Lula diz que teme genocídio com Bolsonaro e militarização do governo

Publicado em 15 maio, 2020

Em uma nova ofensiva internacional, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou à Agence France-Presse (AFP) que teme um genocídio com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a militarização excessiva do governo no Brasil.

As preocupadas declarações do petista coincidiram com um encontro virtual que teve hoje, o Encontro de Puebla, com Lula, Pepe Mujica, Alberto Fernández, Evo Morales, Rafael Correa, Ernesto Samper, Dilma Rousseff e Fernando Haddad. O vídeo da transmissão está logo abaixo.

Voltemos à entrevista de Lula à francesa AFP.

Lula afirmou que fica rezando” para que “o povo brasileiro escape deste genocídio de responsabilidade, causado pelo [presidente Jair] Bolsonaro”, ao criticar as políticas do mandatário ante o avanço do novo coronavírus.

“O governo transforma as pessoas que estão preocupadas com o coronavírus em inimigos. Então, não pode dar certo”, advertiu Lula, de 74 anos, referindo-se aos ataques de Bolsonaro contra os governadores que decretaram medidas de distanciamento social por suas consequências econômicas.

O ex-sindicalista, que liderou as greves do final dos anos 1970 contra a ditadura militar (1964-85), mostrou-se, por outro lado, alarmado com a forte presença de militares no governo do ex-capitão que, segundo disse, “não confia nos civis que trabalham com ele”. O ex-presidente (2003-2010), libertado em novembro após passar 19 meses na prisão por acusações de corrupção passiva, está confinado em sua casa nos arredores de São Paulo com a companheira, Rosângela da Silva, a ‘Janja’.

“Eu estou fazendo muita reunião pela internet com sindicatos, com a CUT, com o PT, com deputados, com grupos sociais”, contou na entrevista, realizada por videoconferência pelo aplicativo Zoom. Confira os principais trechos desta conversa, realizada ontem, quando o Brasil superava os 200.000 casos e beirava os 14.000 óbitos pela pandemia:

P: Quando o senhor saiu da prisão, rejeitava um impeachment de Bolsonaro, mas agora mudou de opinião. Por que?

Lula: Eu não mudei de opinião. O que acontece é que você não elege um presidente hoje e no dia seguinte tenta fazer o impeachment. Primeiro a pessoa tem que ter cometido crime de responsabilidade. Na minha opinião, Bolsonaro tem cometido vários crimes de responsabilidade, tem atentado contra a democracia, contra as instituições, contra o povo brasileiro. Ele não tem sequer respeito pelas pessoas que morreram [de covid-19]. Não acho que o impeachment tem que ser feito por um partido político, tem que ser feito por uma instância que não seja partidária (…), porque se você entrar com uma proposta partidária, ela vai ser uma proposta ideologizada e será pretexto para que muitos deputados não queiram participar. “Antes só do que mal acompanhado”

P: O PT estaria aberto a alianças mais amplas, com o centro ou a direita?

Lula: É difícil imaginar. É preciso fazer uma diferença entre a construção de uma frente ampla e uma aliança eleitoral (…) A aliança [eleitoral] do PT no Brasil será uma aliança pela esquerda.

P: E uma frente ampla é possível?

Lula: No Brasil temos 30 e poucos partidos (…) Os partidos não querem perder sua autonomia (…) O que a gente pode fazer é uma aliança ampla, não uma frente.

P: O PT impulsionaria essa aliança ampla?

Lula: O PT já fez (…) nas eleições de 2002 (…) Já na eleição da Dilma, em 2010, tivemos vários partidos, 10 ou 12, também em 2014. O que demonstra que a quantidade de partidos que te apoiam não significa nada porque esses mesmos partidos que apoiaram a Dilma foram os que deram golpe na Dilma [a presidente Dilma Rousseff foi destituída do cargo pelo Congresso em 2016]. Às vezes, aquele ditado ‘antes só do que mal acompanhado’ vale muito para a política brasileira. “O país não é uma caserna”

P: Como avalia o posicionamento dos militares?

Lula: Hoje o Palácio do Planalto tem menos civis que militares (…) Eles estão mandando hoje no Brasil. Bolsonaro não confia nos civis que trabalham com ele e se pudesse, colocaria para cada civil um adjunto militar (…) O país não é uma caserna. O Brasil é um país de 8,5 milhões de km². Tem que ser governado da forma mais democrática possível e nem sempre os militares sabem lidar com a democracia (…) Os militares hoje estão com mais influência no governo do que no regime militar. Risco de “genocídio”

P: O coronavírus está sendo politizado no Brasil?

