Requião escreve carta a Bolsonaro: “livre-se de Guedes”

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Roberto Requião (MDB-PR) escreveu uma carta ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) fazendo uma inusitada recomendação: “livre-se de Guedes”; o ex-senador paranaense sugere parar a reforma da previdência, rever a reforma trabalhista e os contratos de exploração do pré-sal, bem como mudar a política de preços dos combustíveis da Petrobras.

Leia a íntegra do documento:

Caro Presidente Bolsonaro,

O senhor não fez muitas promessas de campanha, exceto no plano moral. A situação do Brasil, entretanto, exige decisões urgentes para o enfrentamento de uma crise sem precedentes que desafia qualquer estadista, mesmo o que não fez promessas econômicas de campanha. No campo da economia, fundamental para a vida de qualquer Nação, o senhor reconheceu o seu desconhecimento e entregou a tarefa a Paulo Guedes, com plenos poderes.

Como sou mais velho e certamente mais experiente que você em questões da administração pública, vou dar-lhe um primeiro conselho: livre-se de Guedes, que nada mais quer que experimentar o neoliberalismo radical no Brasil. Em termos de política econômica, é uma continuidade grotesca do plano Ponte para o Futuro, do governo anterior, que ajudou a afundar o país em profunda recessão e numa situação sem precedentes de alto desemprego.

A sociedade repele a reforma da Previdência de Guedes e suas toscas medidas de autoridade, incluindo o contingenciamento de recursos orçamentários que vai paralisar no segundo semestre o funcionamento das universidades, incluindo a pesquisa científica e tecnológica. A Nação não tolerará uma reforma previdenciária feita contra os pobres, destinada exclusivamente a implantar um regime generalizado de capitalização a favor dos bancos.

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Reveja a reforma trabalhista de Temer: ela foi feita contra o trabalhador favorecendo exclusivamente patrões e sistema financeiro. A combinação dessa reforma com a pretendida reforma previdenciária é um recuo secular em matéria de políticas sociais no Brasil, estabelecendo condições para inevitáveis convulsões sociais. O regime de capitalização, combinado com a chamada carteira verde-amarela, liquidará a Previdência pública.

Coloque a Nação como prioridade absoluta na política de exploração do petróleo do pré-sal, a mais promissora reserva natural de que dispomos. O governo anterior e um grupo de congressistas vendidos às petrolíferas estrangeiras violaram os interesses nacionais, entregando imensas jazidas conhecidas de óleo e gás, sem praticamente nenhuma notícia do esbulho à sociedade brasileira, aproveitando-se de um Congresso omisso.

Mande rever os contratos de exploração estrangeira do pré-sal, de cessão da base de Alcântara e de absorção da Embraer pela Boeing. Nesses casos, as negociatas envolvidas foram crimes de lesa pátria. Devem ser revertidos por amor à bandeira que o senhor tanto apregoa, e que terá nesses casos uma aplicação prática, não meramente retórica. Determine à Petrobrás estabelecer uma política decente de preços do diesel, do gás e da gasolina.

Desinvente seu Ministro das Relações Exteriores, que ousou aconselhá-lo a intervir na Venezuela, à margem do interesse nacional, expondo-nos a uma guerra inútil e violando a secular tradição brasileira de não intervenção em assuntos internos de outros países. Esqueça a Embaixada brasileira em Jerusalém: não traz benefício mesmo a Israel e traz para dentro de nossas fronteiras, um país tradicionalmente pacífico, as conseqüência de uma guerra externa.

Trate a chineses e russos, nossos parceiros no comércio e no BRICS, com a mesma consideração que se deve aos Estados Unidos. Recoloque o Brasil na posição de primeiro interessado no avanço operacional do Novo Banco de Desenvolvimento, que pode contribuir para que tenhamos acesso a um sistema de crédito externo voltado para estímulo à produção e à infra-estrutura, livre de condicionalidades políticas de grande parte dos bancos ocidentais.

Se o senhor tomar medidas realmente nacionalistas e a favor do povo, por certo não encontrará resistência no Congresso e terá o aplauso generalizado da opinião pública. Entretanto, seu discurso contra os conchavos e as negociatas nas relações do Executivo com o Congresso será vazio de conteúdo se o que pretende é o respaldo dele para a violação dos interesses fundamentais da Nação, como é o caso da reforma da Previdência de Guedes.

Enfim, senhor Presidente, use sua energia e suas boas intenções em favor do Brasil real, não o Brasil das ideologias, tão justamente criticadas pelo senhor. Livre das prédicas neoliberais de Paulo Guedes, o senhor pode propor ao Congresso uma grande política de busca de pleno emprego, prevista no art. 170 da Constituição, a qual poderia se tornar uma âncora para que se proponha à sociedade brasileira um grande pacto nacional pelo povo e pela Pátria.

Cordialmente, Roberto Requião

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