Argentina vira alvo de bolsonaristas após Papa Francisco alertar sobre a Amazônia

O discurso do Papa Francisco na Assembleia Geral da ONU, nesta sexta (25), alertou para o perigo do desmatamento para as populações indígenas na Amazônia.

Por causa de seu alerta global, o sumo pontífice da Igreja Católica virou alvo de ataques bolsonaristas nas redes sociais.

O discurso do Papa, que é argentino, abafou as mentiras do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que também usou a tribuna virtual da ONU na última terça-feria (22).

A senha para os ataques contra Francisco e a Argentina foi dada pelo próprio Bolsonaro, na quinta (24), durante sua live semanal.

O inquilino do Palácio do Planalto disse que o povo do país vizinho escolheu errado ao eleger Alberto Fernández e que a Argentina estaria seguindo o mesmo rumo da Venezuela.

Mas, afinal, o que disse o Papa Francisco que ensandeceu os robôs bolsonaristas?

O Santo Padre demonstrou preocupação com o desmatamento e pela segurança dos povos indígenas. Ele ainda criticou o que chamou de “erosão” do multilateralismo entre as nações e o aumento da desigualdade social.

Portanto, o Papa Francisco só disse verdades e segundo a Bíblia Sagrada, João 8:32, “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

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Haddad escreve sobre a Cristofobia

O ex-candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, em artigo publicado neste sábado (26), discorre sobre o termo “cristofobia” lançado presidente Jair Bolsonaro, na terça-feira (22), durante discurso na abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU.

“Ninguém há de ter medo de um homem que pregou o amor e a igualdade”, escreve Haddad.

Leia a íntegra do artigo:

Cristofobia

por Fernando Haddad*

A relação da igreja com o poder secular sempre foi controversa, desde a origem do cristianismo. A célebre frase de Jesus sobre o tema teria gerado insatisfação entre os oprimidos e lhe custado a vida, em tempos de justiça plebiscitária.

Talvez por incompreensão de uma doutrina sempre em disputa, o Estado laico tenha se tornado realidade há muito pouco tempo. A luta anticolonial na América do Norte deu vida ao primeiro Estado nacional separado da religião.

Esse acontecimento teve um alcance tremendo. Essa concepção de Estado reafirmou o primado cristão da sociedade como fraternidade de pessoas iguais entre si. A tolerância se estabeleceu como princípio das constituições modernas, restrita de início aos homens brancos.

Genocídio dos povos originários, colonialismo, escravidão dos negros, opressão contra mulheres etc. mantiveram-se como práticas corriqueiras dos liberais apoiados pela religião, em manifesta contradição com os ensinamentos de Jesus.

Ninguém há de ter medo de um homem que pregou o amor e a igualdade. Mas ninguém pode desconsiderar a violência que já foi e é praticada em seu nome.

No mesmo discurso em que citou a cristofobia, Bolsonaro acusou os indígenas e caboclos pelas queimadas florestais na Amazônia e no Pantanal. O que a dupla mentira revela? Sabemos que a intolerância religiosa no Brasil tem como alvo as religiões de matriz africana, majoritariamente. A Polícia Federal, da sua parte, já reuniu provas que considera suficientes para indiciar os fazendeiros responsáveis pelos incêndios.

O elemento subjacente às duas inverdades é justamente aquilo que afronta de maneira decisiva a essência do cristianismo, qual seja, o racialismo ou a negação da igualdade entre as pessoas. No primeiro caso, por deslocar a atenção dos verdadeiros alvos da intolerância religiosa; no segundo, por apontar o dedo para as vítimas do crime ambiental.

Vale notar que as queimadas na Amazônia não raramente aparecem no discurso de Bolsonaro como dupla afirmação nacionalista. Para dentro, perante as “nações” indígenas; para fora, perante as nações soberanas.

O que muitas vezes se deixa escapar é que o recorte racial das afirmações de Bolsonaro tem uma contrapartida no plano externo. Da mesma maneira que seu discurso nega a igualdade entre as pessoas, o nacionalismo de Bolsonaro é compatível com uma visão internacional naturalmente hierárquica. Ele busca ocupar, na sua relação com Trump, a mesma posição que, na sua opinião, o caboclo deveria almejar em relação ao fazendeiro.

Nada mais anticristão que uma “irmandade” de desiguais.

*Fernando Haddad. Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

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