Negros têm sete vezes mais risco de serem baleados pela polícia, aponta pesquisa

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Racismo institucional é reforçado por modelo de policiamento que busca suspeitos no meio da população. Traços corporais e culturais das populações periféricas são estigmatizados como comportamentos de risco

Levantamento realizado pelo Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) afirma que negros têm de três a sete vezes mais chances de serem baleados pela polícia. Os resultados, na íntegra, da pesquisa Policiamento Ostensivo e Relações Raciais serão divulgados e debatidos no seminário Policiamento Ostensivo e Relações Raciais, nesta quarta (21) e quinta-feira (22).

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A pesquisa traz informações sobre abordagem, letalidade policial e prisões em flagrante, segundo as características de cor/raça. Dados estatísticos foram coletados, desde de 2016, nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Policiais também foram ouvidos.

A coordenadora do Grupo de Estudos Sobre Violência e Administração de Conflitos (Gevac), Jacqueline Sinhoretto, especifica que só foi possível aferir as características raciais nos boletins de ocorrência em São Paulo e Minas Gerais. Entretanto, ela afirma que nestes estados a comprovação da existência do racismo institucional “é dramática”.

“Os resultados mostram que chega a ser quatro vezes maior a chance de uma pessoa ser morta pela polícia. Em São Paulo, em alguns anos e em determinadas locais da capital, chega a ser 7 vezes maior as chances de uma pessoa negra ser alvejada pela polícia”, antecipou professora, em entrevista a Marilu Cabañas, para o Jornal Brasil Atual.

Método
O problema, segundo a pesquisadora, é que o modelo de policiamento ostensivo adotado no Brasil está calcado na busca de atitudes suspeitas. A partir daí, se produz uma “filtragem racial” em que as características corporais e sociais da população negra e periférica são vistas como um risco potencial.

“A corporalidade das pessoas negras é entendida pelos policiais como possuindo essas características de suspeita. Se veem um jovem negro usando um boné de aba reta, camiseta de time, andando em grupo – ou até mesmo pelo movimento corporal, um andar meio gingando –, essas características culturais acabam sendo associadas com comportamentos potencialmente criminosos”, detalhou. Trata-se de um resquício do histórico da escravidão no país.

Além disso, esse tipo de conduta é agravado por conta das técnicas importadas dos Estados Unidos. Por lá, as as tensões raciais também são latentes. Contudo, já há uma forte crítica a esse modelo por parte de especialistas e movimentos sociais. Nesse sentido, a pesquisadora lembrou dos protestos em mais de mil cidades americanas após a morte de George Floyd por um policial branco em maio, em Minneapolis.

Policiais negros também temem
Jacqueline relatou que os policiais negros ouvidos pela pesquisa negam a existência do racismo nas corporações policiais. Mas também revelaram “intranquilidade” ao serem abordados pelos colegas, quando estão à paisana. Ela citou, por exemplo, que oficiais negros sentem a necessidade de se identificar imediatamente, quando parados numa blitz, temendo a reação dos colegas de farda.

Assista à entrevista:

Por RBA