Projeção de queda de 15% no PIB ajudou empurrar Moro para fora do governo

Os economistas da linha desenvolvimentista estimam que o PIB (Produto Interno Bruto) pode cair em até 15% no Brasil, neste ano de 2020, em virtude da crise econômica agravada pelo coronavírus.

A pior depressão econômica da história brasileira também carrega consigo milhões de desempregados. Não há uma estimativa atualizada, mas a OIT (Organização Internacional do Trabalho) calcula que o Brasil já seja a nação com o maior número de desocupados do mundo, reservada a proporcionalidade do número habitantes; esse diagnóstico negativo foi potencializado pela reforma trabalhista, que tirou direitos e jogou para informalidade milhões de trabalhadores que então usufruíam do benefício carteira assinada.

É nesse contexto econômico que a sobrevivência política falou mais alto e ajudou a empurrar o ex-ministro Sérgio Moro para fora do governo.

O presidente Jair Bolsonaro se viu ameaçado pela deterioração da econômica. Seu “Posto Ipiranga”, o ministro da Economia Paulo Guedes, só ajeitou a vida de banqueiros e especuladores. Ele e Bolsonaro, ao invés de combater o coronavírus, optaram em destruir os trabalhadores e o povo pobre brasileiro durante a pandemia que dura um mês e meio.

Governo e aliados na mídia dizem que Bolsonaro só cairá nas pesquisas de opinião, com vistas a 2022, se morrer muita gente em decorrência da infecção pelo coronavírus. No entanto, nesta manhã deste domingo (26), o Brasil fechou o balanço com 4.057 mortes e 59.324 casos de coronavírus. É preciso mais cadáveres? A política do fim do isolamento social poderá produzir um genocídio, como alertam as autoridades sanitárias mundiais.

Bolsonaro força a barra para acabar com a quarentena porque as famílias em casa têm tempo suficiente para perceber que estão cada vez mais pobres e, caso realmente fiquem paradas, sem trabalhar, o governo federal precisaria financiar esse período. Ou seja, teria de avançar sobre o Orçamento da União reservado para o pagamento de juros e amortizações da dívida interna (R$ 1,6 trilhão) –o que mexeria com o humor de felizes banqueiros e especuladores.

LEIA TAMBÉM
Argentina se retira das negociações do Mercosul devido à crise do coronavírus

Kakay: Uma “instituição” à beira da delação

Sindicato defende reestatização da Embraer para garantir empregos

Com o aumento de mortes por coronavírus, a economia deprimida pela escolha neoliberal, sua base política em adiantado estado de putrefação, não restou outra alternativa a Bolsonaro: entregar aos deputados e senadores do Centrão a cabeça de Maurício Valeixo, diretor-geral da PF, considerado o segundo braço de Moro [o primeiro decepado foi Roberto Leonel, do Coaf]. Sem os dois braços, o ex-juiz foi forçado a pedir para sair do cargo.

Bolsonaro preferiu ficar com o Centrão, o baixo clero, de onde ele emergiu e viveu por 28 anos na Câmara. Mais pelo instinto de sobrevivência do que por amor, mas fez uma escolha política. O objetivo, caro leitor, é ter um terço [171 deputados] de votos para barrar pedidos de impeachment. Ou Moro e a Lava Jato, ou o próprio mandato.

Na essência, com ou sem Moro no governo, as bases econômicas que ferram o povo continuam as mesmas. Os interesses de bancos e sanguessugas do mercado permanecem intactos. Porém, se a oposição for competente na comunicação, a rebordosa vai ser forte no governo.

Que governo atravessaria uma eleição imune a uma queda de 15% no PIB, cujos reflexos na economia ainda serão sentidos nos anos seguintes?

Os jornalões, a velha mídia, temem que a próxima vítima seja inexoravelmente Paulo Guedes, que, ao lado e Bolsonaro, sócio pela desgraça na economia. Os barões da mídia, para proteger o velho mascarado e de meias [sem sapatos], já gritam: o governo pode ser seduzido pelo “desenvolvimentismo” e pelo “populismo”. Só falta dizer que o presidente da República está sob a influência do comunismo, blá, blá, blá.

Bolsonaro foi acossado pelo coronavírus, pelo desemprego, pelo empobrecimento das famílias, pela brutal queda do PIB; ele decidiu entregar a cabeça de Moro e preservar a de Paulo Guedes, por enquanto, para assegurar o lucro de banqueiros e especuladores; por outro lado, a despeito de R$ 600 reais, a título de auxílio emergencial, o presidente combate com ímpeto de guerreiro os trabalhadores ao invés da praga do vírus.

Há, portanto, três componentes essenciais que o governo trabalha para estancar: 1. político (restabelecer-se com o Centrão); 2. econômico (aplacar a fome e o desespero); e 3. policial (troca na PF).

No final desse filme, o distinto público descobrirá que o verdadeiro vírus é Jair Bolsonaro –embora alguns continuarão sendo extirpados ao longo dessa jornada, a exemplo de Mandetta, Moro, et caterva.