Por Milton Alves

A classe trabalhadora acossada pelo desemprego, a precarização e o desalento

Publicado em 02/07/2019

No filme italiano A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971) – dirigido por Elio Petri, protagonizado por Gian Maria Volontè e com trilha sonora do genial Ennio Morricone, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1972 – Lulu Massa (personagem de Volontè) é um operário padrão que bate todos os recordes na produção de peças para motores na fábrica BAN. O que motiva um forte ressentimento nos seus companheiros de trabalho. Nos anos 70, o cenário retratado pelo filme mostra uma classe trabalhadora vivendo um período de conquistas salariais e de melhoria no padrão de vida. Uma fase de quase pleno emprego na Itália e do início da introdução de novos métodos de trabalho. Apesar da presença constante e ameaçadora do chamado “exército industrial de reserva”, havia opção de emprego para a classe trabalhadora e uma ampla oferta para os operários mais especializados e escolarizados.

A introdução fílmica é uma “muleta” para analisarmos o contexto atual da classe trabalhadora nessa segunda década do Século 21, que atravessa um longo e penoso período de redução de direitos e conquistas, de enfraquecimento profundo da organização sindical e do crescimento do desemprego estrutural e conjuntural, resultado das sucessivas crises do capitalismo no centro e na periferia do sistema, com novos contornos desde 2008. Além disso, no plano político, os partidos socialistas e anticapitalistas identificados com a classe trabalhadora atravessam um período de lenta acumulação de forças e atuam num quadro geral de defensiva.

Aterrissando para o nossa dramática situação. Os dados divulgados pelo IBGE na última sexta-feira (28) apontam para um quadro sombrio e difícil para os trabalhadores brasileiros, cada vez mais, acossados pelo desemprego, a precarização e o desalento.

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Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) cravam um desemprego de 13 milhões de trabalhadores no trimestre encerrado em maio. O número de trabalhadores por conta própria, que faz bicos para sobreviver ou abre pequenos e precários negócios, atingiu 24 milhões de brasileiros. Mais uma vez, o total do que alguns chamam de “empreendedores” bateu o recorde da série histórica e subiu nas duas comparações: 1,4% (mais 322 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e 5,1% (mais 1.170 mil pessoas) frente ao mesmo período de 2018.

A taxa de subutilização da força de trabalho (25%), que atinge 28,5 milhões de brasileiros, é recorde da série histórica iniciada em 2012 e registrou alta em comparação ao trimestre anterior (24,6%) e ao trimestre móvel de 2018 (24,6%). A subutilização da força de trabalho é formada pelo total de desempregados (13 milhões), subocupados, que são as pessoas que gostariam e poderiam trabalhar mais horas e não conseguem (7,2 milhões), e a força de trabalho potencial (8,3 milhões).

Na condição de desalentados, ou seja, trabalhadores que perderam a perspectiva de encontrar um emprego e se encontram esmagados psicologicamente, com a autoestima dilacerada, os números da pesquisa apresentam também um recorde na série histórica com 4,9 milhões de desalentados.

A pesquisa também apresenta a redução do rendimento médio do trabalhador, que ficou em R$ 2.289, o que significa uma queda de 1,5% na comparação com o trimestre anterior e estabilidade em relação ao mesmo período do ano passado.

A situação imediata e de médio prazo não indica melhora no cenário da economia do país. As previsões para o Produto Interno Bruto (PIB), em 2019, oscilam para baixo, na casa do menos um. Segundo o boletim Focus do Banco Central divulgado nesta segunda-feira (1º) a expectativa é de um PIB de 0,8%.

Para além da dramaticidade dos números, a classe trabalhadora enfrenta ainda um governo hostil, sem projeto para recuperar a economia e tirar o país da recessão. Um governo que aposta todas as suas fichas em liquidar direitos, em acabar com o sistema público e de repartição solidária da Previdência Social e que tensiona criminalizar a resistência sindical e popular.

A greve geral de 14 de julho, que colocou em movimento milhões de trabalhadores, foi um primeiro e importante passo na resistência ativa ao governo de Bolsonaro. É preciso mais luta! É preciso generalizar o movimento: organizar comitês de desempregados nas capitais e áreas metropolitanas, preparar uma grande marcha até Brasília e demandar um plano de emergência para enfrentar a catástrofe do desemprego, com a retomada das obras públicas paradas, linhas de financiamento do BNDES para expandir os pequenos e médios empreendimentos e abrir frentes de trabalho em parcerias com as prefeituras nas regiões com maior depressão econômica.

A luta contra o desemprego e a recessão é inseparável da luta para derrotar globalmente o projeto autoritário e excludente do governo Bolsonaro de neoliberais, generais e tribunais.