Por Milton Alves

Alerta: A escalada autoritária e obscurantista do governo Bolsonaro

Publicado em 23/07/2019

BRASÍLIA, O presidente Jair Bolsonaro na solenidade de posse do comandante do Exército.  (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

O governo Bolsonaro está se tornando cada vez mais autoritário e uma ameaça real à democracia. Cada vez mais prepotente, Bolsonaro desafia e pressiona abertamente as instituições do Estado – Congresso, Corte Suprema e demais setores do aparelho de estado que ainda não estão sob o seu absoluto controle político.

O governo bolsonarista opera os instrumentos de instalação do autoritarismo em três frentes. A 1º é a frente de combate ideológico, com o desmonte dos centros de pensamento independente e crítico: As universidades, as instituições de pesquisa científica e a desarticulação e esvaziamento dos organismos culturais no aparelho estatal. Além disso, o governo montou uma permanente e azeitada rede comunicação na internet, difamando e destruindo a reputação de seus opositores. Na mídia corporativa, selecionou as emissoras Record e SBT para difundir os projetos de seu governo e adotou também a política de “filtros ideológicos” na comunicação oficial.

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A segunda frente: É a gestação dos mecanismos do estado policial, com o fortalecimento do papel de articulação dentro do governo do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), a transformação da Polícia Federal em polícia política de fato, a naturalização do modus operandi da Lava Jato em escala nacional com o ministro da Justiça Sérgio Moro e o jugo do aparelho judicial (STF e de instâncias intermediárias com o empoderamento de juízes de extrema-direita).

Ao mesmo tempo, o governo Bolsonaro aciona um arsenal de medidas para facilitar a criminalização dos movimentos sociais. E persegue o fim de qualquer interlocução com a sociedade civil nas instâncias de governo, como os conselhos de participação social, que nos últimos dias sofreram um intenso processo de depuração interna.

A 3º frente: O movimento político do bloco social e orgânico do bolsonarismo. Ele conta com um núcleo duro e consistente de apoio social no país que oscila em torno de 20% . É o setor social mais identificado com as bandeiras antidemocráticas, excludentes, racistas e antissociais do presidente. As últimas pesquisas do Datafolha apontaram dois blocos mais sólidos de apoio ao governo da extrema-direita: Um primeiro que reúne o apoio de uma faixa da população de renda superior a 10 salários mínimos, de maioria branca, educação superior, situada nas áreas nobres das grandes cidades e nas regiões ricas do interior do centro-sul do país.

A segunda fatia abrange, grosso modo, a antiga “classe média lulista”, que ganha de 3 a 5 salários mínimos, que mora em subúrbios e regiões periféricas das grandes cidades, com destaque para os evangélicos, pequenos comerciantes e integrantes de forças policiais.

O contingente mais abastado se aglutina em movimentos protofascistas (Direita SP, Direita Curitiba, grupos conservadores de diversas matizes [olavistas em geral], monarquistas, terraplanistas, adeptos do redpill, entre outros); nos numerosos clubes de tiro espalhados pelo país e nas academias de “marombeiros” e de lutadores de jiu jitsu. Entre os mais pobres, o grande estuário que impulsiona organicamente o bolsonarismo está situado nas igrejas pentecostais. Há ainda as ligações da corrente bolsonarista com as facções do crime organizado que atuam nas periferias e comunidades pobres. Portanto, esses são os setores e as bases mais mobilizadas e militantes a favor do governo de Bolsonaro.

Bolsonaro tenta de forma consciente e metódica, apesar de aparentemente errático e confuso, a mudança da natureza do regime político herdado pelo pacto social da Constituição de 1988. Pretende instituir um novo modo de governar com traços bonapartistas e autoritários.

O projeto estratégico da extrema-direita, com a anuência da burguesia rentista e antinacional, é a instalação de um regime de democracia restrita e tutelado pelo alto comando das Forças Armadas, ultraliberal e de supressão de garantias sociais para os pobres – vide o exemplo da reforma da Previdência ainda em curso.

Para a esquerda partidária e social, somente uma resistência de conteúdo popular e de massas, ativa e mobilizadora – impulsionada a partir das bases sociais dos trabalhadores organizados, do precariado dos grandes centros urbanos, da juventude e das camadas médias profissionais -, será capaz de criar uma muralha política para derrotar o projeto da extrema-direita. Sem essa base social mobilizada e em luta por um projeto alternativo a favor da maioria do povo, a esquerda será cada vez mais batida e isolada. Ou ficará a reboque de setores burgueses dissidentes do bolsonarismo.