Le Monde relata o caos em que se transformou Manaus

A edição do jornal Le Monde desta terça-feira (19) traz uma reportagem sobre a crise sanitária em Manaus, no norte do Brasil. O correspondente Bruno Meyerfeld escreve que a maior cidade da Amazônia é atingida por uma segunda onda brutal de coronavírus e enfrenta falta de oxigênio, o que, segundo o texto, “põe em risco a vida de milhares de pacientes”.

“Foi um caos, um absurdo, surreal”, conta a médica Gabriela Oliveira, ouvida pela reportagem num dos maiores hospitais de Manaus. O jornal cita que apenas no dia 14 de janeiro, 2.516 novos casos de Covid-19 foram diagnosticados na cidade, 800 a mais do que no pior momento da epidemia, em maio de 2020.

Mais de 93% dos leitos de terapia intensiva estão ocupados, enquanto o número de mortes varia entre 50 a 60 por dia, número comparável aos registrados 8 meses atrás. Ainda de acordo com o Le Monde, as enfermarias e os corredores dos hospitais estão cheios, enquanto novos doentes não param de chegar, a maioria com deficiência respiratória.

“Nós nos sentimos desarmados”, desabafaram certos médicos, sem conter as lágrimas, logo após as primeiras mortes. “Eles precisavam da única coisa que não tínhamos: oxigênio”, conta uma profissional de saúde, obrigada a injetar morfina em alguns pacientes “para tranquilizá-los e para que se sintam menos angustiados pela sufocação”.

Na “capital mundial da pandemia”, como Manaus tem sido chamada por alguns veículos de imprensa, 4.000 pessoas morreram de Covid-19 desde o início do surto. O jornal francês destaca que a taxa de mortalidade é de 181 por 100.000 habitantes, quase o dobro da média nacional (99 por 100.000 habitantes).

Mercado negro de oxigênio
“Nessa região tropical, cilindros de oxigênio valem ouro”, escreve o correspondente do Le Monde, acrescentando que a carência fez nascer “um lucrativo mercado negro”. A polícia “apreedeu um caminhão com 33 cilindros de oxigênio”, cita a reportagem, no momento em que a necessidade pelo produto aumentou 150% em comparação ao pico da epidemia, em 2020.

“Nossa região produz grande quantida de oxigênio [graças à floresta], mas hoje é a nossa população que precisa de oxigênio”, declarou o governador do Amazonas, Wilson Lima.

Para o ministro da Saúde brasileiro, Eduardo Pazuello, a principal responsável pelo drama em Manaus é a “meteorologia”, cita o jornal. “Num período de chuvas, a umidade se torna muito elevada e começamos a ter complicações respiratórias”, disse Pazuello, citado pelo Le Monde.

O Exército foi finalmente mobilizado para uma “operação oxigênio”, a fim de transportar os cilindros aos hospitais de Manaus e para transferir pacientes graves para outras unidades do país, uma estratégia complicada, segundo a reportagem, em razão do isolamento de Manaus na região de floresta.

Nos hospitais da capital amazonense, os médicos relatam “que o vírus se tornou mais agressivo e que cada vez mais pacientes jovens de 18 a 30 anos, sem comorbidades, desenvolvem formas graves da doença”. Além disso, “as internações são mais longas, duram às vezes um mês, bem mais do que catorze dias”, explica a médica Gabriela Oliveira.

Por RFI