3M fecha fábrica e confirma a depressão econômica promovida por Bolsonaro e Guedes

A depressão econômica promovida pelo presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez mais uma vítima esta semana: a 3M do Brasil, que também cerrou as portas, duas semanas depois de a Ford anunciar que deixaria o País.

A falta de massa salarial, ocasionada pelo desemprego, leva à superprodução e ausência de compradores dos produtos. Esta é face mais visível da depressão econômica, que foi acelerada com a pandemia, mas ela já estava sendo em gestão pelo governo.

O quadro de depressão econômica não tem sem chance de recuperação nos marcos do bolsonarismo e do neoliberalismo, diga-se para o bem da verdade.

A 3M anunciou o encerramento das atividades de fábrica em São José do Rio Preto (SP), demitindo 120 funcionários e engrossando a lista das corporações que aos poucos deixam o País. O ex-ministro Nelson Barbosa lembra que desde 2016, quando houve o golpe, o governo federal optou pela extinção de vários programas de diversificação produtiva.

A Minnesota Manufatureira Mercantil (3M do Brasil) anunciou para o segundo trimestre de 2021 o encerramento das atividades da fábrica dedicada à produção de insumos para o segmento odontológico em São José do Rio Preto (SP). Com a medida, 120 funcionários serão demitidos.

O comunicado da 3M afirma que “a decisão é resultado de uma estratégia de negócios”, e que os trabalhadores dispensados “estão recebendo apoio da empresa, incluindo um pacote de indenização, benefícios e treinamento para recolocação no mercado”.

Sediada no estado de Minnesota (EUA), a 3M iniciou as operações no Brasil em Campinas (SP), em 1946. Hoje, a administração e também o maior parque fabril se localizam em Sumaré (SP), que agora concentrará a Divisão de Produtos Odontológicos. A empresa tem cerca de quatro mil funcionários no Brasil. Outras fábricas estão situadas em Ribeirão Preto, Itapetininga, Mairinque (SP), Manaus e Bom Princípio (RS).

Entre as maiores fabricantes mundiais de equipamentos de proteção individual (EPI) utilizados por profissionais da saúde, a 3M esteve no centro de uma das primeiras crises geradas pela maléfica atuação do desgoverno Bolsonaro no combate à pandemia do coronavírus, em abril passado.

Na ocasião, o então ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta negociou a compra de todas as máscaras produzidas no Brasil pela 3M, após Donald Trump ameaçar embargar a produção de equipamentos da empresa nos Estados Unidos e impedir a exportação.

Com essa decisão, a 3M se junta à lista de corporações transnacionais que desde 2019 encerram, em parte ou totalmente, suas atividades no país de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Além da Nestlé e da Duratex, uma das primeiras a adotar a medida naquele ano foi a Ford do Brasil, que em outubro fechou as portas em São Bernardo do Campo (SP).

Em 11 de janeiro, a Ford anunciou o fechamento imediato das fábricas de Camaçari (BA) e Taubaté (SP), e outra em Horizonte (CE), no último trimestre. Deixará cinco mil trabalhadores desempregados, além dos que fazem parte da cadeia de suprimentos.

Em setembro do ano passado, a Sony do Brasil, em Manaus desde 1972, anunciou o encerramento das atividades para março. Em nota a varejistas, a empresa informou que o encerramento das atividades na Zona Franca ocorreu “considerando o ambiente recente de mercado e a tendência esperada para os negócios”.

A produção de TVs, equipamentos de áudio e câmeras fotográficas será interrompida, e somente um escritório deverá ser mantido para negócios com o Play Station. A multinacional japonesa não foi a primeira a deixar a Zona Franca. Sharp, Philips e Gradiente, que tinha decidido retornar a Manaus, já haviam feito o mesmo.

“Isso se dá, no nosso entendimento, por dois fatores: a concorrência com as coreanas e chinesas, que não é fácil, e a instabilidade que continua pairando no país, a instabilidade política e a insegurança jurídica”, disse Wilson Périco, presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), quando a medida da Sony foi anunciada.

“Tem uma outra questão que nos preocupa e muito: a insistência da equipe econômica do governo federal em promover uma redução dos impostos de importação de produtos. Nesse segmento e no polo de duas rodas nós não temos indústrias nacionais. Nós temos grandes multinacionais instaladas no Brasil, gerando empregos para brasileiros”, afirmou o empresário.

Mercedes critica instabilidade e falta de planejamento

Em dezembro passado, a fabricante alemã Mercedes-Benz deu seguimento ao bota-fora anunciando o encerramento da fábrica situada em Iracemápolis (SP). A medida deixará na rua 370 trabalhadores, nesta segunda retirada do Brasil – a montadora já havia operado em Juiz de Fora (MG), onde produziu os modelos Classe A e CLC.

Em junho, Philipp Schiemer, ex-presidente da filial brasileira da Mercedes, alertara para a perda de credibilidade do Brasil, principalmente na atração de capital. “ China e Índia, por exemplo, são países muito mais atraentes”, comparou o alemão, para quem a corrida tecnológica por veículos elétricos e com maior capacidade de oferecer funções digitais exigirá um alto grau de investimento.

“O dinheiro vai ser cada vez mais escasso. Os investimentos só irão para países que tenham uma certa estabilidade e capacidade de planejamento”, definiu o executivo. “Nesse sentido, o Brasil ainda tem que fazer mais lição de casa.”

No ramo da moda, a rede Forever 21, ícone da fast fashion (moda rápida) no mundo, está fechando 11 de suas lojas na rede carioca de shopping centers Multiplan. O processo será concluído em fevereiro. A Forever está em recuperação judicial nos Estados Unidos desde fins de 2019. No Brasil, a rede varejista atua desde 2014.

