Acabar com a fome é tarefa e decisão de toda a sociedade, por Romanelli

O deputado Luiz Claudio Romanelli (PSB-PR) afirma que retomar programas que já deram certo, sem ideologizar a questão da fome, é o caminho para diminuir as desigualdades, combater a miséria e a pobreza.

Acabar com a fome é tarefa e decisão de toda a sociedade

“A fome não é só uma tragédia, é uma vergonha para a humanidade”. (Papa Francisco)

No dia 9 de outubro, o Prêmio Nobel da Paz foi concedido ao Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas (ONU).

Segundo o comitê norueguês do Nobel, o prêmio foi concedido ao PMA “pelos seus esforços para combater a fome, por sua contribuição para melhorar as condições de paz em áreas afetadas por conflitos e por evitar que a fome seja usada como arma de guerra”.

O programa foi criado em 1961, a partir de uma proposta do presidente norte-americano Dwight Eisenhower , para institucionalizar a ajuda alimentar internacional. Em 2019, atendeu 97 milhões de pessoas em 88 países.

O prêmio Nobel da Paz para o Programa Mundial de Alimentos joga luz a um tema que andava esquecido: a importância do combate à fome e à miséria no mundo.

Segundo o relatório O Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo em 2019, da ONU, mais de 821 milhões de pessoas no mundo ainda passavam fome em 2018.

Se considerarmos o número de pessoas que passam fome juntamente com as pessoas com insegurança alimentar moderada, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que o número chega a 2 bilhões de pessoas no mundo.

No Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, o Papa Francisco enviou uma mensagem ao diretor da FAO, que comemora 75 anos de existência , em que ressalta que a fome no mundo é uma responsabilidade de toda a humanidade

“A fome não é só uma tragédia, mas uma vergonha para a humanidade. Em grande parte, é provocada por uma distribuição desigual dos frutos da terra, à qual se acrescentam a falta de investimentos no setor agrícola, as consequências das mudanças climáticas e o aumento dos conflitos em várias regiões do planeta. Por outro lado, se descartam toneladas de alimentos. Diante dessa realidade, não podemos permanecer insensíveis ou paralisados. Somos todos responsáveis “, frisou.

O Brasil, que já foi exemplo para o mundo e saiu do Mapa da Fome em 2014, ainda tem cerca de 10 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade social e alimentar.

A pandemia e o desemprego são fatores que podem aprofundar ainda mais as desigualdades e levar o país novamente ao Mapa da Fome, especialmente se houver regressão nas políticas sociais, segundo alerta o representante do PMA no Brasil, Daniel Balaban.

“Estamos em um momento chave: a luz amarela para a fome foi acesa, mas ainda temos tempo de fazer uma reversão . Não precisamos reinventar a roda. As políticas sociais que foram criadas tiveram muito sucesso . Basta que os recursos voltem a ser investidos e o apoio às populações mais vulneráveis, retomado”, disse em entrevista à BBC News Brasil.

O ex-presidente da FAO, Francisco Graziano da Silva, que deixou o cargo em 2019, e foi um dos criadores do Fome Zero, acredita que o país negligencia a questão da fome e das políticas sociais.

“O principal problema ligado à fome no Brasil é o desemprego e a falta de proteção social. Virar desempregado no Brasil é sinônimo de passar fome, porque não se tem acesso a um programa de proteção social, como existe nos países europeus”, afirmou.

Graziano presidiu a FAO por sete anos e frisa que o combate à fome não pode ter ideologia.

“Você não pode perguntar para quem está passando fome se ele ou ela é de esquerda ou de direita. Tem que ser um programa de Estado e não um programa de governo”.

Essa consciência está meio em falta no governo federal, que extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e acabou com vários programas de apoio à agricultura familiar e assistência alimentar.

Para que o Brasil não volte ao Mapa da Fome, o governo precisa aumentar imediatamente os programas de transferência de renda, de estímulo à produção agrícola e à agricultura familiar, melhoria da merenda escolar, ampliação dos restaurantes populares, cozinhas e hortas comunitárias.

No Paraná coordenei durante os anos de 2011 a 2014, a Política Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional e por meio do Programa Compra Direta, parceria feita com o governo federal, onde investimos R$ 92 milhões, sendo beneficiados dez mil agricultores familiares e 3.200 entidades sociais.

Infelizmente o PAA foi reduzido nesse atual governo federal e por isso fiquei muito feliz quando o governador Ratinho Jr aceitou a minha proposta de criarmos no nosso estado o Compra Direta Paraná, com recursos do Fundo Estadual de Combate a Pobreza, e por isso estamos investindo R$ 20 milhões em 147 associações e cooperativas da agricultura familiar. Ao todo, 12,5 mil agricultores estão envolvidos, atingindo diretamente 530 mil pessoas socialmente vulneráveis.

Retomar programas que já deram certo, sem ideologizar a questão da fome, é o caminho para diminuir as desigualdades, combater a miséria e a pobreza.

Boa semana! Paz e Bem!

*Luiz Claudio Romanelli, advogado e especialista em gestão urbana, ex-secretário da Habitação, ex-presidente da Cohapar, ex-secretário do Trabalho, é deputado pelo PSB e primeiro secretário da Assembleia Legislativa do Paraná.

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