guilherme boulos

Era pós-Lula representa momento de renovação para esquerda brasileira, diz Libération

O jornal Libération dedica duas páginas de reportagem ao Brasil, na véspera da posse dos prefeitos eleitos em novembro. O diário de tendência editorial progressista analisa o trabalho de reconstrução da esquerda brasileira neste momento em que se instaura a era pós-Lula.

Ativistas, associações e intelectuais tentam trazer à luz temas importantes para minorias, mulheres e trabalhadores brasileiros em situação de precariedade, que vivem de bicos sem qualquer vínculo com a atividade formal, relata a correspondente em São Paulo, Chantal Rayes.

“O candidato do PSOL Guilherme Boulos, 38 anos, não conquistou a prefeitura de São Paulo, mas sua simples passagem ao segundo turno das eleições municipais na maior cidade do Brasil fez do líder dos sem-teto a nova esperança da esquerda brasileira, a cara de sua renovação”, destaca o Libération. Boulos fala para esses trabalhadores excluídos e tenta torná-los visíveis para a sociedade utilizando termos como “solidariedade” e “valores”, diz a reportagem.

Em entrevista ao jornal francês, Boulos ressalta que Jair Bolsonaro venceu as eleições “espalhando ódio e defendendo a tortura”. “A esquerda deve ser portadora de um projeto de sociedade, de princípios coletivos”, estima o representante do PSOL.

O declínio do Partido dos Trabalhadores (PT) ficou evidente nessas eleições e alguns já detectam os primeiros sinais de saída da cena do ex-presidente Lula, 75 anos, “figura tutelar da esquerda brasileira”, explica a correspondente.

Debate à margem da estrutura partidária
Para a pesquisadora e cientista política Daniela Mussi, ouvida na reportagem, a renovação da esquerda no Brasil está em andamento “principalmente fora das estruturas limitadoras dos partidos”. Numa fase futura, os novos projetos poderão “oxigenar as estruturas partidárias”, comenta.

O jornal francês cita como exemplo de iniciativa que procura “aproximar o saber da intelectualidade popular” a rede de educação solidária Emancipa, que também é um espaço de discussão para repensar a esquerda.

Em junho, a Emancipa reuniu em torno do tema “Pandemia e periferias urbanas” personalidades de horizontes diversos, como a feminista Debora Diniz, a coordenadora do movimento dos camelôs do Rio, conhecida pelo apelido de “Maria dos Camelôs”, o pensador negro Silvio Almeida e Paulo Lima, líder do movimento “Entregadores Antifascistas”.

A reportagem do Libération prossegue apontando o sucesso de algumas candidaturas impulsionadas pelos movimentos sociais, feminista e negro. O jornal conta que Débora Dias, de 22 anos, irá estrear como vereadora na Câmara de São Paulo. Estudante, educadora popular e lésbica, descreve o diário, Débora Dias será a primeira mulher de sua família a não trabalhar como empregada doméstica. Ela integra o mandato coletivo do Quilombro Periférico.

Mulher negra
Segundo o cientista político João Alexandre Peschanski, uma nova temática política emerge no Brasil: a da mulher negra da periferia, que ainda não ocupa espaço nos partidos, apesar da nova legislação que determina a divisão proporcional dos fundos partidário e eleitoral em relação ao número de postulantes negros. “A esquerda brasileira é branca e masculina”, destaca o pesquisador. “Eu diria mesmo heteronormativa, machista e racista como a direita”, acrescenta a feminista Ludmilla Teixeira, também entrevistada pelo jornal francês.

A reportagem termina com um comentário do sociólogo Tiaraju Pablo D’Andrea, 40 anos, observador e voz influente nessa renovação na esquerda. Branco, nascido na zona leste de São Paulo, ele fez doutorado na França e dedica seus estudos “ao homem da periferia, desconhecido dos intelectuais brancos”.

Ele nota que as igrejas evangélicas ficam lotadas nas noites de domingo, enquanto as reuniões de partidos políticos, movimentos sociais e coletivos culturais atraem pouca gente.

Para o sociólogo, isso ocorre porque os pastores evangélicos ouvem as dificuldades enfrentadas pelos moradores das periferias e tentam ajudá-los. “Nós falamos de ‘direito à cidade’ e ‘minorias’, quando as pessoas querem ouvir ‘emprego’, ‘segurança’ e saúde'”, argumenta.

Para D’Andrea, “a destruição orquestrada da figura de Lula, o líder popular que veio de baixo, é uma das causas da crise” que atravessa o país. “Lula sabe falar com todo mundo e é insusbstituível”, conclui o pesquisador.

Por RFI