Outra multinacional com sede nos Estados Unidos e, por coincidência, também do Minnesota, a General Mills anunciou em 11 de janeiro que vai encerrar as atividades na fábrica de Nova Prata, na serra gaúcha, demitindo 300 funcionários. Responsável pela marca Yoki, a empresa afirmou em nota que o processo faz parte de um “plano de reestruturação em parte das suas operações no país”.

Até a CBC Taurus, uma das principais fabricantes de armas leves do mundo, anunciou em maio do ano passado que iria transferir uma das linhas de produção da pistola TS9-Striker da sua matriz em São Leopoldo (RS) para a unidade na cidade de Bainbridge, nos Estados Unidos.

A empresa afirmou, em nota, que “não haverá demissões” na planta gaúcha. Em compensação, exportou empregos: o valor de produção transferido para o exterior refere-se a um aumento de produção que poderia ter ocorrido no Rio Grande do Sul. Foi a primeira linha de montagem transferida pela empresa para a sede americana, após o investimento feito pelo governo da Georgia (EUA) na subsidiaria.

As mudanças ocorrem a partir de uma decisão estratégica da Taurus de aumentar a manufatura na nova fábrica. Outro fator, segundo o presidente da empresa, Salesio Nuhs, bolsonarista convicto, é a limitação de investimentos para aumento da capacidade produtiva no Brasil, em razão da falta de incentivos nacionais e de isonomia tributária e regulatória frente as fabricantes estrangeiras.

Segundo Nuhs, o produto importado, quando adquirido por entidades públicas de qualquer natureza, ingressa no Brasil sem imposto algum. Ao passo que o produto nacional paga uma carga elevada de impostos (IPI, ICMS, PIS e COFINS), que representam até 70% do preço. “Exportar para o Brasil, infelizmente em virtude da falta de isonomia, passou a ser um negócio atrativo”, afirmou a empresa em nota.

O êxodo das empresas reflete uma causa que pode ser medida em números. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) teve recuo de 2,2 pontos em janeiro de 2021, informou a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O índice ficou em 60,9 pontos, ante 63,1 pontos em dezembro de 2020, numa escala que vai de 0 a 100. Está 4,4 pontos abaixo do registrado em janeiro de 2020.

Segundo a entidade patronal, a queda mostra a elevada incerteza diante da evolução da pandemia e do desempenho da economia. “2021 começa sem as medidas emergenciais de apoio às empresas e às famílias mais vulneráveis. Esses fatores, provavelmente, resultaram no recuo da confiança dos empresários”, concluiu o boletim da CNI. A entidade estima que o PIB da indústria fechará 2020 com retração de 3,5%.

O Índice Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física (PIM-PF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já havia apontado queda de 5,5% no acumulado de 2020 até novembro, ficando 13,9% abaixo do nível recorde, alcançado em maio de 2011. Em 12 meses, a queda é de 5,2%. E sobre patamares pífios apresentados em 2019.

Já o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria desceu a 75,1% de novembro para dezembro de 2020. A última vez que o Nuci esteve acima de 80% foi em 2014. Desde 2015, o nível gira em torno de 70%. Os dados são da Sondagem da Indústria da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Desindustrialização ocorre por falta de política do Estado

Em meio à crise e a discussões sobre o acelerado processo de desindustrialização sofrido pelo Brasil desde o golpe de 2016, causou indignação na indústria de transformação a entrevista do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos von Doellinger, ao jornal ‘Valor Econômico’ desta terça (19). O economista defendeu a desindustrialização do Brasil e sustentou que atividades de manufatura, com exceção do beneficiamento de recursos naturais, não são o melhor caminho para o país.

Doellinger defendeu que o Brasil priorize setores onde tem vantagens comparativas – como agronegócio, mineração e energia – e citou a Austrália, que há 15 anos acabou com a indústria de transformação para dar foco à produção de minérios e agropecuária.

“Estamos assistindo a uma discussão estéril que despreza um ativo valioso do país. É como se os industriais fossem um bando de idiotas que dependem de subsídio para sobreviver”, comentou Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

Nelson Barbosa, ministro da Fazenda e do Planejamento entre 2015 e 2016, no auge da campanha de sabotagem movida pelos derrotados nas eleições de 2014, explicou em artigo publicado no jornal ‘Folha de São Paulo’ o processo ocorrido no Brasil desde então. Segundo ele, sem incentivos fiscais não há criação de renda e emprego. A questão é por quanto tempo ele deve perdurar.

“O incentivo deve ser temporário, pois as empresas têm que andar com suas próprias pernas a partir de algum momento. Esta foi a lógica das políticas automotivas dos governos Lula e Dilma, que trouxeram investimentos e empregos para o Brasil, em troca de incentivos com prazo para acabar”, comparou Barbosa.

“O caso mais famoso foi o Inovar-Auto, que aumentou a capacidade produtiva interna, com cronograma de redução gradual dos incentivos depois de cinco anos. A redução dos incentivos estava programada para começar em 2017, mas antes disso veio o golpe de 2016 e o Brasil abandonou toda e qualquer política industrial e regional de desenvolvimento”, ressalta o economista.

“O desastre começou com os fiscalistas de planilha do governo Temer e se aprofundou com os austríacos de circo do atual governo. Em vez de fazer transição suave de retirada de incentivos, desde 2016, o governo federal optou pelo fim abrupto de vários programas de diversificação produtiva, interrompendo o diálogo necessário com a indústria nacional”, elencou o ex-ministro.

A conclusão de Barbosa é o retrato da atualidade: “As consequências vêm depois. Estagnação econômica e ausência de política de desenvolvimento produtivo são fatais para a indústria. Infelizmente, enquanto formos governados por terraplanistas, decisões como a da Ford tendem a se repetir em outras empresas e setores.”