O governo, que já devastou nosso presente, trata de nos negar a chance de futuro

É preciso identificar o inimigo principal, por Roberto Amaral

“Como tenho dito, a questão que nos atormenta e ameaça é se os atuais núcleos dirigentes e lideranças das esquerdas estarão à altura do desafio de se auto-reformar. Ou serão varridos da história por novas lideranças e organizações partidárias.” (José Dirceu)

Roberto Amaral*

Pode assustar, mas o fato objetivo é que ainda estamos longe do fundo do poço: muito ainda será cavado pelo regime governante até o esgarçamento social, que ditará novos rumos à República. O que aguarda as forças progressistas brasileiras é ainda muita luta, muita capacidade de diálogo e rara capacidade de ampliar suas fileiras, compondo na ação, sem submergir ideologicamente. Mas as circunstâncias cobram-lhes, acima de tudo, a recuperação do dever de agir, mesmo correndo riscos. E agir com engenho e arte, renovando-se e descobrindo novos meios e novos caminhos para o reencontro com as grandes massas, diante das quais parecem divorciadas.

Em face do processo em curso e do que podemos antever, o quadro deprimente das eleições das mesas das duas casas do congresso nacional, para o qual tanto contribuiu a miopia da esquerda parlamentar, logo será ultrapassado e novos desafios, muito mais sérios, serão colocados. É quando se apresenta a questão suscitada pela epígrafe: estaremos então (nossos partidos, nossas organizações, o movimento sindical e o movimento social de um modo geral, nossas lideranças) preparados para o desafio? A resposta pede de todos, dos dirigentes e dos militantes, o simples exercício da auto-avaliação.

Para intervir no processo precisamos, antes de mais nada, de compreender o caráter do regime que temos de enfrentar, sabendo que o eixo da nova ordem não gira em torno do capitão, bufão de teatro de marionetas, cujos cordéis são manipulados pelos agentes do poder econômico em aliança com a caserna. É que estamos em face da mais poderosa arquitetura de poder da direita brasileira em toda a nossa história, possivelmente ainda mais radical (pela desconstrução do país, do Estado e da nação) e ainda mais perdurante, pelas suas sequelas, do que a ditadura instalada em 1964. Ditadura que, oficialmente encerrada em 1985, sobrevive como espantalho ideológico que anima a caserna, o empresariado, e mesmo, hoje, setores significativos de nossa população, como estão a indicar os índices de aprovação festejados pelo mais iníquo dos governos brasileiros de que se tem registro, neles computando mesmo as tristes lembranças do grotesco general Hermes da Fonseca (cuja inépcia só é comparável à do general Pazuello) e o esquecido general Figueiredo, o ditador que saiu pela portas dos fundos do palácio do Planalto.

Há diferenças notáveis, sem dúvida, e as festejemos enquanto pudermos, como a ausência da repressão militar, ainda desnecessária, pois é mínima a resistência ao projeto neoliberal-autoritário. Mas tudo isso, tanto as franquias democráticas (pelas quais não se interessa a classe dominante brasileira) como as garantias constitucionais, que preocupa os liberais, é removível, segundo a força das conveniências. Como disse um dos Bolsonaros, bastam um cabo e um soldado para fechar o STF. O que não se faz necessário, por enquanto, pois as instituições colaboram, como instrumentos da ordem. Ao seu tempo a ditadura teve de aumentar o número de ministros do STF para assegurar-se de maioria; hoje, nem disso necessitam os fardados, pois a mais alta corte cumpre com sua parte desde que, atendendo ao ultimato do general Villas Bôas, impediu a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, abrindo caminho para a corrida do capitão, cuja cultura e proficiência desmoralizam o ensino oferecido pelas academias militares. Mas, por via das dúvidas, o Planalto vai abastecendo as Cortes com sequazes escolhidos a dedo, na medida em que antigos ministros se aposentam. Neste ofício, por sinal, não cometerá os enganos de Lula e Dilma, que entraram e saíram do governo sem compreender a importância da seleção criteriosa de procuradores da república e ministros dos tribunais superiores, com os resultados conhecidos

O regime civil-militar de nossos dias tem, sobre sua matriz, a ditadura de 1964-1985, o predicado de que, embora apoiado pela espada, foi ungido em eleições regulares, o que lhe empresta considerável dose de legitimidade, aquela que antes os militares buscavam em um congresso castrado, ao qual atribuíam a tarefa cartorial de homologar, para a presidência da república, o general escolhido pelo alto comando do exército. Cumpria-se o formalismo jurídico que encanta os liberais de carteirinha, e a vida nacional seguia: as instituições, por assim dizer, funcionavam. E de fato as instituições funcionavam e continuam funcionando, agora como sempre, isto é, a serviço da ordem, aquela que emana da casa-grande, o 1% de nossa elite branca e rica, alienada dos interesses nacionais. Não há estorvo, mas colaboração.

