Roberto Amaral: Briga de Bolsonaro com PSL é disputa sórdida pelo butim

Publicado em 19 outubro, 2019
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Na opinião de Roberto Amaral, cientista político e ex-presidente do PSB, a insólita crise envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e sua família, de um lado, e lideranças de seu partido, o PSL, de outro, “é uma briga clássica da velha política, pelo butim, pelo fundo partidário e recursos do PSL”. “Não tem nada de ideológico, é uma briga sórdida. Não precisamos repetir sobre o regressismo político, a crise, 2013, as fake news, tudo isso que provocou a aventura de partidos de ocasião.”

Para ele, como em 1989 em torno de Fernando Collor, as siglas de ocasião, sem consistência política ou programática, não passam de um “artifício jurídico”, que, no caso do PSL, só serviu para “que o capitão fosse candidato”.

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Segundo a Folha de S. Paulo, o grupo representado pelo deputado federal Luciano Bivar (PE), presidente do PSL, calcula que, com a saída de Bolsonaro e aliados do partido, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), vá para a atual sigla do presidente da República. Ainda segundo o jornal, em 2020, o PSL poderá ter R$ 350 milhões, considerando as estimativas de que o fundo partidário terá R$ 1 bilhão e o governo propõe R$ 2,5 bilhões para o fundo eleitoral.

No momento, Amaral não acredita que a crise no partido ameace Bolsonaro. “O sistema financeiro está felicíssimo com ele. Nunca ganhou tanto quanto agora. O agronegócio está felicíssimo. Ele está dando tudo o que o sistema desejaria. A reforma trabalhista (feita por Temer) está aí, e a previdenciária. Por que vão ficar contra ele? Porque está atrapalhando a ciência e tecnologia? O sistema brasileiro nunca se preocupou com isso. Está voltado ao exterior, não está comprometido com o desenvolvimento nacional.”

Enquanto isso, a população brasileira segue preocupada com seu próprio cotidiano e o ex-presidente do PSB questiona: como chegar à população e explicar às pessoas do povo o que está acontecendo com o Brasil sob o governo Bolsonaro? Como mostrar o significado do desmonte da educação, da ciência e tecnologia, da ideologia e da violência e do culto às armas para elas próprias? Ou da entrega do pré-sal e o desmonte da Petrobras?

“Antigamente, nas chamadas periferias, estavam as comunidades eclesiais de base, os comunistas e os trabalhistas, que organizavam a sociedade. Essa gente saiu e ficaram no lugar os neopentecostais, as milícias e o tráfico. E não é só no Rio de Janeiro. Esse é o quadro brasileiro. Milícia, tráfico, isso está no cotidiano do povão.”

Amaral se diz frustrado com a dificuldade de superar o poder midiático. “Olhe a cobertura dos jornais. Olhe a Globo, a cobertura dos telejornais, o que o povão assiste. Como vou explicar essas coisas terríveis à minha faxineira? Ela me chega todo dia com história de assalto”, conta.

“Como vou explicar a ela a demolição da questão ética? Fico chateado comigo.” A preocupação das pessoas do povo, diz, é com emprego, transporte, violência e saúde. “Nós não temos resposta sobre nada disso. Eu tenho que falar sobre Lula livre, que esse camarada (Bolsonaro) está destruindo a Petrobras e que a destruição da Petrobras vai bater nela. Ela vai compreender? Essa é a nossa tragédia.”

Diante desse quadro generalizado de manipulação mental pelo sistema de comunicação, com uma população aterrorizada diante da violência, acuada pelo crime, não é de estanhar que os governos Temer e Bolsonaro tenham conseguido impor as reformas trabalhista, da Previdência e as privatizações sem que houvesse reação capaz de frear o ímpeto ultraliberal que ameaça o futuro das próximas gerações de maneira estrutural, avalia Amaral.

“Somos o único país que fez uma reforma trabalhista sem uma greve. Em todos os outros países houve pancadaria. Veja a França (em 2017). Fizemos a reforma da Previdência sem um tumulto. Estamos desmontando todas as estatais sem um ‘ai’. A Petrobras está sendo destruída ativo por ativo, e quando terminar só terá a extração, que é cara. Deixamos de refinar petróleo para exportar óleo cru, e não há protesto”, lamenta. “O governo está desmontando o sistema de ciência e tecnologia, e o mundo segue.”

A bola da vez, observa, é a reforma administrativa, “para acabar com o serviço público”. Esse deve ser, junto com a reforma tributária, o próximo investimento político do governo. Um dos objetivos será a possibilidade de se criar e extinguir órgãos e ministérios por decreto, o que hoje depende da chancela do Congresso. Enxugar as carreiras e novas regras de contratação estão no horizonte dessa reforma.

Por RBA

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