Auxílio emergencial e indignação seletiva da Globo

De repente, a Globo virou os canhões contra pessoas físicas pelo recebimento indevido de R$ 600 do auxílio emergencial. A emissora mostrou histórias de cidadãos –de empresários a dondocas– que não preenchiam os requisitos, mas que sacaram o valor. Fraude!, fraude!, Fraude!, gritaram indignados os Marinho.

De fato houve uma fraude, a julgarmos pelos dados factuais mostrados pelos valentes repórteres da afiliada da Globo no Rio Grande do Sul. No entanto, há uma indignação seletiva da televisão e do programa Fantástico, que levou o material ao ar.

Primeiro, esse auxílio emergencial deveria ser universal –sem distinção de raça, cor ou rendimento. É assim que estão procedendo os demais países do mundo. Mais do que ajuda, é medida para estimular a economia em depressão profunda.

Segundo. Durante a pandemia, o ministro da Economia Paulo Guedes transferiu alguns trilhões dos cofres públicos para os bancos e especuladores sem que houvesse um pio da Globo e demais veículos de imprensa da mídia corporativa.

A velha mídia está ajudando em meio à pandemia de coronavírus Guedes, Bolsonaro e a parte mais venal do Congresso privatizarem áreas estratégicas à soberania do País, como a água, negócios de bilhões, com a complacência e “cobertura” [no sentido de esconder e proteger] do roubo ao patrimônio público.

A Globo mostrou ontem à noite um relatório do TCU com 620 mil pessoas receberam auxílio emergencial sem ter direito. O prejuízo seria, segundo a TV, de quase R$ 1 bilhão.

Terceiro. Enquanto a emissora grita ‘pega ladrão’ para batedores de carteiras, a TV Globo ajuda acobertar o maior roubo do Brasil em plena pandemia.

Caríssimos bravos repórteres. Senhores membros do TCU. Sigam o dinheiro. Follow the money. Sigam o Guedes.

LEIA TAMBÉM

Paulo Guedes quer passar a ‘boiada’ da privatização na pandemia do coronavírus

O governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não combate a pandemia de coronavírus, ele usa a pandemia de coronavírus para fazer negócios contra os interesses da sociedade. Para isso, ele tem a retaguarda de parte da mídia, do Congresso e até do Supremo. O operador do esquema é o ministro da Economia, Paulo Guedes, que, em um país sério, já estaria preso desde o início desta gestão bolsonarista.

Guedes e setores da mídia, como a Veja, aconselham o presidente da República de que a hora de passar a ‘boiada’ é agora com a privatização. Eles tomam como exemplo do marco regulatório do saneamento aprovado na última quarta-feira (24) no Senado, por 65 votos a 13, em meio à pandemia, com o apoio inclusive do senador Cid Gomes (PDT-CE), irmão do ex-governador e ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT).

Antes, um parêntese. Sobre a expressão ‘boiada’, recordemos da fatídica reunião ministerial de 22 de abril. Na época, o ministro Ricardo Salles dissera que via “oportunidade” com o coronavírus para “passar de boiada” da desregulação na proteção ao meio ambiente. Até porque não se discutia outra coisa, senão a pandemia. “Estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid[-19]”, discursou Salles. Fecha o parêntese.

Os grupos econômicos cujos braços midiáticos operam diariamente avaliam que a janela de oportunidade para as privatizações foi aberta com a pandemia de coronavírus.

“A perspectiva de uma severa crise provocada pela pandemia criou chance rara para o governo negociar com o Congresso a aprovação da venda de estatais”, escreve a Veja, folhetim de especuladores e de banqueiros. “São raros os momentos na política em que as oportunidades para implementar pautas impopulares, mas necessárias ao país, se abrem”, diz a publicação da Abril. “Normalmente, elas duram pouco e demoram anos para voltar a aparecer.”

A Veja apenas verbaliza o que Guedes, Bolsonaro, parte do congresso e do judiciário pensam: aproveitar a porteira da pandemia para passar a ‘boiada’ da privatização, que, em tempos normais, não passaria nem que vaca tossisse arroz doce.

O papo-furado dos neoliberais continua o mesmo de sempre: investimento privado, aliviar as contas públicas, desinchar a máquina estatal, aperfeiçoar os serviços prestados à população, diminuir os imensos cabides de emprego e reduzir o toma lá dá cá político.

Desde o início dos anos 1990, as privatizações são sinônimo de negociatas, malfeitos e piora nos serviços oferecidos aos cidadãos. Por isso, no Brasil e no mundo, são associadas com picaretagens e “roubos” do patrimônio público. “No entanto, já no programa de governo de Bolsonaro, Guedes sinalizou uma firme posição pela desestatização”, propõe a matéria Veja, enumerando 18 estatais para a venda.

Paulo Guedes acredita que é agora ou nunca a oportunidade de privatizar tudo. Ele se apoia numa pesquisa do Datafolha, do ano passado, quando 29% dos entrevistados eram favoráveis à venda dos bancos públicos e 26% à da Petrobras.

“Com a aprovação do marco do saneamento, entende-se também que a receptividade dos políticos à ideia melhorou. O principal fator de mudança no humor do Congresso é o embarque do grupo de partidos conhecido como Centrão no governo”, opina a revista, que vê “águas mais tranquilas” para o presidente Jair Bolsonaro passar a ‘boiada’ da privatização em plena pandemia de coronavírus.

Isso que a velha mídia propõe é roubo. É caso de polícia, não de política.

Alô, Ministério Público!