Enio Verri: Viva a revolução agricultura familiar

Publicado em 24 setembro, 2019
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O deputado Enio Verri (PT-PR) equipara o atraso de Bolsonaro ao de Ratinho, o filho, governador do Paraná.

Para o articulista, Ratinho Junior segue o receituário pouco inteligente do ultraliberalismo e decide, assim como o seu colega federal, transpassar um feixe de varas de aço entre os raios da roda da economia.

Verri se refere ao despejo da comunidade José Rodrigues, no município de Laranjal, região central do estado, quando 56 famílias foram desterradas para dar lugar à improdutividade.

“Em nome do rentismo, Ratinho mata o futuro”, denuncia o parlamentar petista.

Viva a revolução agricultura familiar

Enio Verri*

O modo de fazer política do governador Carlos Massa Ratinho Júnior se assemelha muito ao do Bolsonaro. Sem proferir as sandices e abjeções do presidente, Massa segue o receituário pouco inteligente do ultraliberalismo e decide, assim como o seu colega federal, transpassar um feixe de varas de aço entre os raios da roda da economia. Desde que tomou posse, Massa já promoveu seis despejos contra trabalhadores rurais e indígenas. O último foi na quinta-feira (19), quando 56 famílias, cerca de 160 pessoas da comunidade José Rodrigues, no município de Laranjal, região central do estado foram desterradas para dar lugar à improdutividade. A comunidade será arrastada para o centro urbano, onde não há como assentar com dignidade essas famílias. O efeito será a ocupação desordenada, o aumento da pressão sobre o solo e o consumo dos serviços públicos, como o de água e o de energia elétrica. Isso sem falar no desemprego e no subemprego.

De toda forma, a medida revela alguns aspectos de Júnior, além da pusilanimidade. De um lado, temos um governador que não respeita acordos, como o estabelecido com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), poucos dias antes da ação de despejo. Ratinho, diante dos demandantes, assumiu o compromisso de rever as ações de despejo, criar a Vara da Justiça para Mediações de Conflitos Agrários e fazer funcionar a Comissão Estadual de Mediação de Conflitos Fundiários. Como não cumpriu a primeira parte, é de se esperar que as demais, também, não sejam cumpridas pelo governador, uma vez que não é a primeira vez que ele demonstra para quem governa. Ao invés de defender a terra para quem nela trabalha e a faz produzir frutos, Massa deixa a terra voltar para as mãos de quem a deixou ociosa e improdutiva, esperando ganhar na especulação imobiliária. Em nome do rentismo, Ratinho mata o futuro. Os mais de 50 estudantes do acampamento, agora, estão sob a incerteza de continuidade dos estudos. A elite pretende recriar, como nos tempos de Fernando Henrique Cardoso, um gigantesco exército de mão de obra de custo miserável, enquanto ela se refestela em condomínios fechados e shoppings.

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O mais pernicioso da inação do governador é a sua contribuição para criar uma crise econômica para Laranjal. Nem mesmo ouvindo os apelos do prefeito e de deputados estaduais saiu em defesa do desenvolvimento do município e de sua gente. Devido ao seu distanciamento, de berço, da realidade paranaense, é natural que Júnior não perceba, mas é estarrecedor que o estado não lhe tenha fornecido um assessor para informar que, municípios mais ou menos do tamanho de Laranjal, com cerca de oito mil habitantes, são extremamente dependentes de duas coisas: do Fundo de Participação dos Municípios e do que produz a maior revolução brasileira, os acampamentos e assentamentos dos trabalhadores rurais sem terra. Segundo uma pesquisa da prefeitura, a produção do acampamento é impressionante. Leite, carne de boi, aves e de porco, milho e feijão contribuíram com cerca de R$ 1,8 milhão para a formação do PIB municipal.

Tudo isso deixará de ser produzido porque o governador entendeu que a terra improdutiva é melhor para alguns paranaenses. A partir de agora, arrancado do seu meio de produção e habitando a periferia de uma pequena cidade, a renda média, de R$ 1.300, auferida pelos trabalhadores rurais, deverá oscilar entre R$ 300 e R$ 980. E a precarização das condições de trabalho e de moradia é líquida e certa. Caso faltasse mais alguma coisa para revelar o governador Ratinho e para quem ele governa, a sociedade está sobejamente informada sobre o caráter desse governo. Porém, pior que a ignorância, é a consciência sem a ação e a reação. Por esse e por outros atos, o governador deve ser confrontado nas ruas e os paranaenses têm a obrigação moral e estratégica de apoiar a luta dos trabalhadores rurais. Moral porque é indecente deixar uma terra parada, enquanto há tanto braço em busca de trabalho e que sabe fazer a terra produzir. E, estratégico, porque a agricultura familiar produz o que está na mesa de todos os brasileiros. Simples assim.

*Enio Verri é economista e professor licenciado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e está deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores do estado do Paraná.

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