Aprovação de Fernández dispara na Argentina, diz pesquisa; em viés de baixa, Bolsonaro fica com ciúmes

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O presidente brasileiro Jair Bolsonaro tem motivos de sobra para ficar com ciúmes de seu colega argentina, o presidente Alberto Fernández, que atingiu 58% de aprovação em uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (15).

Fernández não só tem aprovação positiva na administração como também é bem avaliado na condução dos argentinos na travessia da pandemia.

Já o presidente Bolsonaro amarga quedas sucessivas em sua aprovação, abaixo dos 30%, e é amplamente reprovado pelos brasileiros por seu negacionismo frente às vacinas e a pandemia.

Segundo o levantamento publicado pelo jornal Página 12, mais da metade dos argentinos pensa bem ou muito bem na gestão de Alberto Fernández como presidente, um dos melhores indicadores de aprovação internacional. Os dados são mais do que relevantes se levarmos em conta o legado deixado pelo macrismo, a pandemia do coronavírus e o bombardeio incessante de oposicionistas e a mídia alinhada ao ex-presidente Mauricio Macri. Mas, além disso, há um forte apoio para o que tem sido feito diante do coronavírus e, por exemplo, sete em cada dez pessoas apreciam muito a gestão do governo para garantir a chegada das vacinas. Três em cada quatro argentinos argumentam que o crescimento dos casos ocorre “porque as pessoas não respeitam os protocolos” e percebe-se que a batalha pela vacinação não será fácil porque quase metade das pessoas apresenta algum tipo de resistência, embora uma parte substancial afirma que quer ver o efeito das vacinas e então vai decidir.

Três em cada quatro argentinos afirmam que o crescimento dos casos ocorre “porque as pessoas não respeitam os protocolos”.

As conclusões vêm de uma ampla pesquisa nacional realizada pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP), liderada pelo sociólogo Roberto Bacman. No total, foram entrevistadas 1.100 pessoas de todo o país, respeitadas as proporções de idade, sexo e nível econômico-social. As pesquisas foram feitas por telefone.

“A imagem de Alberto Fernández vem se recuperando desde o final do ano passado”, diz Bacman. Até hoje ronda os pesos positivos de 58 por cento. Nestes tempos, onde abundam os desafios e as incertezas, ter um certo perfil de proximidade, honestidade e capacidade de resolução de problemas como a pandemia, não é uma questão menor. Este valor de imagem positiva torna-se um indicador importante para um Presidente, especialmente levando em consideração o contexto que existe no mundo e particularmente em nosso país: uma pandemia que se tornou um flagelo global que tem perturbado a economia dos países e o cotidiano de seus. habitantes”.

Pesquisa mostra aprovação de Alberto Fernandez subindo entre argentinos.

Para Bacman, “em nosso país a economia é percebida como um problema com maior intensidade do que covid-19: Alberto Fernández venceu as eleições de 2019 ao se comprometer a acender a economia, após quatro anos de política macroeconômica que gerou dívida pública e enorme setor privado. A pandemia, desencadeada quando seu governo ainda nem havia completado os primeiros 100 dias, interrompeu seus planos e projetos e a partir de então o país ficou diferente. Por isso, claro, existe uma demanda forte relacionada à economia”. A maioria dos consultados afirma que o governo deve focar nisso: inflação, salários, emprego, produção, enfim, todas as questões econômicas.

No geral, os números de aprovação de Fernández são ainda melhores quando se trata de controlar a pandemia. “Apesar das campanhas de ódio e das notícias falsas que inundaram a mídia e o universo digital de nosso país, o presidente mantém uma imagem que arremata um valor muito importante quando pergunta sobre as medidas que foram tomadas contra o coronavírus”, diz o chefe do o Ceop.

Mas também se sabe que ainda há um caminho a percorrer. Bacman sintetiza assim: “as pessoas admitem que não se trata apenas de limites e controles extremos do governo, mas que existe o problema do não cumprimento dos protocolos. Nada menos que três em cada quatro pessoas consideram que a rebrota vem porque há uma maioria de argentinos que, por cansaço, relaxamento ou sabe-se lá por quê, não cumprem o que é necessário e esse é o perigo”.

As próximas semanas são cruciais para vários fatores. Em primeiro lugar, porque as vacinas chegam em grandes quantidades, é preciso iniciar o processo de vacinação, começar as aulas e porque todas as medidas precisam ser aceleradas para atingir o maior número de argentinos imunizados antes que chegue o frio. Como se sabe, o inverno por si só não aumenta as infecções, mas as pessoas ficam mais dentro de casa e isso multiplica os casos, como se vê na Europa.

Diante deste desafio, o Governo encontra uma situação que não é simples: há dez por cento de antivacinas diretas, mas há uma proporção de cidadãos que querem esperar. Essa resistência existe em muitos países e certamente será quebrada.

“Um plano de vacinação massivo e bem-sucedido é uma necessidade fortemente internalizada no imaginário coletivo”, disse Bacman. As vacinas estão chegando e outras chegarão nas próximas semanas. A esperança começa a ganhar corpo e até mitos são demolidos: a publicação na revista científica The Lancet derrubou definitivamente o preconceito sobre o Sputnik V.

Os dados falam por si: quatro em cada dez entrevistados aplicariam qualquer vacina, obviamente incluindo a de origem russa e até a dos chineses.

Outra proporção, ligeiramente inferior em percentual, ainda tem dúvidas. Eles representam um segmento que se orienta pelo pragmático e esses cidadãos esperam ver resultados.

É certo que, com o passar dos dias e o plano de vacinação crescer em intensidade, qualidade e quantidade, vão se convencendo de que é o único caminho possível. Mas também são marginais, o que sempre existe: seis por cento dizem que só seriam aplicadas vacinas de origem americana ou inglesa e até 11 por cento que representam um pequeno setor da sociedade caracterizado por sua postura anti-vacinal”.

Seis por cento dizem que só aplicariam vacinas de origem americana ou inglesa e até 11 por cento, o que representa um pequeno setor da sociedade caracterizado por sua postura anti-vacinal.

Além do clima criado pela mídia alinhada a Cambiemos, há uma proporção muito importante de argentinos que têm boas expectativas: 57% dizem que, em casa, as coisas vão melhorar nos próximos anos. Esses dados são de extrema importância em um mundo em que o otimismo é escasso, mesmo que moderado.

Página 12, com modificações.