Jornal francês Libération diz que morte de João Alberto relança debate sobre racismo no Brasil

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A morte brutal de João Alberto Silveira Freitas no Brasil continua repercutindo na imprensa francesa. O jornal Libération publica nesta segunda-feira (23) uma matéria sobre a onda de revolta provocada pelo assassinato do homem negro, espancado por dois seguranças de uma unidade do Carrefour em Porto Alegre, na última quinta-feira (19). O caso relançou o debate sobre o racismo no Brasil, diz o jornal progressista.

O Brasil “tem agora seu George Floyd” diz o texto assinado pela correspondente do Libération em São Paulo, Chantal Rayes, que ressalta que os negros são as principais vítimas da violência policial e de homicídios no país.

A reportagem lembra todos os detalhes do assassinato e das investigações que estão em andamento. A cena foi filmada e “as imagens são insuportáveis”, garante a jornalista.

Segundo a filosofa Djamila Ribeiro, entrevistada pelo diário, o país “julga natural” a violência cotidiana contra negros e mestiços. Por isso, o fato da morte de Joao Alberto ter sido estampada na primeira página dos jornais brasileiros é excepcional.

Os protestos provocados pela morte de George Floyd nos Estados Unidos influenciaram e reposicionaram o debate sobre o racismo no Brasil, estima a ombudsman da Folha de São Paulo, Flávia Lima, citada por Libération.

Onda de indignação atravessou fronteiras
Além das manifestações que ganharam as ruas das principais cidades do país, aos gritos de “Carrefour assassino” ou “Carrefour racista”, a indignação ultrapassou as fronteiras do Brasil. O movimento americano Black Lives Matter reagiu e pediu no Twitter o boicote internacional da marca francesa. “Mais uma vida negra perdida” se insurgiu, “devastado”, o campeão de Fórmula 1 Lewis Hamilton.

O Carrefour também reagiu falando em “tragédia incalculável” e prometendo combater o “racismo estrutural”. O presidente do grupo francês, Alexandre Bompard, fez até um tuíte em português pedindo uma “revisão completa da formação dos agentes de segurança” do grupo. Libération explica essa iniciativa indicando que o caso João Alberto não é isolado. Há vários precedentes de violência contra clientes negros nas unidades do Carrefour no Brasil.

Já na cúpula do Estado brasileiro, reina a negação. Depois de Hamilton Mourão afirmar, “sério”, que “não existe racismo no Brasil“, Bolsonaro, que “quase nunca concorda com seu vice-presidente”, aquiesceu.

Eleições municipais
No entanto, “não vemos homens brancos espancados até a morte”, contesta o ativista e universitário Thiago Amparo nas páginas do diário. Os dados são eloquentes, 75% das vítimas de mortes violentas no país são negras ou mestiças enquanto essa população representa “apenas” 56% dos brasileiros.

Resta saber se a onda de indignação criada pelo assassinato de João Alberto terá um impacto nas urnas e garantirá a vitória da esquerda no segundo turno das eleições municipais, no domingo 29 de novembro, questiona o Libération.

Por RFI

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