Bolsonaro perdeu suas torres gêmeas

Publicado em 26 abril, 2020

Por Emir Sader – Bolsonaro chegou ao governo com a promessa de manter e aprofundar o modelo neoliberal e de intensificar a luta contra a corrupção. Com a primeira, ganhou o apoio de grandes empresas e conglomerados de mídia. No segundo, deu o pretexto para aqueles que, na verdade, queriam era um pretexto para impedir que o PT retornasse ao governo.

Nesta semana, as duas promessas foram diluídas. Diante da profunda recessão e do aumento do desemprego – que já existia antes da pandemia, mas que se multiplicaram – um grupo de ministros, coordenado pelo militar que aparece como substituto, na prática, do presidente Bolsonaro, o general Braga Neto, apresentou um plano de recuperação econômica, na direção oposta à política de Paulo Guedes, ainda ministro da Economia.

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Esse plano aborda uma evidente necessidade de investimentos estatais que sejam decisivas no combate à recessão e aponta para uma recuperação da economia na direção oposta à de Guedes. Este considera que deveam ser investimentos privados mais o uso das enormes reservas que os governos do PT acumularam. Guedes expressou sua decepção, devido à natureza desse plano, bem como sua ausência na apresentação do plano. É um sinal claro de que um dos pilares do governo, a política neoliberal e o ministro que a personifica, já estão no passado. Tudo indica que a carreira de Guedes no governo termina, junto com sua política.

O confronto que levou à demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça coloca em xeque o outro pilar do governo – o combate à corrupção. Além do fato de que tantos outros fenômenos já haviam denunciado a falsidade do compromisso de Bolsonaro na luta contra a corrupção, Moro representava essa luta no governo. Sua saída significa que esse compromisso deixa formalmente de existir.

Além disso, há ainda causas da demissão e as revelações de Moro sobre os comportamentos de Bolsonaro. Ele alegou vários motivos para sair. A primeira, o não cumprimento da carta branca para nomear os cargos vinculados ao Ministério da Justiça, incluindo, sobretudo, o de diretor da Polícia Federal, agora demitido por Bolsonaro sem consultar Moro. Em segundo lugar, os critérios políticos para remover e nomear um cargo tão importante. Terceiro e, talvez, o mais importante, a confissão de Bolsonaro a Moro, que está muito preocupado com os processos no Supremo Tribunal Federal, em particular, ele mencionou um processo diretamente contra seu filho. Assim mesmo, disse a Moro que precisa de um diretor da Polícia Federal com quem possa falar diretamente por telefone, obter informações, ter acesso a processos, atitude que prejudica diretamente a autonomia da Polícia Federal.

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Por trás da renúncia do diretor da Polícia Federal está a preocupação de Bolsonaro com processos contra seus filhos, em diferentes áreas. A atitude de Bolsonaro, nomeando uma pessoa diretamente ligada a ele como diretor da Polícia Federal, confirma a intervenção política.

Bolsonaro foi acusado de falsidade ideológica (ele assinou como se Moro tivesse firmado também a demissão do diretor da Polícia Federal, o que foi desmentido por Moro), obstrução da justiça (quando ele queria nomear o diretor da Polícia Federal submetido a ele) e crimes de responsabilidade (pelo conjunto de irregularidades).

Bolsonaro fez um movimento de reaproximação com partidos da direita tradicional no Congresso para ganhar votos e impedir a aprovação de um processo de impeachment contra ele, o que exige 2/3 dos votos. Por isso, ele precisava remover Moro e o diretor da Polícia Federal, a fim de prometer às partes que os processos de corrupção contra elas – e contra os filhos de Bolsonaro – não avancem.

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Mas os pronunciamentos de pessoas do órgão judicial revelam que esse pode ser o caminho para um processo por crimes de responsabilidade contra Bolsonaro. O clima de revolta contra Bolsonaro ficou mais forte porque ele provoca crises políticas no país, em um momento particularmente grave devido aos graves efeitos da pandemia no Brasil.

Bolsonaro acredita ser forte, porque tem o poder de remover e nomear até os ministros mais populares de seu governo, como os ministros da saúde e da justiça. Mas se isso mostra força em relação a esses ministros, seu governo enfraquece. A mesma ala militar do governo discute se deve continuar com ele ou se sai. O governo de Bolsonaro passa para outra fase, na qual, o melhor, seja sua fase final.

Emir Sader é filósofo, professor de sociologia e cientista político.

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Artigo publicado originalmente no jornal argentino Página 12.