“Tem alguma coisa de podre no reino do Brasil”, diz editorial do Le Monde sobre governo Bolsonaro

Publicado em 19 maio, 2020

“Tem alguma coisa de podre no reino do Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro pode afirmar que a Covid-19 é uma ‘gripezinha’, um produto da imaginação histérica dos meios de comunicação”, diz o editorial do jornal Le Monde, em sua edição impressa desta terça-feira (19).

Fazendo referência à famosa frase “há algo de podre no reino da Dinamarca”, escrita por Shakespeare em 1600 na tragédia “Hamlet”, o jornal francês condena com veemência o presidente brasileiro. O diário publica que Bolsonaro participa de manifestações sem tomar a menor precaução com o distanciamento social, exorta prefeitos e governadores a abandonar as restrições contra o coronavírus e finge que a epidemia está acabando no país.

“Ora, em 72 horas, o Brasil ultrapassou 254 mil diagnósticos e se tornou o 3º país com mais casos de Covid-19 no mundo, superando o Reino Unido, que tem cerca de 250 mil infectados, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Rússia”, relata Le Monde.

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A vital, delicada e perigosa interdição

“Tem algo de podre no Brasil quando o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, diz que o coronavírus é resultado de um complô comunista (…) quando o ministro da Saúde Nelson Teich pede demissão no dia em que o país atinge 240 mil casos da Covid-19”, escreve Le Monde.

Para muita gente, o Brasil atravessa uma crise que lembra as horas mais sombrias da ditadura militar, destaca o editorial. Mas existe uma diferença importante, afirma: “Enquanto no passado os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo onde os fatos e a realidade não existem mais. Nesse universo sob tensão, alimentado por calúnias, incoerências e provocações mortíferas, a opinião se polariza a partir de ideias simplistas, mas falsas.”

Risco de novo regime autoritário
“O negacionismo alimentado pelo poder (…) e a aposta política inacreditável de Bolsonaro, que pensa que os efeitos devastadores da crise na saúde serão atribuídos a seus opositores, mostra que esse obscuro ex-deputado de extrema direita não tinha nada de um homem de Estado”, enfatiza o jornal.

Com o apoio de 25% do eleitorado, Bolsonaro sabe que sua margem de manobra é estreita. “Depois de praticar o negacionismo histórico em prol da ditadura, de negar a existência de incêndios na Amazônia e da gravidade da epidemia de Covid-19, Bolsonaro agora tenta levar o país para um novo regime autoritário”, adverte Le Monde.

Além do editorial e de uma reportagem interna de página inteira, a charge de capa do Le Monde, assinada pelo desenhista Plantu, também mostra o descalabro no Brasil. Enquanto uma família francesa faz um passeio em uma floresta recém-aberta, com todos de máscara, Plantu mostra um pequeno indígena brasileiro sem defesas orgânicas em meio a tocos de árvores da Amazônia destruída.

Por RFI