Intercept denuncia em editorial armação de Moro; leia a íntegra

Publicado em 25 julho, 2019

O editor geral do The Intercept Brasil, Andrew Fishman, publicou nesta quinta (25) editorial denunciando a armação do ministro Sérgio Moro contra a equipe de jornalistas do site que também atentam contra a liberdade de imprensa no País.

De acordo com o editor geral, a tentativa de a Polícia Federal –órgão subordinado a Moro– ligar supostos hackers ao trabalho do Intercept seria mais um entre tantos ataques desde que o site começou a publicar a série “As mensagens secretas da Lava Jato”.

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“Moro e seus aliados querem abafar as revelações da #VazaJato, desviar o foco da sociedade e deslegitimar o jornalismo sério e contundente”, diz um trecho do texto.

Os mundos da política, do jornalismo e do direito aguardam ainda para hoje novos diálogos que seriam os mais cabeludos já divulgados até agora.

A conferir.

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Abaixo, a íntegra do editorial do Intercept:

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Nós noticiamos, eles nos atacam

Na tarde de terça-feira supostos hackers foram presos pela Polícia Federal em São Paulo e Araraquara. Grande parte das notícias já publicadas na imprensa se limitaram a reproduzir informações vazadas de fontes da PF.

O Intercept não comenta assuntos relacionados à identidade de suas fontes anônimas. O sigilo de fonte é um direito garantido pela Constituição Federal de 1988.

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A tentativa de ligar supostos hackers ao nosso trabalho é mais um entre tantos ataques desde que começamos a publicar a série “As mensagens secretas da Lava Jato”. Nós alertamos em editorial publicado em 15 de julho que esta era a estratégia do ex-juiz Moro e dos membros da força-tarefa diante da abundância de provas da autenticidade do material obtido pelo Intercept. Dizia o editorial:

Diversas fontes disseram ao Intercept ao longo dos últimos dias que a Polícia Federal, durante o afastamento do ministro Sergio Moro, está considerando realizar essa semana uma operação que teria como alvo um suposto “hacker”, que hipoteticamente seria a fonte do arquivo. Esse suposto hacker seria estimulado a “confessar” ter enviado o material ao Intercept e o adulterado.

Moro e seus aliados querem abafar as revelações da #VazaJato, desviar o foco da sociedade e deslegitimar o jornalismo sério e contundente. É por conta dessa estratégia injusta e falsa, que tem como objetivo parar nosso trabalho, que eu estou escrevendo para você.

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Neste momento, precisamos de aliados como você. Milhares de pessoas decidiram mostrar que acreditam em uma imprensa livre, independente e corajosa e se juntaram a nós como apoiadores do TIB. Isto nos deixou mais fortes do que nunca e abriu novas possibilidades para nosso trabalho — nos permitindo fazer o que o público espera de nós: jornalismo de impacto. Nós assumimos riscos para fazer o nosso trabalho porque acreditamos que é importante. Agora preciso que você também faça sua parte.

Desde a primeira reportagem publicada foram muitas as tentativas de criminalizar o que fazemos. Promotores foram a público pedir a prisão dos profissionais que trabalham com o material da #VazaJato, disseminou-se a informação de que esses profissionais seriam alvo de investigações ilegais. Eles mentiram — e foram desmentidos inúmeras vezes — sobre a veracidade do material.

Ontem, Moro, apesar de o inquérito da Polícia Federal estar em andamento, precipitou-se e publicou no Twitter que os supostos hackers presos seriam a nossa fonte — uma declaração que foi contrariada por um delegado graduado da PF para nosso colega Rafael Moro Martins, em Brasília. Além disso, alguém passou o dia inteiro vazando informação para O Antagonista, que publicou tudo com alegria e sem qualquer questionamento. Tempos estranhos esses em que um ministro da Justiça comenta sobre investigações em andamento, investigações nas quais, aliás, ele tem interesse direto.

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A deputada Joice Hasselmann, por sua vez, não teve pudor ao atacar Glenn Greenwald e insinuar que algo aconteceria com um jornalista que exerce seu direito de noticiar livremente. O mesmo foi feito pelo deputado Filipe Barros que foi a público pedir apreensão do passaporte de Glenn e sua família.

As condutas de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e da força-tarefa demonstrada nas reportagens da #VazaJato são indefensáveis. E com essa afirmação concordam diversos analistas independentes, juristas, jornalistas e (ex-)apoiadores da Lava Jato. Constatada a inegável autenticidade do material e a gravidade do que foi revelado não restou outra estratégia aos envolvidos: decidiram afirmar que somos “aliados de criminosos” e criminalizar o ato de noticiar. Seu exército de bots nas redes sociais tratou de disseminar essa mentira (e nos perseguir).

Enganar os cidadãos, desviar o foco do debate público que realmente interessa (os abusos cometidos pela operação Lava Jato) e atacar jornalistas são golpes baixos com implicações sérias. Os ataques contra a #VazaJato, na realidade, não têm apenas o Intercept como alvo. Mas toda a imprensa autônoma e aqueles que prezam pela democracia.

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Nós continuaremos fazendo exatamente o que essa galera mais teme: exercendo nosso trabalho com o rigor jornalístico que sempre pautou nossa redação. Ele é instrumento essencial em qualquer democracia e só existe com independência, coragem e transparência. Suas táticas de intimidação não vão abafar a verdade.

Esta luta será longa e eu espero, sinceramente, não deixar de contar com seu apoio. Atualmente temos mais de 10,300 pessoas corajosas ao nosso lado, gente que contribui mensalmente com o que pode para fortalecer o trabalho do Intercept e garantir que as reportagens não parem.

Se você é uma dessas pessoas, obrigado por estar com a gente. Se ainda não se inscreveu, agora é mais importante do que nunca. Vamos mostrar para eles que estamos unidos e fortes. Junte-se a nós, porque ainda temos muito mais para reportar.

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Um abraço,

Andrew Fishman
Editor Geral