A bem-sucedida luta de Portugal contra a Covid-19 chama a atenção do mundo

O “Jornal Nacional”, de Portugal, publica na edição desta quinta-feira (8) uma reportagem sobre a bem-sucedida luta do país europeu contra a Covid-19.

A publicação relata que políticos e imprensa de todo o mundo buscam entender mais sobre o “milagre” lusitano, chamado também de “mistério”, que mostra a nação como uma exceção na Europa, que sucumbiu ao coronavírus.

De acordo com as autoridades sanitárias europeias, seguem alguns números a título de comparação:

  • Portugal, 14 mil casos e 409 mortes
  • Espanha, 150 casos e mais de 15 mil mortes
  • França, 115 mil casos e 12 mil mortes
  • Itália, 140 mil casos e 18 mil mortes

A discussão nos países mais afetados pela Covid-19 é sobre a “disciplina” do povo português, que entrou em isolamento social antes mesmo de o governo determinar, a questão geográfica, a estabilidade política e o fim da austeridade econômica que permite, por exemplo, a universalização e gratuidade de serviços essenciais para todos.

Leia a íntegra da matéria:

O “mistério” e a “exceção” na Europa. A luta de Portugal contra a Covid-19 vista pelo mundo

por Tiago Rodrigues, do JN

Os franceses começaram por chamar-lhe o “mistério português”. Foi num artigo de opinião da rádio France Inter, no penúltimo dia de março, ainda o número de infetados em Portugal tinha acabado de ultrapassar os 6000 e havia 140 mortes. Na mesma altura, França contabilizava quase 50 mil casos de Covid-19 e mais de 3000 mortes.

“Há um mistério português que tentaremos resolver juntos”, lia-se naquele artigo da rádio francesa, assinado pelo jornalista Anthony Bellanger. E o mistério era: enquanto Espanha – na altura com 85 mil casos e mais de 7000 mortes – estava “severamente confinada” e o governo tinha acabado de decretar a cessação de toda a atividade económica não essencial, os portugueses estavam “confinados e os espaços públicos fechados”, mas não havia sanções, nem era obrigatório um certificado de deslocação. Mas porquê? “Os portugueses são tão disciplinados que a repressão é inútil”, respondia António Costa.

Podia pensar-se que Portugal estava “a caminhar para uma catástrofe”, escrevia Bellanger. Mas a verdade é que, mais de uma semana depois, os números portugueses (quase 14 mil casos e 409 mortes até esta quinta-feira) continuam muito abaixo dos números de países vizinhos, como Espanha (mais 150 mil casos e mais de 15 mil mortes até quinta-feira), França (mais de 115 mil casos e mais de 12 mil mortes até quinta-feira) ou Itália (mais de 140 mil casos e mais de 18 mil mortes até quinta-feira).

Geografia e turismo: os segredos para o sucesso?

Como se explica então este mistério? Bellanger aponta algumas razões, começando pela questão geográfica: “Portugal é o único país do continente europeu a ter apenas um vizinho, neste caso a Espanha. É, portanto, o único país europeu em que o encerramento antecipado das fronteiras foi eficaz”, explica o francês.

Além da geografia, o turismo. “O país vive muito do turismo”, escreve o jornalista, justificando assim o facto de Portugal “não ter de enfrentar uma onda de casos importados”. “Só tem de gerir um pequeno grupo de visitantes um tanto solitários no meio do inverno”.

A terceira explicação é novamente geográfica: por estar no “extremo oeste da Europa”, Portugal pôde “ver o futuro”. “Ou seja, a epidemia – e a sua fase crescente – começou mais tarde do que em Espanha, França ou Itália”, conclui Bellanger.

Ou o segredo somos nós, os “portugueses disciplinados”?

O artigo de opinião segue à procura de respostas e o autor lembra que Portugal e França iniciaram o isolamento praticamente ao mesmo tempo, em 13 de março, enquanto os casos de Covid-19 no nosso país “ainda se contavam pelos dedos de duas mãos”. Quem tinha razão, afinal, era Costa: “os portugueses são disciplinados”, repetiu Bellanger, citando o primeiro-ministro português.

Isto porque em finais de fevereiro já os portugueses começavam a isolar-se, deixavam de ir a restaurantes e bares, já não levavam os filhos à escola. “Como resultado, muitas escolas fecharam ainda antes da decisão do governo por falta de alunos. O mesmo aconteceu com alguns negócios, especialmente nos centros das principais cidades do país: anteciparam a ordem de encerramento por falta de clientes”, recorda o francês.