Lula: O papel de um maestro é conduzir harmonicamente a orquestra. O papel de um presidente da República é construir harmonicamente as decisões. Bolsonaro já deveria ter feito reuniões com os governadores, o ministro da Saúde, com os prefeitos (…), [mas] o governo transforma as pessoas que estão preocupadas com o coronavírus em inimigos, então não pode dar certo. Como eu sou católico, fico rezando para que o povo brasileiro escape deste genocídio de responsabilidade causado pelo Bolsonaro.

Encontro de Puebla [vídeo]:

LEIA TAMBÉM
Em plena pandemia, Bope promove ‘banho de sangue’ no Complexo do Alemão no Rio

Em 20 dias, São Paulo registrou a morte de cinco crianças causada pela covid-19

PDT entra com ação no STF contra MP de Bolsonaro que isenta agentes públicos de responsabilidade por erros na pandemia

PT engrossa ‘mega’ pedido de impeachment de Bolsonaro

A executiva nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) decidiu nesta sexta-feira (15) apresentar à Câmara dos Deputados um pedido coletivo de impeachment do presidente Jair Bolsonaro, assinado com amplo conjunto de movimentos sociais, organizações da sociedade civil, entidades e representantes da comunidade jurídica, além de outros partidos, como o PSOL, e frentes políticas. “Não dá mais com este governo”, disse a presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann (PR).

O anúncio foi feito por ela e os líderes do PT na Câmara, Enio Verri (PR), e da Minoria no Congresso, José Guimarães (CE). “Bolsonaro é incapaz de dar resposta à crise que estamos vivendo e não tem condições, nem capacidade administrativa e humana de conduzir o país. Briga com todo o mundo, e não protege o povo brasileiro”, apontou Gleisi Hoffmann. “É bom lembrar que o PT tem quatro ações na Justiça Eleitoral que pedem a cassação de chapa de Bolsonaro e [Hamilton] Mourão”.

Segundo os líderes, a direção nacional do PT está fazendo consultas e articulações com as forças democráticas e populares para que o pedido coletivo de Impeachment seja elaborado, assinado e apresentado até a próxima semana, mantendo a possibilidade de inclusão posterior de outras forças e entidades.

“É preciso fazer avançar o pedido de impeachment”, disse Verri. “É em respeito ao povo brasileiro e à vida da população. Enquanto a população morre, temos um presidente irresponsável”.

O partido engrossa o pedido de impeachment nos marcos da campanha pelo “Fora, Bolsonaro”, mobilizando todos os meios constitucionais e legais disponíveis para pôr fim ao governo genocida de Bolsonaro, inclusive a defesa da emenda por eleições diretas apresenta pelo deputado Miro Teixeira.

O PT lutará pela tramitação e aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 37/2019, que prevê a realização de eleições presidenciais em caso de vacância do cargo, por qualquer motivo, até seis meses antes do fim do mandato. “Essa posição consolida a posição das esquerdas e dos democratas brasileiros. Não dá mais para Bolsonaro continuar a conduzir os destinos do país”, apontou José Guimarães, líder da minoria parlamentar no Congresso.

Padilha: ‘mortes por coronavírus são culpa de Bolsonaro’

O deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) afirmou no início da tarde desta sexta-feira (15), em entrevista à CNN Brasil, que as mortes por coronavírus são de responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A fala de Padilha se deu em meio da demissão de Nelson Teich no Ministério da Saúde.

“Em meio a uma cirurgia complexa, troca-se o cirurgião duas vezes”, criticou Padilha, que já foi ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff.

Para Padilha, a política de saúde do presidente da República é “genocida” e por isso ele deve ser responsabilidade pelas mortes por coronavírus no País.

Teich deixou o Ministério após ser pressionado para liberar o uso da cloroquina, apesar dos alertas de que o medicamento é ineficaz para o tratamento de coronavírus.

“Gostaria muito que Bolsonaro estivesse certo em relação à cloroquina. Porém, não há ainda comprovações sérias sobre sua eficácia”, disse o médico Alexandre Padilha.

O parlamentar petista disse que assim como o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, Teich também apresentou discordâncias com o presidente Jair Bolsonaro sobre as medidas para combate ao coronavírus e o uso da cloroquina.

Nelson Teich ficou apenas um mês no cargo.