Um projeto contra o país

Publicado em 11 julho, 2019
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O que podemos chamar de bolsonarismo (com ou sem o capitão) investe com vigor na destruição de nosso futuro. Incompetente no mais, nesta tarefa exibe inusitada proficiência, pois vai à raiz do essencial, ao fazer do conhecimento seu inimigo número 1. Porém, sequer nisso é original, pois simplesmente segue o script típico de todo regime de ultradireita, em todos os tempos.

Assim na Espanha franquista, assim na Alemanha de Hitler, assim no Brasil dos idos da última ditadura.

Nada disso nos é estranho.

Jamais por loucura, mas inegavelmente por método, o capitão, pajeado pelos seus generais, acirra o esgarçamento social e estimula o ódio, investe na desconstrução do pacto nacional e promove o conflito.

Rejeita o papel de magistrado – inerente ao cargo de Presidente da República – para portar-se como chefe de facção. Não é e não sera, jamais, um magistrado, um estadista, não apenas por não ter o necessário preparo, mas porque não deseja sê-lo. Está no cerne de sua formação – e viceja no espaço político-ideológico em que atua, e que cultiva – a desconfiança irremovível em relação às instituições democráticas, Presidência incluída.

Desorganiza as instituições e, semeando sempre ventos, não teme colher tempestades. Ao contrário, é delas que se nutre.

O confronto, a ação direta, o apelo à “voz das massas” (com os riscos das vaias do Maracanã) é sua tática; a política de terra arrasada é sua estratégia.

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A síntese das variadas versões conta a provocação do general falangista Millán-Astray interrompendo uma sessão de colação de grau na Universidade de Salamanca, em outubro de 1936, aos gritos de “Morra a intelectualidade traidora! Viva a morte!”. Nos albores do nazismo fez fama a frase “Quando me falam em cultura, eu puxo o revólver”, atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propagada de Hitler. Entre nós ficou célebre o artigo de Alceu Amoroso Lima (“Terrorismo cultural”, Jornal do Brasil, 7/5/1964) denunciando o regime de trevas que a ditadura militar começava a montar ao eleger estudantes, intelectuais, artistas, pesquisadores, professores em geral como adversários a serem expelidos da vida nacional.

O que se seguiu, entre nós, é história sabida, com o ataque à universidade (que, para além do corte de verbas, compreendeu invasões por tropas militares) e seus estudantes, professores e pensadores, com o rol de demissões, prisões e exílio tendo como pano de fundo implacável censura aos órgãos de imprensa, às atividades artísticas e culturais e à atividade editorial.

Censura generalizada de um lado; de outro, apoio da grande imprensa. A história do grupo Globo (de sabujice bem recompensada) não constitui exceção.

Os tempos mudam, os regimes e as ideologias mudam em suas feições, em métodos, o que não muda é a ojeriza do autoritarismo (sempre a caminho do totalitarismo) à inteligência e ao pensamento livre. As falanges franquistas faziam frente ao que chamavam de “pseudo-intelectualidade liberal maçônica”, o hitlerismo exorcizava os comunistas e os judeus. O governo – aqui representado pelo capitão, os generais associados e penduricalhos como o ministro da Educação –move guerra sem tréguas contra a ciência, contra a educação, contra a pesquisa, contra a inteligência. Dizem seus porta-vozes estar combatendo um tal de “marxismo cultural”.

Os antigos comandos de caça aos comunistas – dos primeiros tempos da ditadura e que se anteciparam ao golpe – são agora comandos de caça à escola livre, à liberdade de cátedra, ao ensino e à pesquisa, à Razão, em suma. E para combatê-la o novo regime vai direto ao ponto: a universidade e, de especial, a universidade pública, responsável por 90% da pesquisa científica. Após cortar recursos destinados às bolsas de estudos que formam nossos doutores, nossos professores e nossos pesquisadores, e o custeio de investigações na fronteira do conhecimento, o bolsonarismo investe contra o ensino das chamadas ciências humanas – nomeadamente sociologia, antropologia e filosofia –, as fontes por excelência da reflexão criadora.

