Vereador eleito lidera movimento antirracista em Curitiba

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O advogado Renato Freitas, 37 anos, vereador eleito de Curitiba, combina liderança de massa com a elaboração da tática política. Ele é um dos principais articulares do movimento antirracista na capital paranaense.

Na semana passada, o jovem vereador negro comandou duas ações de boicote ao Carrefour. Cerca de 700 pessoas foram até à loja no bairro Parolim para protestar contra o assassinato de João Alberto Freitas, o Beto, no Carrefour de Porto Alegre na quinta-feira (19) –véspera do Dia da Consciência Negra.

Renato faz de uma das frases de Martin Luther King seu mantra: “a injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar”.

O vereador eleito relata casos de racismo e abuso de autoridade de agentes de segurança privados e policiais militares.

Em 2018, o agora vereador eleito Renato Freitas foi vítima de tiro de balas de borracha a queima roupa por causa da sua cor de pele. Na época, ele fazia panfletagem para divulgar a candidata dele a deputado estadual.

Em artigo especial, Renato Freitas discorre sobre a luta antirracista em Curitiba. A abaixo, leia a íntegra:

“A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar” (Martin Luther King)

Renato Freitas*

João Freitas poderia ser eu, como foi todas as vezes em que tive que perguntar para o segurança o porquê daquele olhar desacreditado que nos diminui enquanto nos persegue pelos corredores. Querem que a gente pense que o problema tá com a gente, e que “a vida é assim”. E quem pensa diferente, não aceita, vai até o segurança e diz “quanto que é o quilo do pescoço?”, é visto como o inimigo que não conhece seu lugar. Logo vieram os super-heróis, pronto pra espancar um vilão negro. Tavam em dois e mais preparados, poderiam ter imobilizado, mas quiseram torturar, estavam gostando daquele momento, estavam realizando um desejo, era mais que violência, era crueldade. Afirmação do racismo sobre aquele que ousou confrontá-los.

João foi brutalmente assassinado na presença da própria esposa. “Gente negra, gente pobre, gente menor”, dizem eles com os olhos que condenam. Seja na faculdade, na rua ou no mercado. Segurança pública ou privada. O lugar não importa, muitas vezes nem o que a gente tá fazendo importa, porque eles se incomodam mesmo é com nós, o racismo é um negócio, antes de tudo, pessoal.

E pra mim é pessoal também. Se o irmãozinho tá sendo linchado lá no RS nas mesmas condições que eu aqui, então mais do que nunca a dor dele é a minha também, pois como Martin Luther King, acredito que “a injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar”.

Foi com isso em mente que ajudei a organizar as manifestações de ontem e antes de ontem – 20 e 21 de novembro – de BOICOTE AO CARREFOUR na loja do Parolin. Somaram nos dois dias mais de 700 pessoas, o mercado fechou as portas, nós fechamos os portões, levamos cartazes e escrevemos frases como “Carrefour Racista” em lugares estratégicos para que todos pudessem ver e parar de naturalizar nossas mortes.

Não houve caso algum de violência, nem entre os manifestantes, nem seguranças do mercado e nem com a polícia que chegou depois e respeitou a manifestação legítima.

Aliás, até o Chefão lá do Carrefour apareceu agora pouco no Fantástico dizendo que as manifestações (mesmo a que queimaram parte da loja como em SP) são legítimas e que eles entendem a revolta das pessoas e da família. Mas o zé povinho falador que fica aproveitando qualquer brecha para tentar nos tachar como “bandido” já veio com uma foto em que estou escrevendo “Racistas” num toldo velho do Carrefour, e dizendo “nossa senhora, sempre soube que esse rapaz não prestava, é um vândalo”. As mesmas pessoas que para não lerem o que escrevi, preferem condenar a maneira que escrevi.

Esse espanto com cinquenta centímetros de plástico véio é praticamente inexistente em relação ao assassinato do João. Inclusive fui no facebook do tal (aparentemente) advogado da polícia militar que está se empenhando tanto em tentar me atingir, e vi que ele estava, como que querendo agradar seus potenciais clientes, justificando o assassinato por conta das anotações criminais da vítima.

Não há crime cometido pelos seguranças, foi legítima defesa, diz o advogado da polícia.

Mas no meu caso há crime sim, diz ele em defesa da superfície dos cinquenta centímetros de lona azul do Carrefour. E esse deve ser punido exemplarmente, pois cometido, como disse um dos policiais no post do tal advogado, por um “negro cotista”.

RACISTAS NOS DEIXEM EM PAZ!

*Renato Freitas é vereador eleito pelo PT de Curitiba.

Assista ao vídeo: