Milton Alves: ‘Frente Ampla é uma via para anular o protagonismo político da esquerda’

Por Milton Alves*

Os recentes acontecimentos políticos nos Estados Unidos, e o apoio por estreita margem de votos [27×23] da bancada de deputados do Partido dos Trabalhadores (PT) ao parlamentar golpista Baleia Rossi (MDB-SP) para a presidência da Câmara, animaram os defensores da tese da Frente Ampla, como se essa fosse a única via válida para derrotar o governo autoritário e neoliberal do presidente Jair Bolsonaro.

Neste início de 2021 o debate sobre a tática mais adequada para derrotar o bolsonarismo voltou à baila novamente entre as forças de esquerda.

No geral, dois caminhos são preconizados. Uma posição coloca o acento na centralidade da luta contra o autoritarismo do governo Bolsonaro como eixo de aglutinação de forças, agitando o espantalho do monstrengo neofascista. Essa posição defende a constituição de uma “frente ampla”, que ultrapasse as forças de esquerda, reunindo partidos e lideranças consideradas de centro e de direita no atual espectro político. Formações partidárias como o PDT, PCdoB e PSB defendem a tese da “frente ampla’, um bloco político que abarca desde o governador João Doria (PSDB), Rodrigo Maia (DEM), o apresentador da Globo Luciano Huck, MDB, PSDB e até os bolsonaristas arrependidos.

O passaporte para ingressar no território da “frente ampla” é a defesa da democracia no geral, sem a exigência de um programa de ruptura na economia e no restabelecimento dos direitos sociais retirados pelo golpe de 2016. Além de uma velada operação de setores da própria esquerda e de grupos da mídia empresarial de cancelamento político do ex-presidente Lula. Ou seja, uma frente de teto rebaixado, que levaria a esquerda a defender uma agenda aquém das necessidades impostas pela gravidade da crise institucional, econômica e sanitária em curso. É, na prática, marchar a reboque das velhas forças políticas da direita tradicional, que sonham em encontrar uma espécie de Biden brazuca até 2022.

Por sua vez, os defensores da frente de esquerda entendem que somente um enfrentamento decidido ao conjunto do projeto neoliberal, que conta com o apoio do governo bolsonarista e também da velha direita, será capaz de derrotar os intentos de fechamento do regime e o desmonte do estado nacional.

A necessidade da construção do bloco democrático-popular, com um projeto alternativo de governo em contraposição ao projeto do bolsonarismo e dos velhos partidos da direita, é uma tarefa irrecusável, inadiável. Um projeto político com nitidez para disputar os rumos do país, sem as velhas alianças e cedências programáticas aos partidos das classes dominantes.

A defesa consequente da democracia é inseparável da derrota do projeto neoliberal, esta é uma questão estruturante e definidora para a ação política das forças de esquerda. Portanto, realizar uma “frente” nas atuais circunstâncias com quem não reconhece a centralidade do combate à regressão neoliberal, é um erro que terá um alto custo político e eleitoral – e abre uma via para anular o protagonismo da esquerda e dos trabalhadores.

A decisão dos partidos de esquerda e centro esquerda, em especial do PT, de apoiar já no 1º turno a eleição do deputado Baleia Rossi, afilhado político de Michel Temer, desarma e confunde politicamente o eleitorado do campo popular e assegura indevidos créditos democráticos para as forças patrocinadoras do golpe de 2016 contra o mandato da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT).

Um passo em falso, que retira o protagonismo político da esquerda e joga a disputa para ser travada apenas no âmbito do parlamento controlado pelas forças das direitas – bolsonarista e neoliberal.

*Milton Alves é ativista político e social. Autor dos livros ‘A Política Além da Notícia e a Guerra Declarada Contra Lula e o PT’ (2019) e ‘A Saída é pela Esquerda’ (2020), ambos pela Kotter Editorial.