Não nos iludamos, pois o governo sabe o que pretende: o retrocesso na educação, no desenvolvimento cientifico e tecnológico, sobre ser um crime de lesa-pátria, é uma ameaça à democracia.

O corte de verbas destinadas ao ensino é um atentado contra o futuro de nosso país, e contribui para aprofundar as desigualdades sociais, afastando do ensino superior milhares de jovens sem condições de custear sua própria educação. Mas não encerra a tragédia toda, pois, presidindo as ações do novo regime, há uma visão ideológica de mundo e de sociedade que antepõe o retrocesso ao avanço, o passado ao futuro, antagoniza o saber e a razão. O ataque à educação é, nesses termos, uma consequência lógica; já em si grave, ele, é, fundamentalmente, o indicador de um projeto de sociedade que caminha para o obscurantismo. É a ponta afilada de um iceberg de base larga e profunda.

A serpente, poupada ainda na casca do ovo, começa a rastejar e logo poderá estar picando o liberal incauto.

O fato objetivo é que estamos sob a regência de uma assumida política de desconstituição de qualquer sorte de projeto nacional de desenvolvimento, pois desenvolvimento é impensável em país cujos dirigentes discutem se a Terra é plana, questionam a teoria da evolução, negam o aquecimento global, relegam a plano secundário a preservação ambiental, detestam as riquezas naturais, os índios e os negros, os professores, os estudantes e os artistas (veja-se, a propósito, com que desprezo o governo recebeu a eleição de Chico Buarque de Holanda para o Prêmio Camões, o sucesso de nossos cineastas em Cannes e as mortes de Beth Carvalho e João Gilberto).

O enfrentamento é, pois, a essa visão retrógrada de mundo que chega mesmo a ser anacronicamente anti-iluminsta.

Estas considerações vêm a propósito do Manifesto “Ciência, Tecnologia e Inovação em Estado de Alerta”, assinado por dez ex-ministros de Ciência e Tecnologia, representando todos os governos da restauração democrática, de Fernando Collor a Dilma Rousseff, que se reuniram no último dia 1º na COPPE (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa em Engenharia), na simbólica e maltratada Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Os ex-ministros denunciam a desconstituição do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, com o esvaziamento do CNPq, da CAPES e da FINEP, o contingenciamento dos fundos de financiamento que compõem o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FNDCT, os cortes que atingem os Institutos de Pesquisa e as Organizações Sociais vinculadas ao Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação, comprometendo sua produção. Observam que “[…] o Brasil precisa avançar a uma velocidade superior à da fronteira do conhecimento, sob pena de termos, na melhor das hipóteses, uma estagnação cademic”.

Mas, se precisamos avançar, a política do governo que aí está impõe o atraso. E, até aqui, ela está ditando as regras.

A resistência à consolidação do atraso, porém, pede forças para além dos limites da vida universitária e cobra alianças inclusive com o empresariado, principalmente com aquele mais diretamente ligado ao desenvolvimento tecnológico e à inovação.

No mundo contemporâneo, não há exemplo de país com as características do Brasil em termos geográficos, de recursos naturais, demográficos e culturais, que tenha se desenvolvido sem uma capacidade industrial compatível com suas necessidades. Mas o inverso é igualmente verdadeiro: não há desenvolvimento industrial sem desenvolvimento tecnológico e inovação, que depende de desenvolvimento científico, que, por sua vez, depende do saber cademic, da qualidade da educação (desde o ensino médio) do ensino e da pesquisa em nossas universidades.

Essa resistência, todavia, dependerá, fundamentalmente, do encontro da Academia com a sociedade.

Um abraço saudoso para Paulo Henrique Amorim. Vai fazer falta.

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