o medo está em toda parte. A gente nasce para morrer. Um dia ou outro, de uma coisa ou de outra. Estamos vivendo uma aberração”.

Mais de 2,2 milhões de pessoas na França receberam sua primeira injeção de vacina e cerca de 650 mil foram totalmente vacinadas.