O novo regime conta com o apoio da grande imprensa, que, desancando o presidente caricato, fecha fileiras na defesa do que é fundamental para o establishment, a saber, a política econômica com seu alto nível de concentração de riqueza e renda e as privatizações a preço de banana, na linha da privataria dos tempos de FHC. É o ponto de convergência de todas as forças conservadoras. Foi o programa econômico apresentado por Guedes que encantou o mercado, e é em sua defesa que o grande capital (de que a grande imprensa é mero porta-voz) se articula, cobrando mais desregulamentação, mais privatizações, mais restrições de gastos, mais arrocho salarial. Este é o cerne da questão: cuidar tão-só do capitão e suas asneiras programadas, é cuidar da aparência, uma ilusão que o sistema põe no palco para nos desviar da ação dos atores principais.

Sem olhos para ver o que precisa ser visto, a oposição ficou sem discurso para denunciar a fraude do ilusionista, e se omitiu na denúncia das causas fundamentais de nossa crise: o capitalismo degenerado de nossos dias, que os Guedes da vida, com o apoio dos fardados, estão levando às últimas consequências, em meio a uma pandemia criminosamente administrada, aceleradora da recessão, do desemprego e da fome. Ou seja, perdemos a batalha ideológica, por havermos nos omitido ao embate, apostando uma vez mais numa conciliação com a classe dominante que nunca deu certo em nossa história. Se abandonamos o discurso – a denúncia do capitalismo e a defesa do socialismo –, abandonamos igualmente, e por via de consequência, os trabalhos de organização e proselitismo, de educação das massas e com as massas. Não soubemos ocupar os espaços das redes sociais e desertamos dos bairros, das periferias e dos territórios, mas eles não ficaram vazios, pois foram ocupados pelo discurso e pela ação da direita, pela evangelização conservadora, pelo reacionarismo destilado 24 horas por dia pelos aparelhos ideológicos do Estado e pela grande imprensa. O resto é mera consequência. Ainda hoje temos dificuldade para responder aos anseios dos segmentos sociais que pretendemos representar e encontrar formas de organização compatíveis com os desafios dos tempos presentes: ou seguimos, em nossas estruturas partidárias, sindicais e sociais a ditadura da ordem jurídica imposta pela classe dominante, ou simplesmente repetimos as lições de velhos manuais mal traduzidos.

O primeiro passo para a retomada do bonde da história é a revisão crítica: passar a limpo nossa trajetória recente. Sem medos, sem tabus, sem auto-condescendência. A análise crítica é sempre criadora, pois indica saídas para os transtornos. E ao contrário, quem não identifica seus próprios erros, é condenado a repeti-los.

O desconhecimento da realidade torna mais difícil nela intervir com consequência. Quando supõe avançar, a esquerda desavisada corre o risco de simplesmente ser contaminada pela narrativa da direita, pois quem não domina sua própria estratégia está condenado a repetir a estratégia do inimigo, quem não constrói seu próprio discurso está condenado a reproduzir o discurso do adversário. No plano puramente tático, setores da direita em dissenso com o capitão chegam mesmo a admitir sua eventual substituição, para preservar o essencial, a política econômica. Isso confunde os menos avisados, como igualmente confunde a postura da imprensa que fustiga o capitão e saúda com louvaminhas a política econômica. Ora, nada temos com esse projeto. Quando dizemos “Fora, Bolsonaro” estamos dizendo também que não basta trocar Manuel por Joaquim, não basta mandar Bolsonaro para casa ou para a cadeia. Cabe derrotar politicamente as forças que o patrocinam, entre elas os militares, mas, fundamentalmente, revogar a atual política econômica, anti-povo e anti-nação, desalojar do poder as forças do atraso que impedem o desenvolvimento do país e aprofundam a dominação de classe. O não ao bolsonarismo só ganha sentido histórico com a apresentação (uma demanda para a esquerda) de uma plataforma que aponte para uma sociedade radicalmente democrática e socialista. O “Fora, Bolsonaro” só tem sentido como o outro lado da denúncia da sociedade de classes hegemonizada pelo capital financeiro nacional-internacional; não se trata de trocar seis por meia dúzia, mas de abrir caminho para a construção de uma sociedade sem classes, humanista, nacionalista, feminista, ambientalista, laica, livre de preconceitos, comprometida com a construção de uma comunidade de nações livres. O desafio atual da esquerda é recuperar a esperança perdida pelas grandes massas.

*Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia