Errico Malatesta: “É a riqueza, estupido!”

“Vocês que fazem parte dessa massa/Que passa dos projetos do futuro/É duro tanto ter que caminhar/E dar muito mais do que receber” (Admirável Gado Novo – Zé Ramalho)

Errico Malatesta*

Há um verdadeiro paradoxo nesta pandemia, ou para ser mais objetivo, como pode que os mais ricos fiquem cada vez mais ricos e os miseráveis e os pobres, ainda mais miseráveis e mais pobres? Vejam só, as fortunas dos mais abastados deram um salto em 2020, em suma, as 2.189 pessoas mais ricas do mundo lucraram e bateram o recorde acumulado de US$ 10 trilhões. Esses bilionários têm uma riqueza maior do que 4,6 bilhões de pessoas, aproximadamente 60% da população global.

Mais alguns números: os EUA detêm 30% da riqueza do mundo, um total de US$ 105,99 trilhões. Em seguida vem a China com US$ 63,83 trilhões (17,7%) e o Japão com US$ 24,99 trilhões (6,93%). O Brasil, com US$ 3,54 trilhões, lidera com folga na América Latina. A riqueza do país é maior do que a do México, por exemplo, de US$ 2,7 trilhões. O PIB do Paraná atingiu R$ 376,9 bilhões.

Há alguma coisa fora da ordem, fora da nova ordem mundial. O Capital no Século 21, documentário baseado no livro do economista francês Thomas Piketty, aponta para um quadro catastrófico para a maioria da população quando analisa o crescimento da desigualdade em 400 anos de capitalismo. A riqueza está mais concentrada em um grupo de famílias e lembra muito a economia dos séculos 18 e 19. 

A estupefação estoura qualquer sentido de sensatez perante outros números. Segundo a ONU, mais de 65 milhões de pessoas procuram asilo, são deslocadas internamente ou são refugiadas. Metade dos refugiados do mundo são crianças menores de 18 anos. A duração média de exílio de um refugiado é de cerca de 20 anos.

No ano passado, 115 milhões de pessoas foram empurradas à pobreza, número que pode crescer a 150 milhões em 2021. Quatrocentas mil crianças africanas estão impedidas de ter acesso à escola. Os números são do Banco Mundial.   

Os números levantados pelo Banco Mundial continuam: oito milhões de pessoas morrem por ano no mundo em consequência da miséria. Mortes provocadas pela fome e por doenças como malária, tuberculose, diarreia e aids. Na África, uma criança morre a cada dez segundos em consequência da pobreza extrema. 

Bem, África é África, diriam os mais preconceituosos ou xenofóbicos. Vamos aos números do Brasil. Dados do IBGE mostram que o país tem 25,3% da população na condição de pobreza – 52,5 milhões de pessoas e outros 6,5%, o equivalente a 13,5 milhões de pessoas estão na linha de extrema pobreza.

O pior disso tudo, e coloca pior nisso, é que a metade da população do planeta já não produz e se tornou um fardo para o erodido estado de bem estar social. O escritor Ailton Krenak diz que a pandemia é um ensaio sobre a morte e chama a atual situação como um programa do necropolítica. “A desigualdade deixa fora da proteção social 70% da população. E, no futuro, não precisará dela sequer como força de trabalho”.

Uma das alternativas que cresce no mundo inteiro é a taxação das grandes fortunas. Recentemente, o Senado argentino aprovou um imposto que incidirá sobre patrimônios acima de 200 milhões de pesos (R$ 12,5 milhões) com previsão de atingir entre 9 mil e 12 mil contribuintes. Chile, Reino Unido e até os estados americanos da Califórnia e Washington estudam a proposta.

O economista Jeffrey Sachs sustenta que é possível acabar com as desigualdades econômicas que levam à pobreza. Para isso basta que as grandes potências, em vez de destinarem 1/4 de seus orçamentos para a indústria bélica, invistam da mesma forma em programas assistenciais e de desenvolvimento. O governo americano, por exemplo, gasta apenas 1% de seu orçamento com ajuda internacional e 25% em atividades militares.

Dom Hélder Câmara dizia uma máxima emblemática. “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”. De que lado você está?

*Errico Malatesta é jornalista