O texto termina com uma nota política: Portugal tem uma “continuidade governativa”, algo de que Espanha, por exemplo, não pode “tirar proveito”, uma vez que teve quatro eleições legislativas desde 2015. E, ao contrário do país vizinho, os portugueses emergiram “da austeridade muito antes e com sucesso”. “Menos austeridade, menos cortes na saúde pública, um país mais bem preparado”, justifica o jornalista.

Os elogios aos portugueses não ficaram por aí: além de disciplinados, também são “generosos”. Em 28 de março, Portugal “decidiu regularizar todos os migrantes que apresentaram uma autorização de residência e renovar automaticamente as autorizações de residência que expiram”. “Generosidade, mas também medida de saúde pública: ao regularizar todos, o governo dá acesso a toda a população residente em Portugal ao sistema de saúde gratuito e universal: todos protegem todos da Covid-19”, conclui Bellanger.

Portugal é a “exceção” na Europa?

Dias depois da publicação do texto da France Inter, surgiam outros elogios, não só a partir de França, mas de outros países. O jornal francês “Le Figaro” perguntava, num artigo publicado em 3 de abril, se “Portugal é realmente uma ‘exceção’ europeia”, comparando mais uma vez com a “vizinha Espanha”.

“Em comparação com o número de habitantes dos dois países, há uma taxa de mortalidade de 20 mortes por um milhão de habitantes em Portugal, contra quase 2400 mortes por um milhão de habitantes em Espanha, ou 120 vezes mais. Uma diferença que não deixa de surpreender nos últimos dias”, lê-se naquele diário. “Comparado com o número de mortes de outros países da Europa Ocidental, Portugal parece ser a ‘exceção’. Tanto assim é que se evoca um ‘milagre’ português… correndo o risco de se falar cedo demais”, alertam os franceses.

Na Bélgica, a televisão pública RTBF questionava no seu site, em 5 de abril, por que é que “parece que Portugal está a ser poupado” à pandemia. Como resposta, os belgas apontam algumas das razões já lançadas pelos franceses, como a questão geográfica, a “disciplina” dos portugueses, a estabilidade política. E deixam ainda um elogio à “generosidade” relativamente aos imigrantes, que passam a ter “os mesmos direitos” que os portugueses. “Em suma, estão unidos e todos protegerão o vizinho da Covid-19”, lê-se no artigo.

Uma questão de “sorte”?

O embaixador do Reino Unido em Portugal, Chris Sainty, disse, em declarações ao portal Portugal Resident, que as qualidades do povo português “permitirão a Portugal vencer a batalha contra o vírus”. O diplomata destacou “a dedicação, coragem e resiliência das pessoas no serviço nacional de saúde, nos serviços de emergência e em muitas outras ocupações da linha de frente”, bem como a disponibilidade “para ajudar os idosos, os vulneráveis e os necessitados”.

Ainda mais cedo, em 19 de março, já o caso português fazia título num artigo da revista norte-americana Forbes, com a frase “o que precisa de saber agora sobre o coronavírus em Portugal: um estado de emergência” e assinado pela repórter de viagens Ann Abel, que vive em Lisboa. “Até agora, Portugal conseguiu evitar o crescimento explosivo de casos que outros países europeus tiveram”, escreveu. Uma “sorte” que “não deve durar”, avisava a autora.

Costa, o “herói improvável”?

Não bastassem os elogios à “sorte” de Portugal no combate à Covid-19, a discussão sobre a pandemia e os efeitos económicos que terá na Europa fez surgir um novo herói português. Depois do “povo disciplinado”, o primeiro-ministro “destemido”. O ministro das Finanças holandês, Wopke Hoekstra, tinha acabado de afirmar que a Comissão Europeia devia investigar países como Espanha, que afirmam não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pelo novo coronavírus. Um discurso que António Costa qualificou de “repugnante” e contrário ao espírito da União Europeia.

A posição do primeiro-ministro em defesa dos países do sul da Europa mereceu o reconhecimento dos vizinhos espanhóis, incluindo do rei Felipe VI. As declarações de Costa tomaram tal proporção em Espanha que alguns até pediam, na rede social Twitter, que o português fosse homenageado: “Uma praça com o nome de António Costa em cada povoação de Espanha”. Outros agradeceram o apoio de um “líder solidário e com capacidade de liderança” e houve também quem pedisse que, quando a crise provocada pela Covid-19 passar, Espanha tenha mais empatia com Portugal.

