Enio Verri: Alguém permite o avanço de Bolsonaro

Enio Verri*

É estarrecedor o muxoxo das instituições diante do genocídio programado pelo governo Bolsonaro. Quem deveria impedir que o presidente mate grande parte da população de doença e de fome faz cobranças superficiais e pedidos de explicação do inexplicável. Enquanto o governo rejeitava 160 milhões de doses de vacinas, oferecia medicamentos ineficazes contra a COVID-19. No início de fevereiro, a Procuradoria Geral da República instaurou uma apuração preliminar para saber se Bolsonaro e Pazuello têm responsabilidade nas crises do Amazonas e do Pará. Isso, depois de tudo que eles fizeram e dos incontestes números de mortos. A distopia brasileira revela, além de muita dor, a desconexão dos órgãos de fiscalização e controle com a realidade. A impressão é a de que eles estão instalados em outro planeta.

Todavia, a perversidade, um dos princípios do governo, é infinita com os pobres. Há mais de 50 dias, Bolsonaro suspendeu o pagamento do auxílio emergencial, de R$ 600, que ele já havia reduzido para R$ 300, em outubro. São quase 30 milhões de brasileiros sem saber o que fazer, uma que vez que eles estão desempregados ou subutilizados. A pandemia e a fome avançam, assim como uma inflação artificial e criminosa. Os pobres estão cada vez mais distantes de uma alimentação minimamente decente e sem condição alguma de se protegerem da COVID-19. Há um genocídio em curso e é como se o governo não tivesse nada a ver com isso. É incrível que a PGR não tenha, ainda, se insurgido contra um governo ostensivamente temerário, uma vez que ela sabe, também, que há recursos para combater a pandemia, pagar o auxílio emergencial.

Tanto as reservas internacionais, quanto o rendimento de suas aplicações, bem como a conta única do Tesouro Nacional e a sobra de caixa dos bancos são fontes que, somadas, oferecem R$ 5 trilhões para o governo agir. Mas, segundo Bolsonaro, “o país está quebrado”. É uma mentira pródiga de desumanidade. O Brasil tem um presidente covarde, que expõe a vida dos brasileiros aos humores do mercado financeiro. Para manter o discurso de austeridade no ar, a imprensa comercial, que é a voz dos banqueiros, alardeia que a dívida pública representa 89% do Produto Interno Bruto. Isso não é o fim do mudo e deveria ser a menor das preocupações de um estadista que coloca o povo em primeiro lugar e não os bancos. Seria demais encontrar em nele essa condição. Bolsonaro tenta reduzir o Brasil ao que ele e o seu governo são, párias.

A relação dívida/PIB da França é de 116% e a do Japão, 269%. Contudo, para os governos dos respectivos países, vidas são muito mais importantes que a dívida. Para governo brasileiro, nenhuma crueldade é tão grande que não se possa aumentar. Bolsonaro e o ministro da Economia dos banqueiros, o saqueador Paulo Guedes, vão condicionar a retomada do auxílio emergencial a uma série de medidas que vão precarizar ainda mais as condições de trabalho, privatizar o patrimônio brasileiro, e submeter o Estado às decisões do mercado financeiro. O presidente conduz com maestria um ambicioso plano de fazer da então 6ª economia do mundo um grande celeiro para abastecimento e desenvolvimento de outros povos. A inação das instituições e de parte de lideranças políticas as compromete com um genocida que projetou o Brasil como o país que pior enfrentou a pandemia, com número de mortos e de contaminados que não param de aumentar.

Dia a dia, a rejeição a Bolsonaro cresce e, hoje, já passa dos 50%. A pandemia não permite passeatas que inundariam as ruas de indignação com a bestial condução do Brasil a um lodaçal que não o acabe, senão apenas o presidente. É preciso reagir e as carreatas já são um bom sinal do que aguarda esse governo. As pautas estão unificadas, vacinação, auxílio emergencial e impeachment de um impostor que está, inacreditavelmente, matando esta nação tão importante. Porém, não basta. É fundamental cobrar e expor a cara de paisagem dos órgãos de fiscalização e de lideranças políticas diante da realidade. Se não é conivência com o banditismo institucionalizado, então é prevaricação. Isso só é possível de acontecer quando quem existe para demonstrar que ninguém está acima da lei, permite que Bolsonaro esteja.

*Enio Verri é economista, professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores do Paraná.