O PT está na vanguarda

Enio Verri*

A expressiva abstenção revela o grande derrotado das eleições, Bolsonaro. Isso para não falar do número de prefeituras que ele elegeu. Apenas dois declarados bolsonaristas. No primeiro turno, causou rejeição, tanto em São Paulo, quanto no Rio de Janeiro. Contudo, quase 30% dos eleitores disseram que não querem nada que se aproxime do presidente, mas estão envenenados o suficiente para odiar qualquer proposta da esquerda. A consolidação na opinião pública, da negação a quem promoveu os maiores avanços políticos, econômicos e sociais da história do Brasil, foi por meio de ininterruptas acusações e condenações, sem espaço para a defesa. É isso o que vem acontecendo, desde 2014. Alvo de uma caçada implacável, com o Supremo, com tudo, e com muito mais, o Partido dos Trabalhadores resiste sob condições muito adversas. O resultado das eleições não foi fácil para o PT, mas foi acachapante para o bolsonarismo. O partido tem estrutura e base de apoio. Bolsonaro vai desaparecer ao deixar a Presidência. Seus seguidores descobrirão o tamanho do mito. O PT nasceu na adversidade da organização dos trabalhadores e suas raízes estão bem fincadas. E ele tem enfrentado todos os ataques e restrições com muita galhardia, sem pensar mudar o nome a sigla, a cor, ou qualquer coisa que o descaracterize.

Parte da sociedade percebeu que foi enganada pela antipolítica de Bolsonaro e todo o circo de horrores com o qual ele desgoverna o Brasil. Porém, a população não deixou de ser influenciada pelo repetido cenário dos âncoras dos jornais televisivos, que ainda é exibido e remete à novela que materializou o golpe e a supressão da soberania nacional. Há uma estranha normalidade social. A imprensa comercial alimenta a Lava Jato para manter a crença da população na sua esculhambada credibilidade. Séries de reportagens expuseram suas contradições e a tentativa de se constituir como um poder acima de qualquer suspeita. O Ministério da Justiça confirmou a cooperação informal dos procuradores brasileiros com os americanos. O ministro Lewandowski qualificou de afronta à Constituição a teimosia inexplicável do MPF de negar à defesa do presidente Lula acesso a todo o conteúdo do acordo de leniência da empresa Odebrecht. Quando o juiz do processo que quebrou a empresa é convidado para trabalhar na recuperação judicial da mesma, sem que isso provoque um escândalo, temos a medida da apatia social.

Mais do que nunca, é necessário o posicionamento das instituições públicas acerca do restabelecimento dos direitos políticos do Lula. Ainda que, na dúvida, em favor do réu, como estabelecido no Código de Processo Penal. De um lado, os poderes políticos e econômicos são severos com o PT, mas tolerantes e em silêncio com o comportamento desqualificação da Lava jato. Os fatos jurídicos e políticos acontecem e é como se não fosse legítimo exigir a restituição dos direitos do ex-presidente. A omissão das instituições com o inexplicável impedimento de Lula causa estranheza, diante da acusação de “ato de ofício indeterminado” e “delação premiada sem provas”. Sentença da estatura de quem a proferiu. As revelações sobre a operação chocaram muita gente, que percebeu o engodo, mas, frustrada o suficiente para não dar crédito à esquerda.

Contudo, essa parte da população não consegue esconder a indignação, desde que descobriu que o juiz conduziu a acusação, grampeou escritório dos advogados do acusado, combinou um fundo de R$ 2 bilhões para ser administrado por ele e pela força tarefa do MPF. Não se vê a imprensa comercial passar o dia pedindo explicações a Moro e à força-tarefa. Mentira e confusão se combatem com esclarecimento. O PT tem muito a mostrar e a esclarecer o quanto as suas políticas são vanguarda. Ainda vão acontecer os desdobramentos devido a mais de cinco milhões de pobres nas universidades e cursos técnicos; 3,5 milhões de habitações; água perene para 12 milhões de brasileiros; mais de 100 mil jovens em intercâmbio cultural internacional; construção de acelerador de partículas. Esses, entre tantos outros avanços, como o Bolsa Família e a valorização do salário mínimo 77% acima da inflação, que retiraram o Brasil, em 2014, do Mapa da Fome, quando a fome havia sido reduzida em 82%. O Brasil poderia constar no Mapa, desde à monarquia ao século 21, porque ainda não resolveu os seus 400 anos de escravidão instituída.

Os governos do PT ofereceram respostas positivas e ainda muito válidas para inclusão econômica dos trabalhadores. Já a participação política passa pela formação da consciência, na base, de classe. Argumentos não faltam, nem gente disposta a ser esclarecida e a participar politicamente do seu bairro, da sua escola, do seu trabalho, do seu município. Há muitas informações nas redes sociais do PT sobre os seus serviços prestados e a perseguição que ele sofre, desde 2005. É fundamental estabelecer programas periódicos de politização das bases. Essa tarefa é de todo aquele militante que entende ser esse o caminho para que o resultado de políticas inclusivas e de desenvolvimento do Brasil voltem a ser o dia a dia da população. São muitos anos de massacre ininterrupto, como podem ser observados no site “Manchetômetro”, da Universidade Estadual do Rido de Janeiro. O processo não é da noite para o dia, pelo contrário. Exige a construção diária de pontes entre os que podem influenciar politicamente e os que não tem representatividade alguma, até que esses caminhos se transformem em vias permanentes e bem estruturadas. À luta.

*Enio Verri é economista e professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal e líder da bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados.

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