Rio, o “opositor sem oposição”?

Depois do exemplo de Costa, o exemplo de Rio. O líder do PSD, principal partido da oposição, afirmou, durante uma intervenção na Assembleia da República, em 18 de março, quando se votava a aprovação do primeiro período do estado de emergência, que”é preciso que o país saiba que o PSD apoia o Governo neste combate” e que António Costa pode contar “com a colaboração do PSD” num momento em que é preciso que todos sejam “soldados” para “ajudar Portugal a vencer com o menor número de baixas possível”.

“Este não é um Governo de um partido adversário, é o Governo de Portugal, que todos temos de ajudar neste momento”, afirmou Rui Rio na altura, apontando que o “PSD não é oposição, é colaboração”.

A atitude não passou despercebida no país vizinho, onde o jornal “Público” destaca um “discurso que parece simplesmente sensato diante de uma crise global de saúde com muitos mortos, mas que em Espanha parece ficção científica”. Num artigo em que se exaltam as palavras de Rui Rio, critica-se, por outro lado, o facto de a direita, a extrema-direita e os seus meios de comunicação terem deixado uma “cova aberta” para criticar o governo, “com acusações sérias” e “caindo em contradições”.

O jornal “Público” refere ainda que o “discurso do líder da oposição em Portugal faz inveja em Espanha”, exemplo de um “patriotismo real”.

Os espanhóis elogiaram tanto Rio como o fizeram com Costa e o vídeo do discurso do líder do PSD até foi partilhado pelo “Diario AS”, com o título: “Portugal a dar novamente o exemplo: o discurso aplaudido do líder da oposição”.

As palavras de Costa e Rio também chegaram aos Estados Unidos, no jornal “The New York Times”, que publicou na terça-feira uma reportagem em que analisa e compara os casos de Portugal e Espanha face à pandemia de Covid-19.

Segundo aquele diário norte-americano, o sucesso português deve-se sobretudo ao governo, que embora seja socialista como o espanhol, conta com uma oposição que tem apoiado o executivo frente a um inimigo comum.

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A marcha fúnebre de Bolsonaro e Guedes rumo ao STF

A fúnebre marcha do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de seu ministro da Economia (kkk), Paulo Guedes, rumo ao Supremo, está rendendo “memes” nas redes sociais.

Um dos integrantes do séquito bolsonarista disse na reunião com o presidente do STF, Dias Toffoli, que “haverá morte de CNPJs” se a economia não for reaberta imediatamente.

“Alô, empresário explorador de trabalhador! Enfia o CNPJ no rabo! Morto não compra, idiota genocida!”, protestou pelo Twitter o ator José de Abreu.

O jornalista Leonardo Sakamoto, assustado pelo viu e ouviu, escreveu que “CNPJ não morre, gente é que morre. Mas CPF de pobre tem aos montes, morre um, coloca outro no lugar. Já foram mais de 8,5 mil por Covid-19. Mas esse pessoal ainda acha que é pouco.”

Além da frase “haverá morte de CNPJ”, outras pérolas foram ditas pelos empresários na reunião entre Bolsonaro, Toffoli e Guedes: “A indústria está na UTI”.

“Tem CNPJ morrendo de má gestão, mas o contador é obrigado a colocar que foi coronavírus!”, ironizou o internauta Daniel Cassol.

O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) classificou a visita surpresa de Bolsonaro a Toffoli como a “Marcha da Morte”.

“Marcha da Morte! Bolsonaro junto com Guedes e empresários marcham até o STF para pedirem flexibilização do isolamento social. 600 mortes por dia, colapso na saúde, ajuda emergencial que não chega e Guedes diz que tem CNPJ que vai morrer, quem morre são pessoas e aos milhares”, indignou-se o parlamentar psolista.

A questão da “Morte de CNPJs” é mais uma evidência de que o bolsonarismo é nada empático com o sofrimento alheio, com perdas de vidas. Pelo contrário. Eles querem se aproveitar dessa tragédia humana, em plena pandemia de Covid-19, para se restruturar e maximizar o lucro. Ou seja, querem o financiamento público para demitir trabalhadores e salvar sua empresa da “má gestão” anterior a esse período especial.